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Preços exorbitantes e revolta global: a Copa do Mundo mais cara da história
Ingressos da final ultrapassam US$ 11 mil, transporte custa até 12 vezes mais que o normal, e torcedores se organizam em protestos contra o que chamam de "morte do futebol popular"
America do Norte
Foto: https://www.remessaonline.com.br/blog/wp-content/uploads/2022/11/historia-copa-do-mundo.jpg
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■   Bernardo Cahue, 21/04/2026

A poucas semanas do início da Copa do Mundo de 2026, que será disputada em 16 estádios espalhados pelos Estados Unidos, Canadá e México, a indignação dos torcedores atinge um ponto de ebulição. O que era para ser uma grande festa do futebol mundial transformou-se em um campo de batalha entre a Fifa e os apaixonados pelo esporte, que denunciam a edição mais cara da história e acusam a entidade máxima do futebol de praticar "preços abusivos" e adotar políticas "opacas" e "exploratórias". A revolta é global, une torcedores de diferentes continentes e já resultou em ações formais na justiça, ameaças de boicote e uma crescente sensação de que o futebol, cada vez mais, se torna um privilégio para poucos.

O estopim para a crise de confiança entre a Fifa e os fãs foi a revelação dos preços dos ingressos para a fase final da competição. De acordo com informações da agência de notícias alemã Deutsche Welle (DW), a entidade espera arrecadar um recorde de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 15 bilhões) apenas com a venda de ingressos. Para atingir essa meta, a Fifa implementou, pela primeira vez na história do torneio, um sistema de preços dinâmicos, semelhante ao utilizado por companhias aéreas e em grandes eventos de rock nos Estados Unidos. O resultado foi um aumento vertiginoso e sem precedentes nos valores.

O exemplo mais gritante dessa escalada de preços é a partida final, marcada para 19 de julho no icônico MetLife Stadium, em Nova Jersey. O ingresso mais barato para a decisão custa quase R$ 21 mil, um valor sete vezes superior ao cobrado na final da Copa do Mundo de 2022, no Catar. Já os assentos de categoria 1, os mais caros disponíveis para o público geral, atingiram a cifra astronômica de US$ 10.990 (aproximadamente R$ 59 mil ou £8.335). O valor representa um salto de mais de 70% em relação aos US$ 6.370 cobrados na primeira fase de vendas, em outubro do ano passado.

Esses números contrastam drasticamente com as promessas feitas no dossiê de candidatura conjunta das três nações anfitriãs, que em 2018 havia garantido que o preço médio de um ingresso para a decisão não passaria de US$ 1.408 (cerca de R$ 7.500). A disparidade entre o prometido e o praticado é um dos principais pontos levantados pelos torcedores e organizações de defesa do consumidor em suas reclamações.

A insatisfação, no entanto, não se limita aos altos valores. As táticas de venda e as políticas da Fifa estão sendo amplamente criticadas. Entre as principais queixas, estão:

  • Publicidade enganosa: A Fifa divulgou a existência de ingressos a partir de US$ 60 para atrair torcedores. No entanto, os grupos de fãs denunciam que esses bilhetes de valor mais baixo são extremamente escassos e, na prática, inacessíveis para a grande maioria.
  • Taxas abusivas na revenda: No mercado de revenda oficial da Fifa, a entidade cobra uma comissão de 15% do comprador e 15% do vendedor, embolsando 30% do valor de cada transação. Em plataformas de revenda, ingressos para a final chegaram a ser listados por até US$ 57.000. Uma cadeira para a estreia dos EUA foi anunciada por impressionantes US$ 143.750, mais de 41 vezes o valor original.
  • Mudança de assentos e setores: Torcedores que adquiriram ingressos caros, da Categoria 1, se sentiram enganados ao descobrir, na última fase de alocação, que seus assentos haviam sido remanejados para setores inferiores, como os cantos do estádio ou atrás dos gols. Há fortes suspeitas de que os melhores lugares centrais tenham sido reservados para pacotes de hospitalidade VIP, que começam em R$ 7 mil e podem chegar a valores muito mais altos.
  • Problemas na plataforma de vendas: Relatos de longas filas de espera, erros no site e páginas que não carregavam foram comuns durante os períodos de venda, frustrando ainda mais os torcedores.

