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A Argentina está em alerta máximo com o retorno de doenças preveníveis por vacinação que já eram consideradas controladas no país. O cenário é resultado de uma queda histórica nas coberturas vacinais, agravado por um debate político que questiona a obrigatoriedade das vacinas. Autoridades sanitárias e sociedades científicas alertam para o risco iminente de epidemias e já contabilizam mortes evitáveis, como as de sete crianças por coqueluche em 2025.
No centro da polêmica, um evento realizado no Congresso Nacional, com o aval do presidente da Câmara de Diputados, Martín Menem, e do presidente Javier Milei, debateu uma iniciativa para derrogar a Lei 27.491, que estabelece a obrigatoriedade da vacinação no país. O evento, intitulado “¿Qué contienen realmente las vacunas COVID-19?”, foi classificado por especialistas como um espaço de desinformação e negacionismo científico.
Os dados oficiais pintam um quadro preocupante. O último Informe Nacional de Coberturas do Calendário Nacional de Vacinação revela que, enquanto as vacinas aplicadas nos primeiros meses de vida mantêm coberturas razoáveis, os reforços vacinais sofrem quedas pronunciadas.
Essa baixa cobertura já tem consequências diretas na saúde pública. Além das mortes por coqueluche, as autoridades sanitárias confirmaram um aumento de casos de sarampo na população infantil. O infectologista Hugo Pizzi alertou que a situação é "muito delicada" e confirmou que a cobertura nacional caiu de 90% antes da pandemia para cerca de 70%.
Diante do evento no Congresso, um conjunto de sociedades científicas, incluindo a Sociedade Argentina de Vacunología y Epidemiología (SAVE) e a Sociedade Argentina de Pediatría (SAP), enviou uma carta a Martín Menem solicitando a suspensão da atividade, por considerar que ela "atenta contra a saúde pública" e propaga falsos conceitos que favorecem a hesitação vacinal.
Especialistas atribuem a queda na vacinação a uma crise de confiança agravada durante a pandemia de COVID-19. "A enorme maioria das vacunas foi testada durante décadas... são ferramentas insubstituíveis para salvar vidas", afirmou Fernán Quirós, ministro da Saúde da Cidade de Buenos Aires. O pediatra Fernando Burgos, da Fundación Vacunar, reforçou que a vacinação não é apenas uma proteção individual, mas um ato de solidariedade que contribui para a imunidade de rebanho, protegendo lactantes e pessoas com o sistema imunológico comprometido.
A Lei 27.491, sancionada em 2019, declara a vacinação como de interesse nacional, estabelece sua obrigatoriedade para todos os habitantes e garante sua gratuidade no sistema público. A norma prevê que os pais ou responsáveis são legalmente responsáveis pela vacinação das crianças sob seus cuidados.
O evento no Congresso, no entanto, promoveu a ideia de que a vacinação deve ser uma "liberdade individual", ignorando o impacto coletivo da imunização. A deputada Marilú Quiróz, organizadora do evento, é proponente de um projeto para eliminar a obrigatoriedade das vacinas na Argentina. Durante o evento, foram apresentadas teorias sem respaldo científico, como a suposta ligação entre vacinas e autismo, e até uma demonstração falsa de que as vacinas causam "magnetização" no corpo.
Apesar do cenário desafiador, há sinais de recuperação. Dados do Ministério da Saúde da Nação mostram que, durante 2024, registrou-se um aumento de cobertura de até 15 pontos percentuais em várias vacinas essenciais. A Hepatite B neonatal, por exemplo, passou de 68,1% para 83%, e a BCG, de 73,8% para 87,1%.
Essa melhoria se deve em parte à implementação do Registro Nominal de Vacunación Electrónico (RNVe), que permitiu um melhor acompanhamento das doses aplicadas e uma gestão mais eficiente dos estoques. Além disso, algumas províncias, como Mendoza, adotaram medidas duras, como a aplicação de multas a casais que não completam o calendário vacinal de seus filhos em um prazo determinado.
O resgate das altas coberturas vacinais é apresentado por especialistas não apenas como uma necessidade de saúde, mas como um dever cívico. "Quem quer viver em sociedade de seguir as regras da sociedade", defendeu o infectologista Hugo Pizzi, lembrando que as vacinas, junto com a água potável, "são recursos disponíveis desde a Idade Média" .
Com informações de: Argentina.gob.ar, teleSUR, Infobae, Infoleg, elDiarioar, Página 12, elagora.digital, Xataka, Radio Buenos Aires ■