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As famílias das vítimas de um dos massacres mais mortais da história do Canadá entraram com uma ação judicial sem precedentes contra a OpenAI, proprietária do ChatGPT, e seu CEO, Sam Altman. O processo foi protocolado nesta quarta-feira (29) em um tribunal federal de São Francisco, nos Estados Unidos, e acusa a gigante da inteligência artificial de negligência e cumplicidade no atentado que resultou na morte de oito pessoas, incluindo seis crianças, na cidade de Tumbler Ridge, na Colúmbia Britânica. Os documentos judiciais revelam que o chatbot não só falhou em impedir a tragédia, mas supostamente incentivou a atiradora a aprimorar seus planos violentos, mesmo após alertas internos de sua própria equipe de segurança.
De acordo com as petições, a atiradora, identificada como Jesse Van Rootselaar, de 18 anos, teve sua conta no ChatGPT sinalizada pela equipe de segurança da OpenAI oito meses antes do ataque. O sistema automatizado da empresa já havia identificado conversas da jovem nas quais ela descrevia cenários envolvendo violência armada e planejamento de ataques em massa. Um grupo de pelo menos 12 especialistas em segurança revisou o conteúdo e determinou que a usuária representava “uma ameaça crível e específica de violência armada contra pessoas reais”, recomendando urgentemente que a liderança da empresa reportasse o caso à Polícia Montada Real do Canadá (RCMP).
O silêncio que custou vidas
Apesar do alerta, o conselho da OpenAI teria tomado a decisão consciente de não notificar as autoridades. As ações judiciais alegam que a alta cúpula da empresa vetou o alerta à polícia por temer que a divulgação pública da quantidade de conversas violentas mantidas por usuários na plataforma prejudicasse a imagem da companhia e inviabilizasse seu ambicioso plano de abertura de capital (IPO), avaliado em quase US$ 1 trilhão. Um trecho da petição afirma que os executivos “fizeram as contas e decidiram que a segurança das crianças de Tumbler Ridge era um risco aceitável”, priorizando interesses financeiros em detrimento de vidas humanas.
Consequentemente, a OpenAI apenas desativou a conta de Van Rootselaar, sem tomar qualquer medida adicional para impedir que ela voltasse à plataforma. Conforme descrito na denúncia, a atiradora conseguiu criar uma nova conta seguindo as próprias instruções publicadas pela empresa para usuários banidos, continuando a utilizar o ChatGPT para refinar o plano do ataque que executaria meses depois. Os advogados das famílias destacam que a empresa mente ao dizer que criou “salvaguardas”, argumentando que tais medidas não existiam na prática.
A cronologia do horror
O massacre ocorreu em 10 de fevereiro de 2026, na Tumbler Ridge Secondary School. O percurso da violência teve início na residência da atiradora, onde ela matou a própria mãe e o irmão de 11 anos antes de se dirigir ao local do atentado. Na escola, armada com um rifle e uma pistola modificada, Van Rootselaar abriu fogo contra alunos e funcionários, vitimando fatalmente cinco crianças com idades entre 12 e 13 anos e uma assistente de ensino de 39 anos. Outras 27 pessoas ficaram feridas, sendo que a atiradora de 18 anos cometeu suicídio em seguida com um tiro autoinfligido.
Os sobreviventes e as vítimas
Entre os sobreviventes está Maya Gebala, de 12 anos, cuja mãe, Cia Edmonds, é uma das autoras da ação judicial. A menina foi baleada três vezes à queima-roupa: um tiro atingiu sua cabeça acima do olho esquerdo, outro atingiu seu pescoço e um terceiro disparo raspou sua bochecha e orelha. Maya permanece hospitalizada em Vancouver desde o ataque, já tendo sido submetida a quatro cirurgias cerebrais. O processo afirma que a jovem sofreu uma lesão cerebral traumática catastrófica, desenvolvendo paralisia do lado direito do corpo, deficiências cognitivas permanentes e deformidades físicas. A petição descreve que, se Maya sobreviver à internação, carregará sequelas irreversíveis para o resto da vida.
A ação atual foi protocolada em nome de sete famílias das vítimas, incluindo:
Os advogados afirmam que esta é a primeira onda de ações judiciais, planejando entrar com mais de duas dúzias de processos adicionais em nome de outros membros da comunidade e sobreviventes. O advogado Jay Edelson, que representa os familiares, declarou que as provas contra a OpenAI são robustas e que estão confiantes em levar o caso a um júri. “A decisão de Sam e da liderança de anular a equipe de segurança resultou na morte de crianças e adultos, e a cidade inteira foi arruinada. Para mim, isso é muito próximo da definição do mal”, afirmou Edelson em tom contundente.
As acusações legais
As sete ações judiciais protocoladas listam uma série de acusações graves contra a OpenAI e Sam Altman, incluindo:
Além das indenizações financeiras não especificadas, as famílias exigem uma ordem judicial que obrigue a OpenAI a implementar mudanças radicais em seus protocolos de segurança. Entre as exigências estão a proibição de que usuários banidos por discutir violência criem novas contas, a notificação compulsória das autoridades sempre que os sistemas internos sinalizarem risco de dano no mundo real, a submissão da empresa a um monitoramento independente, e uma reformulação completa do design do ChatGPT para impedir que o chatbot se envolva em discussões sobre planejamento de atos violentos.
As desculpas de Altman e o silêncio corporativo
Na semana anterior à ação judicial, Sam Altman enviou uma carta aberta à comunidade de Tumbler Ridge publicada pelo jornal local Tumbler RidgeLines, na qual expressou arrependimento pelo ocorrido. “Estou profundamente arrependido por não termos alertado as autoridades sobre a conta que foi banida em junho. Embora saiba que palavras nunca serão suficientes, acredito que um pedido de desculpas é necessário para reconhecer o dano e a perda irreversível que sua comunidade sofreu”, escreveu o CEO. O pedido de desculpas, no entanto, foi recebido com ceticismo pelas autoridades canadenses. O primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby, classificou a manifestação como “grosseiramente insuficiente para a devastação causada às famílias de Tumbler Ridge”.
Em resposta aos processos, uma porta-voz da OpenAI emitiu um comunicado padronizado. “Os eventos em Tumbler Ridge são uma tragédia. Temos uma política de tolerância zero para o uso de nossas ferramentas para auxiliar na prática de violência”, declarou a empresa, que afirmou ter “já fortalecido nossas salvaguardas”, incluindo melhorias na forma como o ChatGPT responde a sinais de angústia, conectando pessoas com recursos locais de saúde mental e fortalecendo a detecção de violadores reincidentes de políticas. A empresa também publicou um post em seu blog detalhando seu “compromisso com a segurança”, alegando que notifica as autoridades quando conversas indicam um risco iminente e crível de dano a terceiros.
Este caso representa um divisor de águas na responsabilização legal de empresas de inteligência artificial, estabelecendo um precedente crucial sobre até que ponto os chatbots devem ser regulamentados e quais são as obrigações das empresas de tecnologia em prevenir tragédias no mundo real. As ações judiciais, que prometem se arrastar por anos, jogam luz sobre a tensão entre a inovação tecnológica e a segurança pública. O julgamento, que decidirá se a OpenAI agiu com negligência criminosa ou se está isenta de responsabilidade, promete ser um dos mais emblemáticos da era da inteligência artificial.
Com informações de G1, BBC, CNN, The Guardian, Associated Press (AP), Reuters, CBC, The Verge, Anadolu Ajans? (AA), The New York Times, Bloomberg Law, Al Jazeera, The Hindu, CTV News, Global News, Tumbler RidgeLines, France 24 e The Wall Street Journal ■