Diante desse cenário, a revolta dos torcedores deixou de ser apenas uma reclamação nas redes sociais para se transformar em ação concreta. Em uma medida inédita, a Football Supporters Europe (FSE), a maior organização de torcedores do continente, uniu forças com a entidade de defesa do consumidor Euroconsumers e apresentou uma queixa formal de 18 páginas à Comissão Europeia. O documento acusa a Fifa de abusar de sua "posição de monopólio" na venda de ingressos, impondo condições que seriam inaceitáveis em um mercado competitivo. A ação pede medidas emergenciais, incluindo o congelamento dos preços e a suspensão da prática de preços dinâmicos para os torcedores europeus.

Nos Estados Unidos, a indignação também ecoou entre as autoridades. Um grupo de 69 congressistas democratas enviou uma carta ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, questionando como a política de preços se alinha com a missão da entidade de popularizar o futebol. A pressão política aumentou quando o governador de Nova Jersey interveio, mas as críticas mais contundentes partiram da própria população.

A indignação tomou as ruas de Nova Jersey. Torcedores realizaram manifestações em frente ao estádio MetLife, segurando cartazes que denunciavam o que chamam de "preços criminosos". Um torcedor norte-americano, ouvido pela imprensa, resumiu o sentimento geral: "Fiquei chocado com o nível de ganância, para ser sincero". Do outro lado do Atlântico, a comoção não foi menor. Na França, Mehdi Salem, vice-presidente da associação de torcedores Les Baroudeurs, foi enfático: "Todo mundo se sentiu um pouco traído. É a morte do futebol. Esses preços eliminam mais da metade dos nossos associados só do ponto de vista financeiro". Salem ainda acrescentou que esta "não será uma Copa do Mundo popular, mas a Copa do Mundo dos ricos".

Com um misto de revolta e tristeza, torcedores de todo o mundo, como os senegaleses que relataram sua indignação, chegam a cogitar o boicote. "Se não somos aceitos como torcedores, nossas seleções não deveriam ir – e deveríamos realmente boicotar o torneio. Sem torcedores, não existe esporte, não existe entretenimento", desabafou uma torcedora do Senegal.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestou "preocupação" com o impacto dessas políticas no direito de acesso à cultura e ao esporte, lembrando que o futebol é um fenômeno global que deveria ser inclusivo. A entidade pediu "transparência e moderação" nos preços.

Para muitos, a gota d'água que faltava para confirmar o caráter predatório dessa edição foi a revelação do custo do transporte público. As autoridades de Nova Jersey anunciaram que cobrariam US$ 150 (aproximadamente R$ 800) pela viagem de ida e volta de trem de Nova York ao MetLife Stadium. O valor é quase 12 vezes maior que a tarifa usual de US$ 12,90 para o mesmo trajeto. A governadora recém-empossada, Mikie Sherrill, justificou o aumento dizendo que a Fifa "não investiu um centavo sequer no transporte de torcedores" e se recusou a subsidiar os fãs às custas dos contribuintes de Nova Jersey. A Fifa, por sua vez, rebateu as críticas, afirmando que o aumento teria um "efeito paralisante" na ida dos torcedores aos estádios e alertando para as consequências reais dessa decisão.

Esse ciclo de aumentos – nos ingressos, na revenda oficial, no estacionamento (que pode chegar a US$ 225) e agora no transporte – pintou um quadro sombrio para o torcedor comum, que vê o sonho de assistir a uma Copa do Mundo se distanciar. A Fifa, sob intensa pressão, defende-se afirmando que os preços "refletem a demanda do mercado" e que o dinheiro arrecadado será reinvestido no desenvolvimento do futebol global. No entanto, para milhões de fãs que se sentem traídos e excluídos, a explicação soa como mais uma tentativa de justificar o que consideram uma exploração comercial sem limites. A menos de dois meses do pontapé inicial, a Copa do Mundo de 2026 já entrou para a história, mas por um motivo que ninguém gostaria: a de ter se tornado o maior palco da crescente e dolorosa elitização do esporte mais popular do planeta.

Com informações de G1, UOL, Deutsche Welle, The Athletic, Daily Sabah, LBC, Libération, RMCSport BFMTV, Cairo24, Al-Araby Al-Jadeed, ???? (Worker's Daily), ???? (Shenzhen Economic Daily), Reuters (Yahoo! News Japan), ?? (Sohu), BBC, FrancsJeux, NDTV, Al Jazeera ■

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