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A arma do petróleo na nova fronteira da guerra fria americana contra Cuba
Medida da administração Trump ameaça cortar o último fluxo vital de combustível para a ilha, potencializando apagões de 20 horas e risco de colapso humanitário em nome da "segurança nacional" dos EUA
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 31/01/2026

A ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump em 29 de janeiro de 2026 representa uma escalada sem precedentes na longa campanha de pressão económica dos Estados Unidos contra Cuba. Sob o argumento de que o governo cubano constitui uma "ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa" dos EUA, o decreto estabelece um sistema para impor tarifas punitivas a qualquer país que venda ou forneça petróleo à ilha. Esta medida, que segue a intervenção militar americana na Venezuela e o controlo subsequente do seu sector petrolífero, visa explicitamente cortar o último fluxo vital de energia para uma economia já em paralisia, levantando sérias questões sobre os seus objetivos reais e o custo humano previsível.

A retórica oficial da Casa Branca, detalhada no texto da ordem executiva, justifica a ação acusando Cuba de se aliar a adversários dos EUA, como Rússia, China e Irã, e de hospedar ou apoiar grupos como o Hamas e o Hezbollah. No entanto, analistas veem nesta declaração de "emergência nacional" um pretexto jurídico para uma ação económica extrema. Como explicou o correspondente da BBC, a administração está, na prática, argumentando que "o fornecimento de energia da ilha agora é uma questão de segurança nacional dos EUA". Esta redefinição estratégica permite a Trump utilizar o poderio comercial americano de forma coerciva, ameaçando países terceiros com tarifas se não se alinharem com o objetivo de isolar energeticamente Cuba.

O cerco ao petróleo cubano não é um evento isolado, mas o passo mais recente e agressivo numa estratégia contínua. Fontes da administração revelaram ao POLITICO que foram ponderadas medidas ainda mais duras, incluindo um bloqueio naval total às importações de petróleo de Cuba. "A energia é o ponto de estrangulamento para matar o regime", afirmou uma pessoa familiarizada com as discussões. O Secretário de Estado Marco Rubio, figura central na defesa de uma linha dura, afirmou publicamente que veria com bons olhos uma mudança de regime em Cuba, embora tenha negado que os EUA a estivessem a provocar ativamente. Esta ambiguidade revela o cerne da estratégia: criar condições de tal forma insustentáveis que forcem uma mudança política por colapso interno.

Uma Crise Energética Fabricada: Dos Números ao Desespero Cotidiano

Para compreender o impacto devastador da medida de Trump, é essencial mapear a já crítica dependência energética de Cuba. O país necessita de aproximadamente 110 mil barris de petróleo por dia, mas a sua produção doméstica mal chega a 40 mil barris. Este défise estrutural foi historicamente colmatado por aliados, primeiro a União Soviética e, nas últimas duas décadas, a Venezuela. No auge da aliança com Hugo Chávez, Cuba recebia cerca de 100 mil barris diários do país sul-americano.

O cenário atual é catastrófico:

  • Corte Venezuelano: Após a operação militar que capturou Nicolás Maduro, os EUA assumiram o controlo do petróleo venezuelano. Trump declarou abertamente: "Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba".
  • Dependência do México: O México tornou-se o principal fornecedor, enviando cerca de 12 mil barris por dia ao longo de 2025. No entanto, dados de 2026 mostram que a ilha recebeu apenas um carregamento mexicano de 84 mil barris (equivalente a menos de 3.000 barris/dia).
  • Reservas no Fim: Segundo dados da empresa de análise Kpler, Cuba tem petróleo suficiente para apenas 15 a 20 dias de consumo.

O resultado desta escassez já se materializa num sofrimento generalizado da população. Os cubanos enfrentam há meses apagões massivos que duram até 20 horas por dia em algumas regiões, longas filas para combustível, transporte público colapsado e acumulação de lixo nas ruas. O economista Omar Everleny descreve a situação como "difícil", com a população a ter eletricidade por apenas quatro horas em muitos locais. Sem petróleo para alimentar geradores e usinas termoelétricas já obsoletas, hospitais, sistemas de água e a já frágil cadeia de frio para alimentos e medicamentos estão à beira do colapso total.

O Dilema Mexicano: Soberania, Humanitarismo e a Espada de Dâmocles Tarifária

No centro do novo mecanismo de pressão de Trump está o México, agora confrontado com um dilema geopolítico doloroso. A presidente Claudia Sheinbaum defendeu os envios de petróleo a Cuba como uma ação de caráter humanitário, destinada a manter em funcionamento hospitais e serviços essenciais. Ela alertou que a imposição de tarifas por parte dos EUA "poderia desencadear uma crise humanitária de grande alcance".

No entanto, a realpolitik falou mais alto. Ameaçada com tarifas punitivas sobre as suas exportações para os EUA – seu principal parceiro comercial –, a administração mexicana já deu sinais de recuo. A própria Sheinbaum reconheceu ter instruído o seu chanceler a consultar Washington sobre o alcance da ordem executiva, afirmando não querer colocar o país em risco. Antes mesmo do anúncio formal de Trump, a agência Bloomberg reportou que a Pemex, estatal petrolífera mexicana, cancelou um carregamento planeado para Cuba. Apesar de Sheinbaum classificar a decisão como "soberana", o timing não deixa dúvidas sobre a influência da pressão americana.

Esta coerção sobre terceiros países é um elemento central da nova tática. Como denunciou o chanceler cubano Bruno Rodríguez, os EUA recorrem ao "chantagem e à coerção, para tentar forçar outros países a aderirem à sua política de bloqueio universalmente condenada contra Cuba". O objetivo é claro: transformar o embargo bilateral numa quarentena energética multilateral, onde o custo de ajudar Cuba se torna proibitivo para qualquer nação.

Conclusão: Uma Estratégia de Longo Prazo com Custos Humanos Imediatos

A escalada de pressão sobre Cuba através do petróleo não é um acidente de percurso, mas a aplicação de um manual antigo. Um artigo de análise do Peoples Dispatch relembra um memorando do Departamento de Estado de 1960, que já advogava criar "fome, desespero e derrubada do governo" através da negação de "dinheiro e suprimentos". Seis décadas depois, a lógica permanece inalterada, apenas refinada com novos instrumentos financeiros e comerciais.

As consequências desta política são intencionalmente coletivas. Como admitiu o próprio governo cubano, um "bloqueio total do fornecimento de combustível" pode submeter o povo a "condições de vida extremas". A administração Trump e seus aliados no Congresso parecem dispostos a aceitar este custo humano como um mal necessário. A congressista Maria Elvira Salazar, citada na mesma análise, articulou friamente o "dilema brutal": "aliviar o sofrimento a curto prazo ou libertar Cuba para sempre".

Ao declarar a sobrevivência energética de uma nação vizinha como uma ameaça à sua própria segurança, os EUA não estão apenas a apertar um embargo. Estão a traçar uma linha geopolítica onde a sobrevivência básica de 11 milhões de pessoas se torna moeda de troca num jogo de poder regional. A questão que se coloca à comunidade internacional é se aceitará esta lógica, que equipara a ajuda humanitária a um ato de hostilidade, ou se encontrará formas de contornar um cerco que ameaça desencadear uma catástrofe humana às portas do continente americano.

Com informações de: BBC, Politico, CNN Brasil, DW, Al Jazeera, CNN Español, The White House, Peoples Dispatch, Use Baratao ■

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