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Documentos internos, depoimentos à Polícia Federal (PF) e informações do Banco Central (BC) revelaram nos últimos meses os contornos de um dos maiores escândalos financeiros investigados no país. O cerne da questão está na venda de carteiras de crédito consignado — posteriormente classificadas como "podres" ou inexistentes — do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB). As transações, que somam cerca de R$ 12 bilhões, apresentam uma série de irregularidades, incluindo a recompra e revenda de ativos em menos de 24 horas, a utilização de uma empresa "fantasma" como intermediária e a suspeita de falsificação de contratos e dados de clientes.
As investigações, que culminaram na liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025 e na prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, apontam que o esquema pode ter sido utilizado para maquiar o balanço do Master e gerar liquidez artificial, enquanto o BRB arcou com prejuízos que podem ultrapassar os R$ 8 bilhões.
O que era tratado inicialmente como uma operação de mercado entre duas instituições financeiras revelou-se, segundo as autoridades, um esquema de gestão fraudulenta que envolveu desde a criação de uma empresa de fachada até a inserção de dados fictícios em planilhas de controle, como clientes com 124 anos de idade e o e-mail "naotem@hotmail.com".
A seguir, os principais detalhes apurados pela força-tarefa de investigação e pelos órgãos de controle.
A operação relâmpago: compra na Terça de Carnaval e venda na Quarta de Cinzas
Um dos episódios mais emblemáticos da negociação ocorreu em março de 2025. De acordo com um relatório interno do BRB, o Banco Master afirmou ter comprado uma carteira de créditos da empresa Tirreno no valor de R$ 143,6 milhões em uma terça-feira de Carnaval (4 de março), um feriado nacional sem expediente bancário. No dia seguinte, Quarta-Feira de Cinzas, o mesmo ativo foi revendido ao BRB por R$ 251,2 milhões.
O parecer do banco público destacou a anormalidade da operação:
A empresa de fachada e a falta de pagamento
A peça central do esquema foi a Tirreno, empresa criada em novembro de 2024 por um ex-funcionário do Master. Em depoimento ao STF, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, classificou como "impossível" que uma empresa "desconhecida" tivesse gerado R$ 6,2 bilhões em créditos, conforme alegado por seu líder. A única relação financeira da Tirreno, segundo o BC, era com o próprio Master.
Em sua oitiva na Polícia Federal, Daniel Vorcaro admitiu que o Banco Master não pagou nada à Tirreno pelas carteiras adquiridas, mesmo após ter recebido R$ 12,2 bilhões do BRB. O dinheiro, segundo ele, "ficou em uma conta do Master".
Divergências no STF e conhecimento prévio do BRB
Em acareação no Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2025, as versões sobre a origem dos créditos divergiram. Daniel Vorcaro afirmou que os créditos eram de "terceiros" (a Tirreno), enquanto o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, disse que acreditava que os ativos eram do próprio Master e que só foi informado sobre a participação da Tirreno em maio de 2025.
No entanto, documentos internos do BRB mostram que a equipe técnica do banco já tinha conhecimento das inconsistências muito antes. Um relatório de auditoria de 4 de abril de 2025 já apontava:
Mesmo com o relatório apontando indícios de falsificação, o BRB continuou comprando as carteiras ao longo de maio, e o ex-presidente Paulo Henrique Costa só comunicou as suspeitas ao Banco Central no final daquele mês.
Adiamentos e evasão do Banco Master
A relação entre os bancos foi marcada por tentativas frustradas de esclarecimento. Documentos do BRB indicam que o Master sistematicamente cancelou ou adiou reuniões destinadas a resolver as pendências sobre os lastros dos contratos.
Investigação do BC, CVM e a liquidação do Master
O Banco Central iniciou o monitoramento do caso em janeiro de 2025. Após identificar que o BRB realizou "registros contábeis sem respaldo documental" para se enquadrar nas regras do setor, o BC passou a fiscalizar a operação de perto.
Em novembro de 2025, a situação chegou ao ápice:
Consequências e substituição de ativos
Diante da pressão do BC e das investigações, parte dos ativos foi substituída. Em depoimento, Daniel Vorcaro admitiu que os créditos consignados (de alta liquidez) foram trocados por ativos de "outra liquidez e outro resultado", demonstrando uma piora significativa na qualidade das garantias do BRB.
O BRB, que já trocou sua presidência, contratou auditoria independente para calcular o rombo, que pode ultrapassar R$ 8 bilhões. A nova gestão do banco tenta reverter o quadro enquanto colabora com as investigações da PF e do MPF, que apuram os crimes de gestão fraudulenta e organização criminosa.
Com informações de G1, UOL, O Globo, Estadão, CNN Brasil e Metrópoles ■