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Rússia conclui teste final do míssil 'Satanás 2' e Putin anuncia implantação em 2026
Lançamento do RS-28 Sarmat aconteceu na terça-feira (12) e teve como alvo a península de Kamchatka; míssil superpesado pode transportar dez ou mais ogivas nucleares e, segundo Moscou, atravessar os dois polos em menos de dez minutos
Leste Europeu
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■   Bernardo Cahue, 13/05/2026

A Rússia anunciou nesta terça-feira (12) a conclusão bem?sucedida do teste final de seu míssil balístico intercontinental RS?28 Sarmat, conhecido pela designação da Otan como “Satanás 2” (SS?29 Satan II). O lançamento ocorreu às 11h15 (horário de Moscou) a partir do Cosmódromo de Plesetsk, na região de Arkhangelsk, e, cerca de meia hora depois, o projétil atingiu o campo de treinamento de Kura, na península de Kamchatka, no extremo leste do país. O comandante das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia, Sergei Karakayev, informou o resultado ao presidente Vladimir Putin, que acompanhou a operação por vídeo de seu gabinete.

Putin classificou o teste como “um grande evento e um sucesso absoluto” e afirmou que o primeiro regimento armado com o Sarmat entrará em serviço de combate até o fim de 2026 na 62ª Divisão de Mísseis, em Uzhur, no Krai de Krasnoyarsk, na Sibéria. “No final deste ano, o Sarmat estará realmente em serviço de combate”, declarou o líder russo durante uma videoconferência com altas autoridades militares. O Kremlin informou ainda que notificou os Estados Unidos sobre o lançamento, conforme exige o atual entendimento militar entre as duas potências, embora o tratado bilateral de controle de armas New START tenha expirado em fevereiro de 2026.

Capacidades técnicas e potencial destrutivo

Projetado pelo Centro Estatal de Mísseis Makeyev e em desenvolvimento desde 2011, o RS?28 Sarmat é um míssil de combustível líquido, lançado de silo, com três estágios. Suas dimensões são imponentes: 35,3 metros de comprimento, três metros de diâmetro e massa de lançamento de cerca de 208 toneladas. De acordo com o governo russo, o Sarmat é classificado como “superpesado” — o primeiro míssil ICBM pós?soviético a receber essa denominação. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) aponta que o veículo pode transportar dez ou mais ogivas nucleares, com uma carga útil que chega a dez toneladas.

Putin declarou que a potência total combinada das ogivas do Sarmat é mais de quatro vezes superior à de qualquer equivalente ocidental existente. “Este é o sistema de mísseis mais poderoso do mundo”, afirmou o presidente. O míssil também pode carregar veículos hipersônicos Avangard — ogivas capazes de mudar de trajetória e velocidade durante o voo para escapar de sistemas de interceptação — o que, segundo Moscou, lhe confere a capacidade de “derrotar todos os sistemas antimísseis modernos”.

O governo russo enfatiza ainda que o Sarmat pode operar em trajetória suborbital, o que amplia seu alcance declarado para 35 mil quilômetros — quase a circunferência da Terra — e lhe permite aproximar?se do alvo por rotas não convencionais, inclusive passando pelos polos Norte e Sul. “O míssil pode viajar pelos dois polos e chegar à Europa em menos de dez minutos”, detalha matéria do G1. O ministério da Defesa da Rússia afirmou que “o Sarmat é o míssil mais poderoso com o maior alcance de destruição de alvos do mundo, o que aumentará significativamente o poder de combate das forças nucleares estratégicas de nosso país”.

