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O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou neste sábado (9) que acredita que o conflito na Ucrânia pode estar próximo do fim. “Eu acho que o conflito na Ucrânia está chegando ao fim”, declarou o líder russo a jornalistas, em entrevista coletiva no Kremlin, poucas horas após participar de um desfile do Dia da Vitória em Moscou – o mais enxuto dos últimos anos. A declaração, repercutida mundialmente, foi a mais explícita do chefe do Kremlin sobre um possível desfecho da guerra que já dura mais de quatro anos e é considerada o conflito mais mortal na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
A fala de Putin, no entanto, veio acompanhada de uma série de condicionantes e foi recebida com ressalvas tanto no Ocidente quanto na própria Ucrânia. O presidente russo afirmou que só se reuniria com o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, após a conclusão de um “acordo de paz duradouro”, descartando encontros para negociações preliminares. “Podemos nos encontrar em um terceiro país, mas somente quando um acordo de paz duradouro for feito”, declarou. A posição contrasta com a insistência de Kiev em um encontro direto entre os dois presidentes como passo para avançar nas conversas.
Cessar-fogo de três dias e ofensivas à parte
As declarações de Putin ocorreram em meio a um cessar-fogo de três dias mediado pelos Estados Unidos, que teve início no sábado, véspera do Dia da Vitória na Rússia. O presidente americano, Donald Trump, anunciou na sexta-feira (8) uma trégua entre os dias 9 e 11 de maio, que também previa a troca de mil prisioneiros de cada lado. “É o começo do fim de uma guerra muito longa, mortal e duramente lutada”, escreveu Trump em sua rede Truth Social. Apesar do acordo, Rússia e Ucrânia acusaram-se mutuamente de violar a trégua ainda no primeiro dia, com relatos de disparos de drones e ataques de artilharia em diversas regiões.
A fragilidade do cessar-fogo ficou evidente quando o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou à imprensa que a paz com a Ucrânia ainda está “muito longe” e que os temas subjacentes são complexos demais para uma solução rápida. “A questão de um acordo com a Ucrânia é muito complexa, e alcançar um acordo de paz é um caminho muito longo, cheio de detalhes complexos”, declarou Peskov. O porta-voz também afirmou que a Rússia não mantém, por enquanto, negociações formais com Kiev, e que as tratativas estão “basicamente paralisadas”.
O peso do Dia da Vitória e o desfile simbólico
A fala de Putin aconteceu após o desfile do Dia da Vitória na Praça Vermelha, que neste ano teve duração de apenas 45 minutos e, pela primeira vez em quase duas décadas, não contou com a exibição de equipamentos militares – tanques, mísseis e sistemas antiaéreos foram substituídos por vídeos das forças russas em ação, projetados em telões. A decisão reflete os impactos da guerra no cotidiano russo, com o Kremlin adotando medidas de segurança excepcionais, incluindo a interrupção do acesso à internet no centro de Moscou e a instalação de um novo anel de defesa aérea com mais de cem baterias antiaéreas ao redor da capital.
Em seu discurso durante o desfile, Putin voltou a classificar a operação militar como justa e necessária, afirmando que as tropas russas enfrentam “uma força agressiva, armada e apoiada por todo o bloco da Otan”. “Estou firmemente convencido de que nossa causa é justa. Estamos juntos. A vitória foi nossa, e será para sempre”, discursou o presidente russo. Analistas apontaram que o tom do discurso mesclou otimismo com um reconhecimento implícito dos desafios no campo de batalha, em meio a relatos de avanços lentos das forças russas e a intensificação dos ataques ucranianos com drones de longo alcance.
Reações divididas: ceticismo no Ocidente, esperança na Ucrânia?
A declaração de Putin gerou reações contrastantes ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, Trump classificou a trégua de três dias como um progresso significativo, mas líderes europeus se mostraram mais céticos, lembrando que o presidente russo já fez promessas semelhantes no passado sem que houvesse avanços concretos. A chanceler alemã, em nota, afirmou que “ações falarão mais alto que palavras” e que a Alemanha continuará apoiando a Ucrânia enquanto persistirem as hostilidades.
