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Chanceler iraniano chega a Moscou para encontros com Lavrov e Putin
Diplomacia de alto nível busca apoio russo após colapso das negociações de paz com os EUA
Europa
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■   Bernardo Cahue, 27/04/2026

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, desembarcou na manhã desta segunda-feira (27) em São Petersburgo, na Rússia, para uma série de encontros de alto nível com as mais altas autoridades do Kremlin. A visita, que ocorre em um momento de extrema sensibilidade geopolítica, inclui reuniões com o presidente Vladimir Putin e com o chanceler russo, Sergey Lavrov. A chegada do chanceler iraniano à Rússia foi confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores do Irã, por meio de sua conta oficial no Telegram.

Araghchi chegou à cidade russa a bordo do voo "Minab 168", um indicativo de chamada (callsign) carregado de simbolismo. O nome é uma homenagem às crianças mortas em um ataque militar ítalo-israelense a uma escola primária na cidade iraniana de Minab, ocorrido em 28 de fevereiro, nos primeiros dias do conflito.. O chanceler iraniano desembarcou no aeroporto de Pulkovo, onde foi recebido por autoridades locais antes de seguir para sua agenda de compromissos.

A visita a Moscou representa a mais nova etapa de uma intensa turnê diplomática regional que Araghchi vem realizando nos últimos dias, em uma tentativa de reanimar as negociações de paz com os Estados Unidos. Antes de chegar à Rússia, o chanceler iraniano esteve em Islamabad, no Paquistão, onde se encontrou com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif, o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, e o ministro das Relações Exteriores, Ishaq Dar. De lá, viajou para Mascate, em Omã, antes de retornar brevemente a Islamabad e, em seguida, seguir para a Rússia.

A missão de mediação do Paquistão sofreu um duro golpe no último sábado (25), quando o presidente dos EUA, Donald Trump, cancelou uma viagem planejada de seus enviados, Steve Witkoff e Jared Kushner, a Islamabad. Trump justificou a decisão afirmando que as conversas se tornariam uma "perda de tempo", pois, segundo ele, os EUA detêm as "cartas vencedoras" neste conflito. Em entrevista à Fox News no domingo (26), Trump reiterou que as negociações podem continuar, mas por telefone: "Se eles querem conversar, podem vir até nós ou podem nos ligar. Têm um telefone. Temos linhas seguras".

Apesar do cancelamento da viagem dos enviados norte-americanos, os canais diplomáticos permanecem abertos, ainda que de forma indireta. O Irã, segundo a agência de notícias Fars, enviou "mensagens escritas" aos EUA por meio dos mediadores paquistaneses. O documento teria delineado as principais "linhas vermelhas" de Teerã, com destaque para a questão nuclear e, principalmente, o controle do Estreito de Ormuz. O chanceler iraniano, ao desembarcar na Rússia, reafirmou que "o trânsito seguro pelo Estreito de Ormuz é uma questão global importante" e culpou as "exigências excessivas" dos EUA pelo fracasso da rodada anterior de negociações no Paquistão, em meados de abril.

O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã continua a causar fortes repercussões na economia global. A medida interrompeu o fluxo de petróleo, gás e fertilizantes, fazendo os preços dispararem e gerando preocupações com a segurança alimentar em países em desenvolvimento. Em resposta, os EUA impuseram um bloqueio naval aos portos iranianos, intensificando o impasse. O presidente Trump, que enfrenta pressão interna com o aumento dos preços dos combustíveis em um ano de eleições de meio de mandato, indicou que mantém o bloqueio na esperança de que a pressão econômica force uma concessão de Teerã em semanas.

Neste cenário de negociações bilaterais estagnadas, a Rússia se consolida como um aliado estratégico e diplomático crucial para o Irã. O Kremlin tem se posicionado firmemente ao lado de Teerã, classificando os ataques dos EUA ao país como "agressão não provocada" e atuando como um contrapeso à pressão ocidental. No Conselho de Segurança da ONU, Moscou, ao lado da China, usou seu direito de veto para barrar uma resolução patrocinada pelos EUA sobre o Estreito de Ormuz, que o embaixador iraniano em Moscou, Kazem Jalali, descreveu como "desequilibrada e irracional".

O aprofundamento da parceria entre Irã e Rússia foi formalizado com a assinatura de um tratado de 20 anos em janeiro de 2025, que fortalece os laços econômicos, militares e políticos entre as duas nações. Apesar da aliança estratégica, o pacto não chega a ser um tratado de defesa mútua. Além disso, o Kremlin se ofereceu repetidamente para assumir o estoque de urânio enriquecido do Irã, uma oferta que, segundo relatos, teria sido rejeitada pelo presidente Trump para evitar que Moscou ganhasse ainda mais influência sobre o programa nuclear iraniano. Relatos da imprensa indicam ainda que a Rússia vem fornecendo ao Irã informações de inteligência sobre a localização de tropas e ativos militares americanos na região.

A viagem do chanceler iraniano a Moscou, em um momento de aparente impasse nas negociações diretas com Washington, envia um forte sinal: o Irã busca consolidar sua posição e fortalecer sua rede de alianças como forma de pressão e apoio em um momento crítico do conflito. As reuniões com Putin e Lavrov devem se concentrar em "coordenar interações e avançar programas conjuntos nos níveis regional e internacional", além de avaliar o status das negociações de cessar-fogo e os impactos do conflito.

Com informações de CNN, Egypt Independent, News18, Meduza, Daily Times, Hürriyet Daily News, The Peninsula, O Globo, Carta Capital, CNN Brasil, DW, Dawn, The National, BBC, SBS, Asharq Al-Awsat, Euronews Persian, Tasnim, ISNA, NV.ua, WION, Tribune India, RTHK, BSS News, Lokmat Times, Jang, Mid-Day, UOL, BandNews TV ■

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