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O que seria um passo decisivo para o fim dos combates no Líbano se transformou em mais um capítulo de violência e impunidade. Horas após Israel e o governo libanês anunciarem, nesta quarta-feira (3), um novo cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, forças israelenses realizaram ataques aéreos e com drones no sul e leste do Líbano, resultando na morte de ao menos quatro pessoas, segundo a Agência Nacional de Notícias libanesa (NNA). Entre as vítimas estão um motociclista na vila de Maaroub e três pessoas no vilarejo de Sohmor, no Vale do Bekaa. A escalada também vitimou um soldado de paz da ONU, de nacionalidade sérvia, morto por um morteiro em Marjayoun, sem que se pudesse determinar a autoria do disparo.
O novo acordo, costurado em Washington, previa o estabelecimento de "zonas-piloto" no sul do Líbano, onde o Exército libanês assumiria o controle, e exigia o "cessar completo" dos ataques do Hezbollah e a remoção de seus combatentes da região sul do rio Litani. No entanto, a realidade nos territórios libaneses mostrou-se radicalmente diferente do texto diplomático.
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, tratou de esclarecer a postura de seu país, afirmando que as operações militares continuarão e que o Exército israelense não se retirará das áreas ocupadas no sul, mantendo a "liberdade de ação" para atacar Beirute, com respaldo dos EUA. Esta declaração, somada aos novos bombardeios, expõe a fragilidade de um cessar-fogo que, na visão de muitos analistas, jamais existiu de fato.
O secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, classificou o acordo como humilhante e uma tentativa de impor a "rendição" do grupo. Em uma declaração televisionada, Qassem foi enfático: "Enquanto nossas aldeias forem bombardeadas e nosso povo for morto, o norte de Israel não estará seguro". O grupo xiita condiciona qualquer trégua à cessação imediata dos ataques israelenses e à retirada total das tropas de ocupação, uma exigência que também é ecoada pelo Irã, que vê no cessar-fogo no Líbano uma condição para qualquer acordo mais amplo com os EUA.
Os principais pontos de tensão que inviabilizam o cessar-fogo, segundo analistas e fontes ouvidas, são:
A comunidade internacional, representada pela ONU através da UNIFIL, limitou-se a confirmar a morte do seu soldado da paz, sem avançar em medidas concretas para coibir as violações. A Sérvia, país de origem da vítima, também se manifestou, mas o silêncio das grandes potências diante da escalada é mais um sintoma da paralisia diplomática.
Enquanto isso, a população civil no sul do Líbano vive um calvário sem fim. Deslocados internos, muitos deles já tendo retornado a suas casas em momentos de trégua anteriores, são novamente forçados a fugir. As tropas israelenses expandiram sua ocupação, controlando agora cerca de um quinto do território libanês, o maior avanço desde a retirada de 2000. O balanço humanitário é devastador:
O presidente libanês, Joseph Aoun, ainda se agarra à esperança, classificando o pacto como a "última chance" para uma trégua definitiva. Mas, para os cidadãos de Sidon, que assistem aos acordos se sucederem sem qualquer efeito prático, a retórica oficial já não tem mais credibilidade. "A cada poucos dias anunciam um cessar-fogo, mas as pessoas continuam morrendo", desabafou a moradora Mayada Hijazi. "É só conversa e nenhuma ação", complementou Salah Nassab, expressando o cansaço e a descrença de um povo exaurido pela guerra.
A nota de hoje expõe uma realidade amarga: enquanto líderes políticos negociam e militares atacam, os civis libaneses e israelenses pagam o preço mais alto por uma paz que, ao que tudo indica, ainda está longe de ser alcançada. A comunidade internacional precisa parar de normalizar a ideia cínica, repetida pelo presidente Trump, de que na região um "cessar-fogo é quando se atira de maneira mais moderada". A vida exige ações concretas para o fim definitivo da violência, e não um bombardeio um pouco menos intenso.
Com informações de G1, Associated Press (AP), Al Jazeera, BBC News, CNN Brasil, The Hindu, Hindustan Times, Saudi Gazette, Agência Nacional de Notícias do Líbano (NNA) ■