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Big Mac e a taxação dos hambúrgueres
A geopolítica no prato e a soberania no impacto sobre o sanduíche estrangeiro
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 18/07/2025

O cenário político internacional se desdobra como um cardápio de tensões em ambiente de fast-food. Donald Trump manipula narrativas como quem escolhe ingredientes para uma receita pré-fabricada.

Durante entrevista a jornalistas brasileiros alinhados ao bolsonarismo, o presidente norte-americano adota postura evasiva sobre as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. Ele desvia de perguntas diretas sobre seu apoio explícito a Jair Bolsonaro e sua interferência na soberania nacional brasileira. Minimiza seu ato como mero conhecimento de um cidadão comum sobre o Brasil e nega responsabilidade direta pela taxação, como se a medida fosse um fenômeno meteorológico e não uma decisão de Estado. Essa coreografia retórica revela o jogo duplo. Enquanto fala em livre-comércio, sua carta pública a Bolsonaro exige o fim imediato do processo judicial contra o ex-presidente como condição tácita para revisar as tarifas. A contradição é flagrante. Sua defesa de liberdade comercial esbarra em chantagem política.

No front doméstico, Lula transforma o Congresso da UNE em palanque de soberania. Ao anunciar a taxação das big techs norte-americanas, ele rebate as acusações de censura feitas por Trump e Zuckerberg. Lembra que o Brasil apenas regula redes sociais para coibir crimes como apologia à violência, discurso de ódio e pornografia infantil. O governo nunca bloqueia plataformas sem fundamento legal. A exceção fica por conta da Truth Social de Trump, que sequer solicita operação no país. O presidente destaca o paradoxo: empresas que lucram no Brasil, mas sonegam impostos e desrespeitam leis locais. Sua resposta é clara: cobrar impostos dessas corporações e proteger sistemas nacionais como o Pix, patrimônio tecnológico brasileiro. A plateia estudantil vibra. Pesquisas começam a mostrar o efeito. A defesa intransigente da soberania alimenta um renascimento da popularidade presidencial. Principalmente quando contrastada com a subserviência bolsonarista, simbolizada pelo governador Tarcísio de Freitas e seu boné Make America Great Again (MAGA).

A ironia geopolítica se materializa no preço do sanduíche. Enquanto Trump e Lula trocam farpas alfandegárias, o Big Mac serve de termômetro involuntário. O índice da The Economist revela que o real está 28% desvalorizado frente ao dólar. O sanduíche custa R$ 25 no Brasil contra US$ 6 nos EUA. Mas a explicação vai além dos humores cambiais. Nos últimos 30 anos, o Big Mac sobe 778% no Brasil, quase o dobro da inflação oficial medida pelo IPCA. O motivo é claro: alimentos lideram disparadas inflacionárias. Um jornalista perspicaz lança a pergunta incômoda em coletiva do governo: como explicar que um símbolo capitalista global sofra mais aqui que em economias sob sanções? A resposta silenciosa está na composição: dois hambúrgueres brasileiros. Carne produzida em terras taxadas por guerras comerciais. Pão de trigo dependente de commodities voláteis. Queijo e saladas vulneráveis a logísticas frágeis. Sobra até pros picles e pros grãos de gergelim. O sanduíche encapsula a equação: taxar exportações brasileiras é encarecer até o ícone americano no próprio solo. O consumidor final norte-americano pagará a conta dupla: pelo prato e pelo conflito.

Consideremos as fronteiras do aumento. Jacques Wagner, ao ser questionado sobre o aumento do preço do Big Mac, foi taxativo: "Nos Estados Unidos, com certeza".

Com informações de CNN, BBC, FP Abramo, UOL, EBC, Folha, Isto É Dinheiro, Valor Econômico e TV Globo.■

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