Histórico de testes e desafios de desenvolvimento

O RS?28 Sarmat foi revelado publicamente por Putin em 2018, como parte de um pacote de novas armas estratégicas desenhadas para tornar obsoletos os sistemas de defesa antimísseis dos Estados Unidos. Embora o primeiro teste bem?sucedido tenha ocorrido em abril de 2022, o programa enfrentou atrasos e contratempos significativos. Inicialmente previsto para entrar em serviço em 2020, o míssil teve adiamentos sucessivos. Em setembro de 2024, uma tentativa de lançamento em Plesetsk fracassou, e, em novembro do mesmo ano, um novo teste foi interrompido de forma abrupta. Imagens de satélite analisadas pela CBS News na época mostraram uma grande cratera e restos de uma possível explosão na plataforma de lançamento. No dia 1º de dezembro de 2025, outro teste terminou com o míssil explodindo após cair de volta à Terra.

Diante desse histórico, o sucesso do lançamento de 12 de maio de 2026 assume especial relevância para Moscou. O jornal indiano Hindustan Times observa que, antes desta terça?feira, o Sarmat contava com apenas um único teste considerado bem?sucedido, além de uma série de falhas. A Gazeta do Povo, em sua cobertura, destaca que o marco representa um alívio para o Kremlin, que vinha sendo pressionado por analistas militares ocidentais a demonstrar a confiabilidade da nova arma.

Reações internacionais e contexto geopolítico

O teste final do Sarmat acontece poucos meses após o fim do New START, o último tratado bilateral de desarmamento nuclear entre Rússia e Estados Unidos, que expirou em fevereiro de 2026. Com o término do acordo, as duas maiores potências nucleares do mundo ficaram, pela primeira vez em mais de meio século, livres de limites quantitativos legalmente vinculantes para seus arsenais atômicos, o que reacendeu temores de uma nova corrida armamentista. Segundo o jornal Arab News, embora Moscou e Washington tenham concordado em restabelecer um diálogo militar de alto nível logo após o fim do tratado, não há sinais imediatos de renovação do pacto. O presidente dos EUA, Donald Trump, tem pressionado pela inclusão da China em um eventual novo acordo, mas Pequim rejeitou publicamente a pressão.

Analistas do Institute for the Study of War (ISW) avaliam que Putin recorre ao “sabre?régio nuclear” para projetar força militar e desviar a atenção de dificuldades no campo de batalha na Ucrânia. “Putin afirma que o Sarmat será implantado na 62ª Divisão de Mísseis em Krasnoyarsk ainda em 2026, repetindo promessas não cumpridas feitas em 2021, 2022 e 2023”, aponta o relatório do ISW. O instituto acrescenta que a retórica do presidente russo busca mascarar uma performance declinante das forças terrestres na frente ucraniana e uma captação de recrutas que, em janeiro de 2026, caiu abaixo da taxa de reposição pela primeira vez desde o início da invasão.

Pavel Podvig, pesquisador sênior do Instituto da ONU para Pesquisa sobre Desarmamento, considera realista a implantação do Sarmat ainda este ano, mas relativiza seu impacto estratégico: a nova arma “não provocará uma mudança significativa no potencial dissuasório das forças estratégicas russas”. Em contrapartida, o governo russo tem apresentado o míssil como a peça central da modernização do chamado “triád nuclear” — a tríade de bombardeiros, mísseis terrestres e submarinos nucleares que constituem a espinha dorsal da dissuasão russa.

O arsenal nuclear russo em expansão

Além do Sarmat, Putin mencionou que duas outras armas com propulsão nuclear de pequeno porte estão em fase final de desenvolvimento: o veículo submarino não tripulado Poseidon e o míssil de cruzeiro Burevestnik (termo em russo para “pássaro da tempestade”). O Poseidon foi projetado para detonar perto de litorais inimigos, gerando tsunamis radioativos, enquanto o Burevestnik, alimentado por um reator atômico, teria alcance virtualmente ilimitado, podendo pairar por dias em zonas de defesa antiaérea antes de atacar de uma direção inesperada. O presidente russo também reiterou o desenvolvimento do míssil de alcance intermediário Oreshnik, já utilizado em sua versão convencional contra alvos na Ucrânia.

