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Casa Branca posta montagem com estética de jogo para celebrar ataques ao Irã
Vídeo usa linguagem de “killstreak” e pontuação por mortes; conteúdo foi publicado no mesmo dia em que eram realizados funerais de dezenas de vítimas civis no Irã
America do Norte
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQMS3wgFF8oXQqXdCQ3rqxZFPndI-fFiRfx-A&s
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■   Bernardo Cahue, 25/03/2026

Em uma escalada de retórica bélica que tem sido amplamente criticada como uma banalização do sofrimento humano, a administração do presidente Donald Trump utilizou as redes oficiais da Casa Branca para divulgar uma montagem que compara os ataques militares dos Estados Unidos contra o Irã a um videogame. O material, que incorpora elementos visuais do jogo Call of Duty, emprega a estética de “killstreak” (sequência de abates) – um recurso que exibe pontuações a cada destruição registrada, como se tratasse de uma competição virtual .

O vídeo, que rapidamente se espalhou por plataformas como X (antigo Twitter) e Instagram, mostra cenas reais dos bombardeios combinadas com gráficos típicos de games, incluindo contadores de eliminações e sobreposições estilizadas. A divulgação ocorreu em meio à escalada do conflito iniciado no final de fevereiro de 2026, que envolve uma coalizão liderada pelos Estados Unidos e Israel contra instalações do governo iraniano .

Montagem com “pontuação por mortes”: o contraste com as vítimas civis
De acordo com reportagens da imprensa internacional, o conteúdo compartilhado simula a ativação de uma killstreak secreta do jogo Call of Duty – geralmente disponível após um número elevado de eliminações consecutivas. A postagem foi acompanhada de uma legenda que reforça a ideia de “justiça americana”, um padrão de comunicação que, segundo analistas, reduz a complexidade geopolítica a um espetáculo de entretenimento .

A repercussão do vídeo foi agravada pelo contexto humano: no mesmo dia da publicação, milhares de pessoas no Irã participavam de cerimônias fúnebres em homenagem às vítimas dos ataques. Somente em um bombardeio contra uma escola na cidade de Minab, no sul do Irã, ocorrido em 28 de fevereiro, estima-se que tenham morrido pelo menos 165 pessoas, a maioria meninas de cerca de dez anos de idade . Organizações internacionais e veículos de imprensa apontaram evidências do uso de mísseis Tomahawk – armas utilizadas exclusivamente pelos EUA na região – no ataque à instituição de ensino .

“Coquetel de irrealidade”: AI, memes e a banalização do conflito
Especialistas em comunicação política e conflitos bélicos apontam que a estratégia da Casa Branca vai além do uso esporádico de memes. Colunistas do The Guardian e outros analistas destacam que a administração Trump tem promovido uma verdadeira “gamificação” da guerra, combinando inteligência artificial para acelerar decisões letais – um processo chamado de “streamlining the kill chain” – com uma narrativa pública construída por meio de referências à cultura pop, como Top Gun, SpongeBob SquarePants e até mesmo interfaces de videogame retrô .

De acordo com declarações de um oficial sênior da Casa Branca ao site Politico, há uma aposta deliberada no “fator entretenimento” para engajar a base de apoiadores. “There’s an entertainment factor to what we do”, afirmou o oficial, ao mesmo tempo em que comandantes militares destacavam o papel da IA na guerra, com ferramentas capazes de reduzir “horas ou dias” de análise para “segundos” na seleção de alvos .

Negacionismo e reações internacionais
Enquanto as imagens de destruição e as montagens lúdicas viralizavam, o presidente Donald Trump voltou a negar envolvimento dos EUA no ataque à escola em Minab, chegando a sugerir que o Irã poderia ter encenado a própria destruição com mísseis Tomahawk. A alegação foi imediatamente contestada por veículos como The New York Times, que verificaram que o míssil em questão não integra o arsenal iraniano e que apenas as forças norte-americanas fizeram uso do armamento no teatro de operações .

A imprensa iraniana, por sua vez, publicou editorais de forte impacto, como a capa do Tehran Times que estampou fotografias de mais de cem crianças mortas sob a pergunta: “Trump, você consegue olhar nos olhos delas?” . Autoridades iranianas denunciaram o que chamaram de “teoria da mentira sistemática” e uma tentativa de esconder os altos custos civis do conflito.

Contexto de escalada militar
A guerra declarada contra o Irã, iniciada sob o argumento de conter ameaças ao regime israelense e de promover uma suposta “mudança de regime”, resultou em um conflito de alta intensidade. Em semanas, os confrontos causaram desdobramentos econômicos, como o bloqueio do Estreito de Ormuz e a disparada dos preços de energia, além de um número crescente de baixas entre as forças militares americanas. Apesar disso, a comunicação oficial da Casa Branca tem mantido o tom de espetáculo, utilizando montagens de vídeo que, segundo analistas, “achatam os eventos em um feed onde se alternam receitas, influenciadores e cenas de fumaça sobre Teerã” .

Organizações de direitos humanos condenaram veementemente o uso de linguagem de jogos eletrônicos para descrever operações militares reais, classificando a postura como uma violação da dignidade das vítimas e um afrontamento ao direito internacional humanitário.

Com informações de Daily Star, The Guardian, ???? (Observador) ■

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