Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Peru elege novo presidente com recorde histórico de 35 candidatos e cenário político fragmentado
Pulverização de votos e alto índice de indecisos tornam imprevisível a disputa pelo Palácio do Governo; segundo turno está marcado para 7 de junho
America do Sul
Foto: https://s2-g1.glbimg.com/dQS2SJTiOuK8vJfQywIb_yOrjIY=/0x0:6500x4334/1008x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/q/F/6jyR0wQn67an43DfOYkQ/2026-04-09t133251z-777728443-rc24lkaqbvbx-rtrmadp-3-peru-election-security.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 12/04/2026

Os peruanos foram às urnas neste domingo, 12 de abril de 2026, para escolher o próximo presidente do país em uma eleição histórica que reúne o maior número de candidatos já registrado na América do Sul: 35 postulantes disputam o cargo máximo do Executivo peruano. A eleição ocorre em meio a uma profunda crise de representatividade e instabilidade política, que fez com que o Peru tivesse nove presidentes nos últimos dez anos – sendo três eleitos e seis interinos.

Além do chefe do Executivo e dos dois vice-presidentes, os eleitores também definem a composição de um Congresso que volta a ser bicameral após mais de três décadas, com 130 deputados e 60 senadores. A votação é obrigatória para cidadãos entre 18 e 70 anos, e mais de 27 milhões de peruanos estão aptos a votar. A expectativa é que os primeiros resultados comecem a ser divulgados à meia?noite (horário local).

Contexto de crise e fragmentação política

O recorde de candidatos é um sintoma claro do esfacelamento do sistema partidário peruano. Nenhum dos postulantes conseguiu romper a barreira dos 20% de intenção de voto ao longo de toda a campanha, e as pesquisas mais recentes indicavam que os principais nomes oscilavam entre 7% e 15%. Cerca de 13% do eleitorado permanecia indeciso até a véspera da votação, segundo analistas da consultoria Teneo.

O país vive uma sucessão de escândalos de corrupção que levaram à prisão todos os presidentes eleitos neste século. Atualmente, quatro ex?mandatários estão detidos: Alejandro Toledo, Pedro Castillo, Ollanta Humala e Martín Vizcarra, acusados de crimes que vão de lavagem de dinheiro a tentativa de golpe de Estado. A essa instabilidade soma?se uma escalada da violência: a taxa de homicídios saltou de 1.000 por ano em 2018 para 2.600 em 2025, enquanto as denúncias de extorsão dispararam de 3.200 para mais de 26.500 no mesmo período.

Principais candidatos

Apesar da profusão de nomes, a disputa concentrou?se em cinco candidatos que apareceram com maior frequência nas pesquisas:

  • Keiko Fujimori (Fuerza Popular): filha do ex?ditador Alberto Fujimori, lidera as pesquisas com cerca de 15% das intenções de voto. Esta é sua quarta tentativa consecutiva de chegar à presidência – ela chegou ao segundo turno em 2011, 2016 e 2021, sendo derrotada nas três ocasiões. Sua campanha mistura propostas neoliberais com assistencialismo e defesa da “mão dura” contra o crime, evocando o legado do pai.
  • Carlos Álvarez (País para Todos): humorista e apresentador de televisão, é o “outsider” da eleição. Sem experiência prévia em cargos públicos, ganhou espaço ao fazer piadas e imitar os adversários. Propõe a pena de morte e a retirada do país da Convenção Americana de Direitos Humanos. Aparece com cerca de 8% das intenções de voto.
  • Rafael López Aliaga (Renovación Popular): ex?prefeito de Lima, é um ultraconservador católico que afirma usar um cilício diariamente para não cair em tentação sexual e diz não ter relações sexuais desde 1981. Foi o primeiro colocado nas pesquisas até agosto de 2025, mas caiu para cerca de 7% na reta final. Defende a prisão de criminosos em presídios na Amazônia cercados por serpentes venenosas.
  • Ricardo Belmont (Cívico Obras): empresário de mídia e também ex?prefeito de Lima, surfou na onda anti?sistema e aparecia em empate técnico pelo segundo lugar em algumas pesquisas. Sua campanha foi marcada por polêmicas, incluindo a ausência de propostas concretas para a segurança pública.
  • Roberto Sánchez (Juntos por el Perú): o principal nome da esquerda na disputa, ex?ministro de Comércio Exterior e Turismo, com propostas de fortalecimento do Estado e combate à desigualdade.

Além desses, outros 30 candidatos completam a lista – entre eles empresários, ex?congressistas, líderes regionais e figuras sem qualquer experiência política prévia. Havia originalmente um 36º candidato, Napoleón Becerra, que morreu em um acidente de carro durante a campanha, reduzindo o número final para 35.

Propostas e temas centrais da campanha

A campanha eleitoral foi dominada por dois grandes eixos: o combate à corrupção e a repressão à criminalidade. A violência, especialmente a extorsão e os assassinatos ligados ao crime organizado, tornou?se a principal preocupação dos eleitores, superando até mesmo a corrupção em muitas pesquisas. Os candidatos disputaram entre si quem apresentaria a retórica mais dura, com promessas que vão desde a expulsão de imigrantes irregulares até o envio de criminosos para prisões na selva.

A eleição também tem repercussões geopolíticas. O professor Gustavo Menon, da USP, avaliou que o pleito é “decisivo do ponto de vista das correntes políticas da direita para conter o avanço chinês no fluxo comercial com diferentes países da América do Sul”. Keiko Fujimori sinalizou uma aproximação com os Estados Unidos, enquanto outros candidatos mantiveram posições mais pragmáticas em relação à China, maior parceiro comercial do Peru.

Segundo turno já desenhado

Com a pulverização das intenções de voto, nenhum dos candidatos tem chance de alcançar os 50% + 1 dos votos válidos necessários para vencer já no primeiro turno. O segundo turno está marcado para 7 de junho de 2026, quando os dois candidatos mais votados se enfrentarão. As pesquisas indicam Keiko Fujimori como a única presença praticamente certa na segunda fase; seu adversário deverá sair de um empate técnico entre Carlos Álvarez, Rafael López Aliaga e Ricardo Belmont.

O cientista político Nicolas Saldias, da Economist Intelligence Unit, resume o clima que antecede a votação: “O cenário eleitoral deste ano está fragmentado: nenhum candidato tem uma vantagem convincente e uma parcela significativa do eleitorado permanece indecisa”.

Expectativas e desafios para o próximo governo

Quem quer que vença a disputa herdará um país desgastado por uma década de turbulência institucional, com um Congresso que também deve nascer dividido e uma população que, segundo a pesquisa Latinobarómetro, tem mais de 90% de desconfiança em relação ao governo e ao Parlamento – os índices mais altos da América Latina. O novo presidente precisará enfrentar simultaneamente a crise de segurança, a recuperação econômica (a economia peruana mantém a inflação mais baixa da região) e a reconstrução da credibilidade das instituições democráticas.

As urnas fecharam às 17h (horário local) e a apuração já está em andamento. Os primeiros resultados parciais devem começar a ser divulgados ainda na noite deste domingo, mas a definição final do nome que comandará o Peru pelos próximos cinco anos só ocorrerá no início de junho, após o segundo turno.

Com informações de G1, CNN Brasil, Agência Brasil, Estadão, DW Brasil, Poder360, Opera Mundi, BandNews TV, Swissinfo, Al Jazeera, Saudi Gazette, Andina, NPR ■

Mais Notícias