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A taxa de mortalidade infantil na Argentina aumentou para 8,5 por mil nascidos vivos em 2024, representando um crescimento de 0,5 pontos (ou 6,25%) em relação ao ano anterior, quando a taxa foi de 8 por mil. Este é o maior aumento anual registrado desde 2002 e interrompe uma tendência histórica de queda sustentada no indicador, considerado um dos mais sensíveis para medir as condições de vida e a eficácia das políticas públicas de um país.
Os dados, extraídos do último boletim da Direção de Estatísticas e Informação de Saúde (DEIS), órgão oficial do Ministério da Saúde, mostram que, apesar de terem ocorrido aproximadamente 47.000 nascimentos a menos em 2024, o número absoluto de mortes de menores de um ano se manteve em patamar elevado. Especialistas alertam que, mantida a taxa de natalidade de 2023, o país teria registrado cerca de 220 mortes infantis adicionais.
O aumento é impulsionado quase integralmente pela mortalidade neonatal – óbitos ocorridos nos primeiros 28 dias de vida –, cuja taxa passou de 5,5 para 6 por mil. Esta variação preocupa, pois as mortes neonatais estão diretamente ligadas à qualidade da atenção à saúde da gestante e do recém-nascido, incluindo acesso a controles pré-natais, parto seguro e cuidados especializados imediatos.
O cenário coincide com um período de profundos cortes orçamentários e reorganização do sistema público de saúde sob a gestão do presidente Javier Milei. Um relatório da Fundação Soberanía Sanitaria detalha que a execução orçamentária do Ministério da Saúde sofreu uma queda real acumulada de 34% entre 2023 e 2025, com reduções drásticas em programas estratégicos:
Além disso, hospitais nacionais de referência foram atingidos. O Hospital Posadas, que concentra grande parte do orçamento hospitalar federal, teve uma redução orçamentária real de 32% em 2024. No início de 2026, 84 profissionais foram demitidos dessa instituição, em uma onda de dispensas que também afetou o Ministério da Saúde e o PAMI. Situação similar ocorre no Hospital Garrahan, principal centro pediátrico de alta complexidade, onde dezenas de profissionais tiveram seus contratos rescindidos.
As consequências dessas políticas já são visíveis. O relatório da Fundação Soberanía Sanitaria associa o ajuste ao ressurgimento de doenças preveníveis por vacinação, como o sarampión e a coqueluche, que em 2025 causaram a morte de dez bebês. Há também interrupções na entrega de medicamentos oncológicos de alto custo e um aumento significativo no gasto do próprio bolso dos aposentados do PAMI para comprar remédios.
O aumento da mortalidade infantil não foi uniforme no território. Apenas 9 das 24 jurisdições argentinas mantiveram a tendência de baixa, enquanto 15 registraram aumento. Em quatro províncias, o crescimento superou 20% em relação a 2023.
Em resposta a críticas sobre a deterioração do sistema, o governo federal promoveu medidas como a cobrança de atendimento a estrangeiros não residentes em hospitais públicos de províncias como Buenos Aires, Salta e Jujuy, argumentando que isso desafogaria a demanda e traria recursos extras. No entanto, especialistas e trabalhadores da saúde afirmam que essa medida não aborda o cerne do problema: o desfinanciamento estrutural e a perda de capacidade de coordenação nacional.
Enquanto isso, movimentos de trabalhadores da saúde e usuários organizam protestos e "cabildos abertos" em defesa do sistema público, denunciando que o ajuste está provocando um vazio assistencial que custa vidas. O debate coloca em evidência a relação direta entre decisões macroeconômicas, investimento social e os indicadores mais sensíveis do desenvolvimento humano.
Com informações de Fundación Soberanía Sanitaria, Política y Medios, Canal Abierto, Nodal, Cronista ■