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Estado paralelo: a arquitetura da direita nas sombras
Da pilhagem nazista ao "estado dual" de Trump, uma análise sobre como estruturas de poder paralelas são criadas para subverter instituições, reescrever a história e concentrar autoridade
Analise
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■   Bernardo Cahue, 20/01/2026

A tentativa do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, de criar um Conselho de Paz paralelo não é um fato isolado, mas sim a ponta de um iceberg histórico e global. Essa iniciativa se insere em um padrão mais amplo de construção de "estados paralelos" – estruturas de poder que operam à margem ou dentro das instituições oficiais, visando consolidar controle, reescrever narrativas e neutralizar adversários. Um conceito teórico crucial para entender esse fenômeno é o do "Estado Dual", elaborado pelo jurista Ernst Fraenkel para descrever o regime nazista. Fraenkel observou que o nazismo não destruía completamente o estado de direito normativo; em vez disso, criava um "estado prerrogativo" paralelo, um domínio de arbitrariedade e violência sem garantias legais, que coexistia com as leis ordinárias. Esse estado paralelo servia para perseguir inimigos políticos e raciais, enquanto mantinha uma fachada de normalidade legal para a maioria da população. Esse modelo, argumentam analistas, encontra ecos preocupantes em ações contemporâneas de líderes e governos de direita ao redor do mundo.

Os Antecedentes Históricos: Pilhagem, Propaganda e a Sombra do "Museu do Führer"

A ambição de criar estruturas paralelas de poder e cultura tem um precedente macabro no nazismo. Ao contrário da visão simplista que o classifica apenas como um movimento de esquerda ou direita, o nazismo se apresentava como uma "terceira via" (hoje considerada extrema-direita), antagônica tanto ao marxismo quanto ao capitalismo liberal, mas com um núcleo ideológico centrado no nacionalismo étnico e racial. Uma das faces desse projeto foi a criação de um patrimônio cultural paralelo, espoliado e destinado a glorificar o regime. Hitler planejou um grande museu em Linz, Áustria, alimentado por um roubo de arte em escala industrial. Uma ordem secreta, a "Führervorbehalt" (Reserva do Führer), garantia a Hitler o direito de primeira escolha sobre todas as coleções de arte judaicas confiscadas nos territórios ocupados. Obras-primas eram sistematicamente saqueadas pela Gestapo, como o quadro "Valley of Mills near Amalfi", roubado em 1942 de uma família judia que foi tragicamente perseguida. Esse esforço não era mero colecionismo, mas uma tentativa de erradicar a cultura dos indesejados e reescrever a história visual do Reich, criando uma instituição cultural monumental e paralela baseada no crime.

Instituições Internacionais e a Geopolítica da Sede

A localização e o controle sobre instituições multilaterais são outro campo de batalha. A escolha de Nova York para sede da ONU após a Segunda Guerra foi resultado de uma complexa negociação geopolítica, logística e de soft power dos EUA. O tratado de 1947 garante à ONU imunidade e autonomia em solo americano, criando um enclave internacional. No entanto, o país-sede retém um poder considerável, especialmente sobre a entrada de delegados. Esse poder tem sido usado estrategicamente, como quando o governo Trump negou vistos a membros da Autoridade Palestina, impedindo sua participação plena na Assembleia Geral. Tal ação revela como o anfitrião de uma instituição global pode, sem violar formalmente os acordos, usar ferramentas domésticas (como a política de vistos) para constranger e marginalizar vozes dissidentes no palco internacional, efetivamente criando um filtro paralelo de acesso à diplomacia global.

Rede Transnacional da Direita: Da Guerra Fria ao Presente

A construção de influência paralela também opera por meio de redes transnacionais. A extrema-direita europeia, por exemplo, desenvolveu conexões internacionais muito antes da consolidação da União Europeia. Após 1945, ativistas de países neutros como Suíça e Suécia desempenharam um papel crucial em manter vivas e reconectar ideologias fascistas e negacionistas do Holocausto através de conferências e publicações. Hoje, essa coordenação é mais aberta e política, com líderes como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni fazendo campanha para partidos irmãos em outros países, promovendo uma visão comum de "Europa das pátrias". A relação entre a Hungria de Viktor Orbán e a Síria ilustra os realinhamentos pragmáticos. Mesmo após o fechamento da embaixada durante a guerra civil, a Hungria manteve uma política externa independente da UE, focada em ajuda humanitária e no controle migratório, e reabriu sua embaixada em Damasco após a queda de Bashar al-Assad, priorizando a estabilidade regional e seus próprios interesses.

O Caso Doméstico Brasileiro e a Síntese do Estado Paralelo

No Brasil, as alegações sobre uma "ABIN paralela" sob o governo Bolsonaro sugerem a tentativa de criar um braço operativo de inteligência fiel ao líder, e não ao Estado. Esse seria um exemplo clássico da lógica do "estado dual": a existência de uma agência oficial (o estado normativo) e de uma estrutura clandestina ou desvirtuada (o estado prerrogativo) que responde a interesses pessoais ou de grupo, supostamente envolvida em monitorar ilegalmente juízes e políticos, e até em planos golpistas. Essa estrutura, se comprovada, não buscava abolir as instituições de imediato, mas sim cooptá-las e usá-las para proteger o núcleo do poder, enquanto um aparato paralelo agia nos limites da lei ou além deles para neutralizar ameaças.

Conclusão: um padrão que desafia a democracia liberal

A análise dos casos apresentados – do museu saqueado de Hitler ao conselho de paz de Trump, da rede transnacional da direita às agências de inteligência desvirtuadas – revela um padrão distinto de ação política. Este padrão não é necessariamente uma conspiração centralizada, mas uma convergência de métodos utilizados por forças nacionalistas, autoritárias e populistas de direita para:

  • Criar narrativas e instituições alternativas (museus, conselhos, redes diplomáticas) que legitimem seu poder e visão de mundo.
  • Operar por meio de redes transnacionais que fornecem apoio mútuo e difundem ideologias comuns.
  • Cooptar ou construir estruturas paralelas dentro do Estado (judiciário, inteligência, forças de segurança) para concentrar poder e perseguir opositores, mantendo uma fachada de legalidade.
  • Usar a geopolítica e o controle sobre organismos internacionais para ampliar sua influência e isolar adversários.

O perigo final, como alertou Fraenkel, é que a maioria da população pode ignorar a construção desse "estado prerrogativo" paralelo enquanto ele não a tocar diretamente. No entanto, uma vez estabelecido, seu alcance arbitrário pode se expandir para engolir qualquer cidadão ou instituição que seja percebida como uma ameaça, corroendo a democracia a partir de dentro.

Com informações de: BBC, Arquitetura-Desenho, Wikipedia, Hungarian Conservative, The Atlantic, SwissInfo, Público, Mapa de Londres, Agência DC News ■

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