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Trump ordena saída dos EUA de 66 organizações internacionais em movimento histórico de isolacionismo
Decisão, que inclui a retirada do principal tratado climático do planeta, redefine o papel americano no mundo e gera alerta entre aliados e especialistas
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 08/01/2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (7) uma ordem executiva determinando a retirada do país de 66 organizações internacionais, em um movimento massivo que marca o ápice de sua doutrina de "America First" (América Primeiro) e representa um recuo sem precedentes da cooperação global. A Casa Branca justificou a medida afirmando que essas entidades "já não servem aos interesses" nacionais ou operam de forma "contrária à segurança, prosperidade econômica ou soberania" dos EUA.

A lista, resultado de uma revisão ordenada pelo governo, abrange 31 entidades vinculadas às Nações Unidas e 35 organizações fora do sistema ONU. Embora a lista completa não tenha sido divulgada publicamente, informações de comunicados e fontes jornalísticas revelam que entre os alvos estão algumas das principais agências multilaterais do mundo.

Principais Organizações Afetadas pela Decisão

As retiradas abrangem um leque vasto de temas, desde mudança climática e direitos humanos até cooperação científica e antiterrorismo. As mais significativas incluem:

  • Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC): o tratado internacional de 1992 que é a base legal para o Acordo de Paris e todas as negociações climáticas globais. Os EUA se tornam o primeiro e único país a deixar o tratado.
  • Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC): o principal órgão científico da ONU para avaliação das mudanças climáticas.
  • Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
  • Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres).
  • Fórum Global de Contraterrorismo e o Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral.
  • Outras organizações voltadas para energia renovável, conservação, ciência e cooperação regional.

Contexto e Padrão de Desengajamento

Esta ação não é um fato isolado, mas a cristalização de uma política externa que Trump vem implementando desde o início de seu segundo mandato e que já era perceptível em sua primeira gestão (2017-2021). Analistas descrevem a abordagem como "'ou do meu jeito ou nada feito'... que busca a cooperação internacional exclusivamente nos termos de Washington". Nos últimos meses, o governo Trump já havia:

  1. Retirado novamente os EUA do Acordo de Paris sobre o clima e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
  2. Determinado a saída da UNESCO pela segunda vez, após o país ter retornado sob o governo Biden.
  3. Retirado o país do Conselho de Direitos Humanos da ONU e cortado todo o financiamento à agência de refugiados palestinos (UNRWA).
  4. Desativado a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), reduzindo drasticamente a ajuda externa.

Impacto Global e Críticas

A retirada, em especial do tratado climático, gera consequências profundas e imediatas:

1. Liderança Climática Abandonada: Especialistas alertam que a ação "joga fora décadas de liderança americana em mudança climática". Gina McCarthy, ex-assessora climática da Casa Branca, chamou a decisão de "miope, embaraçosa e tola". Sem os EUA, um dos maiores emissores do mundo, os esforços globais para reduzir gases de efeito estufa podem ser seriamente prejudicados, e outras nações podem usar a saída americana como desculpa para adiar suas próprias ações.

2. Isolamento e Vantagem Geopolítica: O ex-secretário de Estado John Kerry afirmou que o movimento é "um presente para a China", permitindo que o rival geopolítico dos EUA assuma a liderança na definição das regras globais para a economia de energia limpa. Além disso, "dá a outros países uma desculpa para atrasar suas próprias ações e compromissos".

3. Dúvida Jurídica e Legado Duradouro: Como o UNFCCC foi ratificado pelo Senado americano em 1992, há uma zona cinzenta legal sobre se o presidente pode retirar o país unilateralmente. Se bem-sucedida, a retirada pode dificultar que um futuro presidente reingresse no Acordo de Paris, já que este foi firmado sob a égide do tratado do qual os EUA teriam saído.

4. Efeito Cascata nas Organizações: A perda do financiamento e da participação política dos EUA, historicamente um dos maiores contribuintes, deve forçar cortes de pessoal e programas em várias agências da ONU, afetando operações em áreas como saúde global, assistência humanitária e proteção a refugiados.

A Justificativa da Casa Branca

Em comunicado, o governo Trump defendeu a medida como necessária para "restaurar a soberania americana" e acabar com o desperdício de dinheiro dos contribuintes em organizações que "promovem agendas globalistas" ou são "ineficientes, mal administradas ou capturadas por interesses contrários aos nossos". O Secretário de Estado Marco Rubio afirmou que os EUA "não continuarão a gastar recursos, capital diplomático e o peso legitimador de nossa participação em instituições irrelevantes ou em conflito com nossos interesses". A ordem executiva determina que todos os departamentos do governo tomem as medidas para efetivar as retiradas "o mais rápido possível".

Com informações de: Veja, The White House, PBS NewsHour, O Sul, CNN, Lawfare, Deutsche Welle (DW), Los Angeles Times, CNN Brasil, The New York Times ■

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