Na Ucrânia, a reação foi de cautela. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia está aberta à paz, mas que não aceitará uma “rendição disfarçada”. Em declarações à imprensa, Zelensky recordou que, em fevereiro de 2026, ao completar quatro anos de invasão, declarou que Putin “não alcançou os seus objetivos. Não quebrou o povo ucraniano. Não ganhou esta guerra”. A população civil, por sua vez, recebeu a trégua de três dias com um misto de alívio e desconfiança, conforme relatado por agências de notícias no terreno. “Por um lado, isto é muito bom porque as noites sem dormir já estavam cansando. Ao menos por alguns dias poderemos dormir em paz, sem ataques”, disse à Reuters Kateryna Kizev, uma refugiada da cidade de Kherson.
O cenário de bastidores e as negociações para um novo pacto europeu
Nas entrelinhas, analistas apontaram que a fala de Putin pode ter múltiplos objetivos: além de projetar uma imagem de força e controle no cenário doméstico, ela também serve como um sinal para o Ocidente de que a Rússia está disposta a negociar novas arquiteturas de segurança para a Europa – desde que sob seus termos. O presidente russo mencionou, inclusive, que seu interlocutor preferido para eventuais negociações seria o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, uma figura controversa na Europa por sua aproximação com Moscou.
Por trás das câmeras, a possibilidade de um cessar-fogo mais duradouro ainda esbarra em pontos de discórdia fundamentais. As exigências russas incluem o reconhecimento da anexação das quatro regiões ucranianas parcialmente ocupadas (Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson), a “desmilitarização” da Ucrânia e a garantia de que o país nunca ingressará na Otan. Kiev, por sua vez, insiste na retirada completa das tropas russas de seu território e na responsabilização por crimes de guerra – demandas que Moscou recusa terminantemente.
Lista de exigências russas para um acordo final (de acordo com declarações de autoridades na semana anterior)
Até o momento, o governo ucraniano rejeitou publicamente cada um desses pontos, ressaltando sua integridade territorial e soberania.
Próximos passos: incerteza após 11 de maio
Com o cessar-fogo de três dias previsto para terminar na próxima terça-feira (11), a grande questão que paira no ar é se haverá uma extensão da trégua. O Kremlin já deixou claro que não há, por ora, planos de prolongá-la, e que “as negociações provavelmente serão retomadas, mas ainda não se sabe quando”. Já o presidente Trump manifestou publicamente o desejo de uma “grande extensão” do acordo, o que dependeria, na prática, de uma nova rodada de conversas entre Moscou e Kiev, com mediação americana.
Enquanto isso, no campo de batalha, as forças russas continuam seu avanço lento, mas gradual, na região de Donbas, enquanto a Ucrânia realiza ataques com drones contra infraestruturas energéticas e alvos militares em território russo, incluindo uma refinaria de petróleo em Yaroslavl e uma base militar na Chechênia, que pegaram fogo na véspera do cessar-fogo. Analistas do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) afirmam que as forças ucranianas intensificaram “significativamente” sua campanha de ataques de médio alcance contra a logística, equipamentos e mão de obra russos no início de 2026, degradando a capacidade ofensiva de Moscou.
Em meio a esse cenário de contradições, a declaração de Putin é recebida como um aceno potencial, mas ainda distante, de um desfecho para o conflito que já causou centenas de milhares de baixas, destruiu cidades inteiras e reconfigurou a geopolítica mundial. Para os ucranianos que anseiam pelo fim dos bombardeios, e para as famílias russas que perderam seus filhos na guerra, o anúncio do presidente russo insere uma nova, ainda que frágil, variável na equação da paz.
Com informações de G1, CNN Brasil, Reuters, Associated Press, Agence France-Presse, BBC News Brasil, The Guardian, The New York Times, The Washington Post, USA Today, NBC News, Al Jazeera, Kyiv Independent, Ukrinform, TASS, RT (Russia Today), RIA Novosti, O Globo, Valor Econômico, Estadão, Folha de S.Paulo, UOL, Terra, R7, Jovem Pan, BandNews TV, Record News, RedeTV!, SBT News, Diário do Comércio, Brasil de Fato, Opera Mundi, CartaCapital, Veja, Época, IstoÉ, Exame, InfoMoney, Valor Investe, Suno Notícias, Bloomberg Brasil, Money Times, Seu Dinheiro, NeoFeed, Brazil Journal, Pipeline, JOTA ■