O Kremlin tem apresentado esse arsenal como resposta à retirada dos Estados Unidos, em 2002, do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM, na sigla em inglês) e à construção do escudo antimíssil norte?americano. “A partir de 2000, a Rússia restabeleceu e continuou o trabalho de aumento do poder de dissuasão, que estava em queda no período mais difícil de sua história recente”, afirmou Putin em seu pronunciamento.

Conclusão

O teste final do RS?28 Sarmat representa, para Moscou, a reafirmação de sua capacidade de projetar poder estratégico em escala global, ainda que o programa tenha enfrentado anos de atrasos e falhas. Com a expiração do New START, o lançamento insere?se em um contexto de crescente tensão geopolítica e competição por arsenais de longo alcance, ao mesmo tempo em que especialistas divergem sobre o real impacto do “Satanás 2” no equilíbrio estratégico mundial. A entrada em serviço da primeira unidade, prevista para o final de 2026, será observada de perto pelas potências ocidentais, que seguem avaliando os desenvolvimentos do programa nuclear russo e suas implicações para a estabilidade global.

Especificações técnicas consolidadas do RS?28 Sarmat (“Satanás 2”)

  • Designação OTAN: SS?29 Satan II (SS?X?30 em fase de teste)
  • Fabricante: Centro Estatal de Mísseis Makeyev (Miass, Rússia)
  • Comprimento: 35,3 metros
  • Diâmetro: 3 metros
  • Massa de lançamento: aproximadamente 208 toneladas
  • Propulsão: três estágios, combustível líquido
  • Carga útil: até 10 toneladas
  • Ogivas: até 10 ogivas pesadas ou 16 leves, com capacidade para veículos hipersônicos Avangard
  • Alcance declarado pela Rússia: até 35.000 km (trajetória suborbital)
  • Alcance indicado por fontes independentes: aproximadamente 18.000 km (trajetória balística padrão)

Principais marcos do programa Sarmat (2018?2026)

  1. Março de 2018: Putin apresenta o Sarmat em discurso sobre o estado da nação, descrevendo?o como capaz de “tornar inúteis” os sistemas antimísseis dos EUA.
  2. Abril de 2022: primeiro teste bem?sucedido, a partir do Cosmódromo de Plesetsk, com acerto do alvo em Kamchatka.
  3. Setembro de 2024: lançamento de teste em Plesetsk termina em falha.
  4. Novembro de 2024: novo teste fracassa, e satélites ocidentais detectam uma grande cratera no local do lançamento.
  5. Dezembro de 2025: teste em Yasny termina com a explosão do míssil após queda de volta à Terra.
  6. Maio de 2026: teste final concluído com sucesso, com Putin anunciando implantação operacional até o fim do ano.

Notícias relacionadas e desdobramentos

A Rússia declarou que o Sarmat será integrado à 62ª Divisão de Mísseis em Uzhur, no centro?sul da Sibéria, uma área de importância estratégica por sua localização interiorana e sua proximidade com rotas aéreas polares. A operacionalização da nova arma ocorre em paralelo ao avanço de outros sistemas hipersônicos e de propulsão nuclear, como o míssil de cruzeiro Burevestnik, cujos testes também teriam sido acelerados. A comunidade internacional, por sua vez, monitora com atenção se o Kremlin buscará replicar o modelo do New START ou se, ao contrário, optará por manter a atual ausência de limites legais para expansão de seu arsenal atômico de longo alcance.

Com informações de G1 (Brasil), Gazeta do Povo (Brasil), Jornal de Brasília (Brasil), CBS News (EUA), The War Zone (EUA), Arab News (Arábia Saudita), Straits Times (Cingapura), Hindustan Times (Índia), Antena 3 CNN (Romênia), RTBF (Bélgica), WION (Índia), Understanding War (ISW, EUA), Sputnik (Rússia), Sohu (China), Liberty Times (Taiwan) ■

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