Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Internet não perdoa, e Globonews volta atrás com relação ao Power Point
Após enxurrada de críticas de internautas e de ex-jornalistas da casa, emissora admite que material sobre o Banco Master estava "errado e incompleto" e pede desculpas ao vivo; apresentadora Andréia Sadi reconhece omissão de nomes centrais das investigações
America do Sul
Foto: https://iclnoticias.com.br/app/uploads/2026/03/9d930794-0a78-4d11-9ba4-61b375c1a93e-960x540.webp
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 23/03/2026

Menos de 72 horas após a exibição de um PowerPoint que tentou associar o escândalo do Banco Master ao presidente Lula e ao PT, a GloboNews foi forçada a recuar. Na tarde desta segunda-feira (23), a jornalista Andréia Sadi pediu desculpas publicamente durante o programa Estúdio i, reconhecendo que o recurso visual apresentado na sexta-feira (20) continha distorções graves e omissões injustificáveis.

A apresentadora afirmou que o material estava “errado e incompleto”, e que não deixava claro o critério utilizado na seleção das informações. "Diante de um material incompleto e em desacordo com os nossos princípios editoriais, a gente pede desculpas", declarou Sadi, citando ainda que a arte deixou de fora nomes como ministros do Supremo Tribunal Federal, políticos e ex-diretores do Banco Central “que estão sob escrutínio da polícia por suspeita de corrupção na relação com o banqueiro”.

A rápida mudança de postura foi impulsionada por uma enxurrada de críticas nas redes sociais e, sobretudo, por manifestações contundentes de ex-jornalistas da própria Globo. Neide Duarte, que trabalhou 42 anos na emissora, publicou um desabafo que viralizou ao descrever o PowerPoint como um trabalho amador típico de "algum culto pentecostal que resolveu fazer o seu jornalzinho rápido para atacar o Lula". "Dia da vergonha na Gnews. Os tios dos churrascos e as tias do zap também sabem fazer jornalismo desse jeito", ironizou a jornalista.

Em sua análise, Neide Duarte destacou a disposição proposital dos elementos na arte: no centro, a foto de Daniel Vorcaro; abaixo dele, a estrela do PT; acima, Lula como "chefe de tudo". Já os nomes do bolsonarismo — como Ciro Nogueira e Nikolas Ferreira — apareciam "numa órbita bem distante do centro". A jornalista também listou os ausentes que deveriam estar no centro da narrativa:

  • Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central indicado por Bolsonaro, em cuja gestão o Master prosperou
  • Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, que recebeu R$ 2 milhões do cunhado de Vorcaro em campanha
  • Jair Bolsonaro, que recebeu R$ 3 milhões do operador do esquema
  • Ibaneis Rocha, governador do DF, que tentou comprar o Banco Master via BRB
  • Cláudio Castro, governador do RJ, que investiu bilhões do fundo de previdência dos servidores em papéis podres do Master

O ex-repórter Ari Peixoto, também veterano da Globo, foi na mesma direção e afirmou que a emissora "se tornou uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos da esquerda".

O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), ex-ministro da Secom, classificou o PowerPoint como "muito grave" e comparou-o diretamente à apresentação de Deltan Dallagnol na Lava Jato, que foi condenada pela Justiça por danos morais. "Sinceramente, eu achei que depois do PowerPoint do Dallagnol, a gente não teria tão cedo outra tentativa tão grotesca de manipulação da opinião pública", declarou Pimenta.

O diretor de jornalismo do ICL Notícias, Leandro Demori, também criticou a estratégia da GloboNews e a classificou como "falso equilíbrio" — uma tentativa de colocar diferentes campos políticos no mesmo patamar de envolvimento, ignorando que a esmagadora maioria dos envolvidos pertence ao espectro da direita e do bolsonarismo. Demori apresentou uma versão corrigida do PowerPoint, mostrando que a proporção real de envolvidos é de cerca de 26 nomes da direita para 2 da esquerda.

O economista Eduardo Moreira, também do ICL, foi além e apontou um conflito de interesses estrutural: a Globo é sócia do Nubank, banco que contratou Roberto Campos Neto — ex-presidente do Banco Central que, segundo Moreira, "deu todas as credenciais para que o Master funcionasse" — como executivo global de políticas públicas e vice-presidente do conselho. "A Globo é sócia do Nubank. Por que Campos Neto não apareceu no PowerPoint?", questionou Moreira.

A apresentadora Andréia Sadi, ao pedir desculpas, confirmou indiretamente as críticas ao admitir que a arte estava incompleta e que o critério de seleção dos nomes não foi esclarecido. A admissão de erro, embora tardia, representou um recuo significativo da linha editorial que vinha sendo adotada pela emissora desde o início da cobertura do escândalo do Banco Master.

O episódio, no entanto, já havia deixado marcas. As omissões apontadas por ex-profissionais da casa e por parlamentares revelaram um padrão de seletividade que, segundo críticos, buscava proteger nomes do bolsonarismo e do centrão enquanto direcionava a narrativa contra o governo federal — mesmo sem qualquer citação do PT ou de seus filiados nos autos da Polícia Federal.

A rápida correção de rota pela GloboNews demonstra o poder de fiscalização das redes sociais e a capacidade de ex-funcionários de uma mesma empresa de cobrarem, publicamente, o respeito aos princípios editoriais que um dia ajudaram a construir. Resta saber se o pedido de desculpas será acompanhado de uma revisão editorial mais ampla ou se ficará circunscrito ao episódio pontual do "novo PowerPoint".

Com informações de Estado de Minas, Correio Braziliense, Revista Fórum, ICL Notícias, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Pensar Piauí, Acre in Foco ■

Mais Notícias