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Colômbia e Peru acionam aparatos militares em disputa por ilha estratégica
Presidente Petro declara soberania sobre Santa Rosa, enquanto Peru reforça presença na região; crise remonta a apoio colombiano a Castillo e envolve paralelos com operações judiciais questionadas na América Latina
America do Sul
Foto: https://trome.com/resizer/v2/UTDARJ6SXFD7BGFE754V75USAQ.jpg?auth=6a0efdcb08fb02655b0b365f0ed7f3ad0e0561e40c93c97410f838a3123ec97b&width=2047&height=1363&quality=90&smart=true
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■   Bernardo Cahue, 09/08/2025

O presidente colombiano, Gustavo Petro, escolheu o feriado nacional de 7 de agosto para uma demonstração de força na conturbada fronteira com o Peru. Diante de ministros e tropas no porto de Leticia, Petro declarou solenemente: "Colombia não reconhece a soberanía do Peru sobre a denominada Ilha de Santa Rosa", acusando o país vizinho de violar tratados de fronteira ao criar unilateralmente um distrito na ilha em junho. Horas depois, o primeiro-ministro peruano Eduardo Arana desembarcava no território disputado para uma visita simbólica, acompanhado de autoridades locais e forças de segurança.

A ilha fluvial, formada por sedimentação do rio Amazonas por volta de 1970, tornou-se palco de uma crise geopolítica com desdobramentos militares. Enquanto navios da Marinha peruana realizam patrulhamentos ostensivos, o governo colombiano posicionou efetivos adicionais em Leticia, cidade de 55.000 habitantes separada de Santa Rosa por um braço de rio que está secando progressivamente - justamente o cerne do conflito. Petro argumenta que o bloqueio do acesso ameaça transformar Leticia em "cidade fantasma", cortando a conexão colombiana com a principal artéria amazônica.

Entenda o problema geográfico da Ilha de Santa Rosa

A Ilha de Santa Rosa está localizada no rio Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil (Tabatinga-AM), Colômbia (Letícia) e Peru. A ilha situa-se frente à cidade colombiana de Letícia, separada apenas por um braço do rio Amazonas. Estudos da Universidade Nacional da Colômbia indicam que mudanças morfológicas no rio, causadas pelo aquecimento global, aproximaram Santa Rosa do território colombiano nas últimas décadas, fazendo com que a ilha ficasse apenas a alguns metros do cais colombiano, impactando diretamente o acesso fluvial da cidade ao canal principal do Amazonas. A base administrativa peruana mais próxima é a província de Mariscal Ramón Castilla, mas a ilha está fisicamente distante do núcleo territorial peruano continental.

Embora bem próxima do município amazonense de Tabatinga, a relação é mais de vizinhança do que de disputa direta, pois o Brasil não reivindica a ilha.

Em Santa Rosa, cerca de 3.000 habitantes vivem uma contradição palpável:

  • Instituições peruanas como a Polícia Nacional, Banco de la Nación e agências aduaneiras operam formalmente na ilha, junto a escolas e um hospital
  • Apesar da infraestrutura, relatos indicam abandono estatal crônico e vulnerabilidade social extrema, com acesso limitado a serviços básicos
  • O potencial turístico é visível: floresta preservada, fazendas familiares e a vila de Santa Rosa de Yavari atraem visitantes, mas carecem de investimentos

Este cenário contrasta com a recente elevação da ilha à categoria de distrito peruano, medida que Bogotá classifica como "apropriação ilegal".

Diplomatas regionais temem que a disputa por Santa Rosa possa escalar, especialmente após Petro transferir as celebrações da Batalha de Boyacá para a zona de conflito - um gesto carregado de simbolismo nacionalista. Enquanto o Peru insiste que a ilha nasceu de Chinería (território reconhecidamente peruano nos tratados de 1922), a Colômbia argumenta que formações pós-1970 devem ser submetidas a processo binacional de demarcação, conforme previsto no Protocolo do Rio de 1934.

Petro e a Lava-Jato peruana

A crise atual é o capítulo mais recente de uma ruptura diplomática que começou em dezembro de 2022, quando Petro qualificou a destituição do presidente peruano Pedro Castillo como "golpe de Estado". O líder colombiano retirou seu embaixador em Lima, declarou "ilegítima" a presidente Dina Boluarte e recebeu como retaliação a declaração de persona non grata pelo Congresso peruano. O episódio guarda semelhanças inquietantes com crises institucionais que abalaram outros países latino-americanos:

  • No Peru, os ex-presidentes Alejandro Toledo e Ollanta Humala foram condenados em 2024-2025 por corrupção ligada à empreiteira Odebrecht
  • No Brasil, a Operação Lava-Jato - que investigou esquemas similares da Odebrecht - acabou parcialmente anulada pelo STF após provas de conluio entre juízes e promotores

O paralelo se aprofunda ao examinar os métodos questionados: em 2021, o Supremo Tribunal Federal brasileiro determinou que o ex-juiz Sérgio Moro agiu com "parcialidade inaceitável" ao condenar Lula, especialmente após vazamentos que revelaram coordenação ilegal com promotores. As provas, incluindo as controversas acusações sobre um triplex no Guarujá, foram consideradas contaminadas por vícios processuais.

Com militares em alerta e a comunidade internacional acompanhando o impasse, os 3.000 habitantes de Santa Rosa permanecem no limbo - simbolicamente peruanos, geograficamente colombianos, e praticamente esquecidos no epicentro de uma batalha que transcende suas casas de madeira e suas vidas à mercê das correntes do grande rio.

Com informações de: Al Jazeera, El País English, Infobae, Latin America Reports, Reuters, Associated Press

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