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Trump intensifica retórica autoritária e põe em xeque processo eleitoral para 2026
Presidente dos EUA repete alegações infundadas de fraude e defende intervenção federal em eleições, alimentando crise de confiança democrática
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 09/02/2026

Em uma escalada retórica que alarmou especialistas e políticos da oposição, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a atacar a legitimidade do processo eleitoral do país. Durante entrevista ao podcast do ex-subdiretor do FBI Dan Bongino, Trump instou os republicanos a "tomar o controle" e "nacionalizar as eleições" em pelo menos 15 localidades, alegando corrupção sem apresentar provas . Essas declarações ocorrem em um contexto de preparação para as eleições de meio de mandato de 2026, nas quais o Partido Republicano enfrenta dificuldades para manter o controle do Congresso .

A retórica de Trump não se limita a discursos. Sua administração tem agido para ampliar a ingerência federal nos comícios. Em um episódio recente e controverso, agentes do FBI cumpriram um mandado de busca na sede eleitoral do condado de Fulton, na Geórgia, e apreenderam cédulas e registros das eleições de 2020 . Especialistas em direito eleitoral, como Rick Hasen, da UCLA, veem nisso um padrão preocupante: o uso do poder do Estado para alimentar uma "fixação pessoal" e transformar o governo federal em uma "ferramenta de represália política" .

O contexto histórico: da "Grande Mentira" de 2020 às ameaças atuais

A insistência de Trump em um fraude massiva nas eleições de 2020 — amplamente refutada por dezenas de auditorias, revisões e tribunais — é conhecida como a "Grande Mentira" . Agora, de volta à presidência, ele tenta reescrever esse capítulo. Em entrevistas, ele lamentou publicamente não ter ordenado ao Exército que confiscasse máquinas de votação na época e continua a classificar falsamente aqueles comícios como "a eleição mais corrupta da história" . Esta narrativa persistente minou profundamente a confiança de parte dos eleitores. Segundo pesquisa do Public Affairs Council citada pelo El Mundo, antes das eleições de 2024 apenas 37% dos americanos acreditavam que elas seriam honestas .

O que significa "nacionalizar as eleições"? Uma proposta inconstitucional

A ideia de "nacionalizar" as eleições, conforme defendida por Trump, é um conceito vago mas de implicações profundas. Nos EUA, a Constituição concede ampla autoridade aos estados para organizar e conduzir as eleições federais, um sistema descentralizado criado pelos Fundadores justamente para dificultar fraudes em larga escala . Portanto, uma intervenção federal direta no controle das votações, como sugerida, colidiria frontalmente com o marco constitucional. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, classificou a proposta como "escandalosamente ilegal" . Apesar disso, a Casa Branca defende a agenda do presidente, apontando para iniciativas como o "SAVE Act", que busca impor padrões nacionais de identificação com foto para votar .

  • Exigência de Identificação com Foto: Impor um padrão nacional rigoroso para verificação do eleitor.
  • Prova de Cidadania: Exigir documentação que comprove a cidadania americana no ato do registro ou voto.
  • Restrições ao Voto por Correio: Limitar essa modalidade a casos específicos, como doença ou serviço militar, e proibir a contagem de cédulas recebidas após o dia da eleição .

Os fundamentos raciais do discurso sobre fraude

Pesquisas acadêmicas começam a desvendar os alicerces da crença na "Grande Mentira". Um estudo do Brennan Center for Justice analisou milhões de posts no Twitter em 2020 e descobriu que cidades com maior população negra, como Detroit, Filadélfia e Atlanta, foram as mais citadas em narrativas de fraude eleitoral — uma associação que persistiu mesmo após considerar a tendência democrata dessas localidades . O estudo conclui que, entre eleitores brancos, aqueles com maior "ressentimento racial" foram significativamente mais propensos a perder a confiança nos resultados de 2020 após a derrota de Trump. Um experimento controlado mostrou ainda que eleitores republicanos brancos consideraram acusações de fraude mais críveis quando associadas a uma cidade fictícia de maioria negra do que a uma de maioria branca .

O pano de fundo político: a vitória de 2024 e o desafio de 2026

A retórica agressiva de Trump surge após uma vitória eleitoral significativa em 2024, mas em um cenário desafiador para as próximas eleições legislativas. Em 2024, Trump venceu com 312 votos eleitorais contra 226 de Kamala Harris, conquistando todos os sete estados pendulares (Arizona, Geórgia, Michigan, Carolina do Norte, Nevada, Pensilvânia e Wisconsin) . No entanto, o Partido Republicano tem sofrido derrotas em eleições estaduais e especiais recentes, alimentando entre seus estrategistas o temor de uma reversão nas eleições de meio de mandato de 2026 . É neste contexto que Trump busca centralizar a narrativa e mobilizar sua base, posicionando as eleições não como um conjunto de disputas locais, mas como um referendo nacional sobre sua liderança e suas alegações .

  1. Resultado Presidencial 2024: Donald Trump (Republicano): 312 votos eleitorais / 77.2 milhões de votos populares (49.8%). Kamala Harris (Democrata): 226 votos eleitorais / 75.0 milhões de votos populares (48.3%) .
  2. Mudanças no Eleitorado: Dados apontam que Trump obteve ganhos significativos entre eleitores hispânicos, asiáticos e negros em 2024 comparado a 2016, sinalizando uma realocação de bases eleitorais tradicionais .
  3. Desafio Republicano: Apesar da vitória presidencial, derrotas em corridas estaduais recentes e uma perspectiva eleitoral difícil para 2026 parecem ser o catalisador imediato da retórica incendiária de Trump sobre fraude .

Conclusão: uma ameaça institucional em andamento

Mais do que mera retórica, as ações do governo Trump indicam um esforço sistêmico para minar a independência do processo eleitoral. A ordem executiva assinada por Trump para alterar regras de votação (parcialmente bloqueada pela justiça), o uso de agências federais como o FBI em operações com motivação política evidente e o perdão a figuras envolvidas nos eventos de 6 de janeiro de 2021 compõem um quadro coerente . Como resumiu Kristin Nabers, da organização All Voting Is Local, o registro na Geórgia estabelece um precedente perigoso: "Se aqui podem levar material eleitoral, o que impediria que fizessem o mesmo em outro estado depois de uma derrota?" . A insistência na "Grande Mentira" e a abertura para medidas autoritárias representam, portanto, um teste contínuo e profundo aos freios e contrapesos da democracia americana.

Com informações de: Univision, El Mundo, Brennan Center for Justice, RTVE, BBC, CNN Español, CIPI ■

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