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Argentina: baixa vacinação e movimento antivacuna provocam o retorno de doenças erradicadas
O país enfrenta uma queda histórica na cobertura vacinal, com surtos de coqueluche e sarampo, enquanto um evento no Congresso questiona a lei de vacinação obrigatória
America do Sul
Foto: https://www.unimedfortaleza.com.br/portaluploads/uploads/2019/01/maos-com-luvas-segurando-uma-vacina-imge-destacada.jpg
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■   Bernardo Cahue, 29/11/2025

A Argentina está em alerta máximo com o retorno de doenças preveníveis por vacinação que já eram consideradas controladas no país. O cenário é resultado de uma queda histórica nas coberturas vacinais, agravado por um debate político que questiona a obrigatoriedade das vacinas. Autoridades sanitárias e sociedades científicas alertam para o risco iminente de epidemias e já contabilizam mortes evitáveis, como as de sete crianças por coqueluche em 2025.

No centro da polêmica, um evento realizado no Congresso Nacional, com o aval do presidente da Câmara de Diputados, Martín Menem, e do presidente Javier Milei, debateu uma iniciativa para derrogar a Lei 27.491, que estabelece a obrigatoriedade da vacinação no país. O evento, intitulado “¿Qué contienen realmente las vacunas COVID-19?”, foi classificado por especialistas como um espaço de desinformação e negacionismo científico.

Queda na Cobertura Vacinal e suas Consequências

Os dados oficiais pintam um quadro preocupante. O último Informe Nacional de Coberturas do Calendário Nacional de Vacinação revela que, enquanto as vacinas aplicadas nos primeiros meses de vida mantêm coberturas razoáveis, os reforços vacinais sofrem quedas pronunciadas.

  • Tríplice viral ou varicela em crianças de cinco anos: a cobertura cai para menos de 50%.
  • Reforço contra a poliomielite: também está abaixo de 50%, deixando a população exposta a uma doença grave.
  • Vacina contra o HPV: atingiu apenas a metade dos pré-adolescentes.

Essa baixa cobertura já tem consequências diretas na saúde pública. Além das mortes por coqueluche, as autoridades sanitárias confirmaram um aumento de casos de sarampo na população infantil. O infectologista Hugo Pizzi alertou que a situação é "muito delicada" e confirmou que a cobertura nacional caiu de 90% antes da pandemia para cerca de 70%.

A Resposta da Ciência e a Crise de Confiança

Diante do evento no Congresso, um conjunto de sociedades científicas, incluindo a Sociedade Argentina de Vacunología y Epidemiología (SAVE) e a Sociedade Argentina de Pediatría (SAP), enviou uma carta a Martín Menem solicitando a suspensão da atividade, por considerar que ela "atenta contra a saúde pública" e propaga falsos conceitos que favorecem a hesitação vacinal.

Especialistas atribuem a queda na vacinação a uma crise de confiança agravada durante a pandemia de COVID-19. "A enorme maioria das vacunas foi testada durante décadas... são ferramentas insubstituíveis para salvar vidas", afirmou Fernán Quirós, ministro da Saúde da Cidade de Buenos Aires. O pediatra Fernando Burgos, da Fundación Vacunar, reforçou que a vacinação não é apenas uma proteção individual, mas um ato de solidariedade que contribui para a imunidade de rebanho, protegendo lactantes e pessoas com o sistema imunológico comprometido.

A Lei de Vacinação Obrigatória sob Ameaça

A Lei 27.491, sancionada em 2019, declara a vacinação como de interesse nacional, estabelece sua obrigatoriedade para todos os habitantes e garante sua gratuidade no sistema público. A norma prevê que os pais ou responsáveis são legalmente responsáveis pela vacinação das crianças sob seus cuidados.

O evento no Congresso, no entanto, promoveu a ideia de que a vacinação deve ser uma "liberdade individual", ignorando o impacto coletivo da imunização. A deputada Marilú Quiróz, organizadora do evento, é proponente de um projeto para eliminar a obrigatoriedade das vacinas na Argentina. Durante o evento, foram apresentadas teorias sem respaldo científico, como a suposta ligação entre vacinas e autismo, e até uma demonstração falsa de que as vacinas causam "magnetização" no corpo.

Esforços para Reverter a Crise

Apesar do cenário desafiador, há sinais de recuperação. Dados do Ministério da Saúde da Nação mostram que, durante 2024, registrou-se um aumento de cobertura de até 15 pontos percentuais em várias vacinas essenciais. A Hepatite B neonatal, por exemplo, passou de 68,1% para 83%, e a BCG, de 73,8% para 87,1%.

Essa melhoria se deve em parte à implementação do Registro Nominal de Vacunación Electrónico (RNVe), que permitiu um melhor acompanhamento das doses aplicadas e uma gestão mais eficiente dos estoques. Além disso, algumas províncias, como Mendoza, adotaram medidas duras, como a aplicação de multas a casais que não completam o calendário vacinal de seus filhos em um prazo determinado.

O resgate das altas coberturas vacinais é apresentado por especialistas não apenas como uma necessidade de saúde, mas como um dever cívico. "Quem quer viver em sociedade de seguir as regras da sociedade", defendeu o infectologista Hugo Pizzi, lembrando que as vacinas, junto com a água potável, "são recursos disponíveis desde a Idade Média" .

Com informações de: Argentina.gob.ar, teleSUR, Infobae, Infoleg, elDiarioar, Página 12, elagora.digital, Xataka, Radio Buenos Aires ■

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