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Master vendeu carteiras de crédito podres ao BRB um dia após comprá-las
Operação durante o Carnaval, ausência de pagamento e indícios de falsificação expõem esquema bilionário investigado pela Polícia Federal
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 01/04/2026
Master e BRB: A venda de créditos podres em 24 horas

Documentos internos, depoimentos à Polícia Federal (PF) e informações do Banco Central (BC) revelaram nos últimos meses os contornos de um dos maiores escândalos financeiros investigados no país. O cerne da questão está na venda de carteiras de crédito consignado — posteriormente classificadas como "podres" ou inexistentes — do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB). As transações, que somam cerca de R$ 12 bilhões, apresentam uma série de irregularidades, incluindo a recompra e revenda de ativos em menos de 24 horas, a utilização de uma empresa "fantasma" como intermediária e a suspeita de falsificação de contratos e dados de clientes.

As investigações, que culminaram na liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025 e na prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, apontam que o esquema pode ter sido utilizado para maquiar o balanço do Master e gerar liquidez artificial, enquanto o BRB arcou com prejuízos que podem ultrapassar os R$ 8 bilhões.

O que era tratado inicialmente como uma operação de mercado entre duas instituições financeiras revelou-se, segundo as autoridades, um esquema de gestão fraudulenta que envolveu desde a criação de uma empresa de fachada até a inserção de dados fictícios em planilhas de controle, como clientes com 124 anos de idade e o e-mail "naotem@hotmail.com".

A seguir, os principais detalhes apurados pela força-tarefa de investigação e pelos órgãos de controle.

A operação relâmpago: compra na Terça de Carnaval e venda na Quarta de Cinzas

Um dos episódios mais emblemáticos da negociação ocorreu em março de 2025. De acordo com um relatório interno do BRB, o Banco Master afirmou ter comprado uma carteira de créditos da empresa Tirreno no valor de R$ 143,6 milhões em uma terça-feira de Carnaval (4 de março), um feriado nacional sem expediente bancário. No dia seguinte, Quarta-Feira de Cinzas, o mesmo ativo foi revendido ao BRB por R$ 251,2 milhões.

O parecer do banco público destacou a anormalidade da operação:

  • "Essa operação, realizada em um dia não útil, suscita dúvidas quanto à regularidade do trâmite e à observância dos procedimentos operacionais usuais", diz um trecho do documento.
  • O ágio (valor pago a mais na revenda) foi de R$ 107,3 milhões, um lucro extraordinário obtido pelo Master em menos de 24 horas sem que houvesse qualquer alteração no lastro ou na qualidade do ativo.

A empresa de fachada e a falta de pagamento

A peça central do esquema foi a Tirreno, empresa criada em novembro de 2024 por um ex-funcionário do Master. Em depoimento ao STF, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, classificou como "impossível" que uma empresa "desconhecida" tivesse gerado R$ 6,2 bilhões em créditos, conforme alegado por seu líder. A única relação financeira da Tirreno, segundo o BC, era com o próprio Master.

Em sua oitiva na Polícia Federal, Daniel Vorcaro admitiu que o Banco Master não pagou nada à Tirreno pelas carteiras adquiridas, mesmo após ter recebido R$ 12,2 bilhões do BRB. O dinheiro, segundo ele, "ficou em uma conta do Master".

  • Vorcaro afirmou que as compras eram uma "promessa de transação que acabou não se concretizando".
  • A PF questionou a origem dos ativos, já que a Cartos, empresa apontada como verdadeira originadora dos créditos, negou qualquer relação com a Tirreno.
  • Diante das perguntas sobre a origem dos R$ 12,2 bilhões em ativos vendidos ao BRB, Vorcaro respondeu: "Eu não tenho essa informação".

Divergências no STF e conhecimento prévio do BRB

Em acareação no Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2025, as versões sobre a origem dos créditos divergiram. Daniel Vorcaro afirmou que os créditos eram de "terceiros" (a Tirreno), enquanto o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, disse que acreditava que os ativos eram do próprio Master e que só foi informado sobre a participação da Tirreno em maio de 2025.

No entanto, documentos internos do BRB mostram que a equipe técnica do banco já tinha conhecimento das inconsistências muito antes. Um relatório de auditoria de 4 de abril de 2025 já apontava:

  • Planilhas de controle do Master com dados inverídicos, incluindo clientes com data de nascimento em 1º de janeiro de 1901 (124 anos) e e-mails como "naotem@hotmail.com".
  • Falta de "averbação" (registro oficial) nos órgãos públicos para a maioria dos contratos de consignado, o que significa que os descontos em folha não poderiam ser efetuados.
  • Alta incidência de reclamações de clientes que negavam ter contratado os empréstimos.

Mesmo com o relatório apontando indícios de falsificação, o BRB continuou comprando as carteiras ao longo de maio, e o ex-presidente Paulo Henrique Costa só comunicou as suspeitas ao Banco Central no final daquele mês.

Adiamentos e evasão do Banco Master

A relação entre os bancos foi marcada por tentativas frustradas de esclarecimento. Documentos do BRB indicam que o Master sistematicamente cancelou ou adiou reuniões destinadas a resolver as pendências sobre os lastros dos contratos.

  • Entre abril e maio de 2025, houve uma sequência de reagendamentos. Em uma ocasião, o Master pediu o adiamento no próprio horário da reunião.
  • Quando as visitas técnicas ocorreram, os técnicos do BRB descobriram que o controle das operações era feito em "planilhas eletrônicas" e que a equipe do Master tinha pouco conhecimento sobre as operações originadas por terceiros.
  • Foi apenas em uma visita presencial em abril que o BRB descobriu oficialmente que o nome da "associação" que originava os créditos era, na verdade, a Tirreno.

Investigação do BC, CVM e a liquidação do Master

O Banco Central iniciou o monitoramento do caso em janeiro de 2025. Após identificar que o BRB realizou "registros contábeis sem respaldo documental" para se enquadrar nas regras do setor, o BC passou a fiscalizar a operação de perto.

Em novembro de 2025, a situação chegou ao ápice:

  • O BC liquidou extrajudicialmente o Banco Master, um dia após a prisão de Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero.
  • À época da liquidação, o Master tinha apenas R$ 4,8 milhões em caixa livre para honrar R$ 48,6 milhões em vencimentos imediatos de CDBs.
  • A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instaurou 24 processos contra o BRB para apurar irregularidades, com indícios de falsificação de contratos que somam os R$ 12 bilhões investigados.

Consequências e substituição de ativos

Diante da pressão do BC e das investigações, parte dos ativos foi substituída. Em depoimento, Daniel Vorcaro admitiu que os créditos consignados (de alta liquidez) foram trocados por ativos de "outra liquidez e outro resultado", demonstrando uma piora significativa na qualidade das garantias do BRB.

O BRB, que já trocou sua presidência, contratou auditoria independente para calcular o rombo, que pode ultrapassar R$ 8 bilhões. A nova gestão do banco tenta reverter o quadro enquanto colabora com as investigações da PF e do MPF, que apuram os crimes de gestão fraudulenta e organização criminosa.

Com informações de G1, UOL, O Globo, Estadão, CNN Brasil e Metrópoles

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