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Claudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro, comunicou oficialmente ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que não será mais candidato ao Senado pelo estado nas eleições de 2026. A informação, confirmada pelo próprio Valdemar ao blog de Ana Flor, da GloboNews, põe fim — ao menos por ora — à trajetória eleitoral de um dos principais expoentes da direita fluminense, corroído por uma sucessão de reveses judiciais e operações policiais. O aviso, dado diretamente pelo ex-governador ao mandatário da sigla que o acolheu, soa menos como um recuo estratégico e mais como um atestado de inviabilidade política, forjado na esteira de escândalos que maculam a promessa de renovação outrora encampada pelo bolsonarismo no estado.
O anúncio não surpreende quem acompanha de perto a degradação da imagem pública de Castro. Em março, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o declarou inelegível por oito anos, até 2030, por abuso de poder político e econômico durante as eleições de 2022 — acusado de criar mais de 27 mil cargos comissionados irregulares para cooptar cabos eleitorais. Mesmo após a condenação, Castro manteve sua pré-candidatura ao Senado, apostando numa reversão judicial que nunca se concretizou. Contudo, o que poderia ser interpretado como resiliência política revelou-se, aos olhos de aliados e adversários, uma obstinação desconectada da realidade jurídica. Como observou o próprio G1, “a candidatura sempre esteve condicionada à situação jurídica do ex-governador”, mas “nos bastidores, a avaliação de dirigentes do PL era de que as investigações e operações da Polícia Federal tornaram sua permanência na corrida eleitoral politicamente insustentável”.
Essa insustentabilidade ganhou contornos dramáticos nas últimas semanas, quando duas operações da Polícia Federal, no intervalo de apenas 11 dias, descortinaram o modus operandi de uma relação promíscua entre o então governador e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. De acordo com relatórios da PF, o Rioprevidência — fundo de previdência dos servidores fluminenses — aplicou cerca de R$ 970 milhões em letras financeiras do Master, enquanto a Cedae, companhia de saneamento do estado, aportou outros R$ 218 milhões. As investigações também revelaram encontros e mensagens entre Castro e Vorcaro em Nova York, com direito a degustações de uísque que custaram US$ 1 milhão, jantares no badalado restaurante Nusr-Et (do chef Salt Bae) e despesas bancadas integralmente pelo banqueiro, incluindo um pagamento de US$ 13.313 — aproximadamente R$ 66 mil — para um jantar em maio de 2023. “Amigo, foi uma experiência incrível”, escreveu Castro a Vorcaro logo após o encontro. A promiscuidade entre poder público e interesses privados exposta pela PF não apenas compromete a biografia de Castro, mas também lança sombras sobre toda a articulação política que sustentava sua candidatura.
Diante desse quadro, o aviso de Castro a Valdemar Costa Neto assume um significado além do mero desembarque eleitoral. É a capitulação de um projeto político que apostava todas as fichas na blindagem partidária. Até então, Valdemar condicionara a permanência do ex-governador na chapa à reversão da inelegibilidade no TSE, mas, com as operações da PF e o vazamento dos diálogos comprometedores, a posição do presidente do PL tornou-se insustentável. A reportagem do Estadão destacou que, nos bastidores, aliados de Flávio Bolsonaro — presidenciável do PL — avaliavam Castro como “carta fora do baralho”. O filho do ex-presidente, aliás, via-se diante de um paradoxo: embora Castro ainda possuísse capilaridade no interior e na Baixada Fluminense, carregar seu nome no palanque equivaleria a um convite para ataques da oposição sobre as fraudes do Master. A permanência de Castro, portanto, tornava-se um risco não só para a candidatura ao Senado, mas para todo o palanque bolsonarista no estado.
A desistência de Castro abre uma cratera na estratégia eleitoral do PL para o Rio de Janeiro, que tratava a vaga ao Senado como prioridade absoluta. Sem um nome próprio de peso para substituí-lo, o partido negocia a vaga com o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União Brasil), e avalia nomes como os deputados federais Carlos Jordy e Sóstenes Cavalcante. Em meio à disputa interna, a cúpula do PL já admite perder o controle da indicação, o que expõe a fragilidade da estratégia de apadrinhamento puro e simples de políticos sob investigação. Como bem analisou o colunista Octavio Guedes, do G1, “a permanência de Castro tornou-se politicamente insustentável após uma sequência de reveses jurídicos e policiais que ameaçavam implodir os palanques da legenda tanto no plano regional quanto no nacional”.
Se há algum alento no episódio, ele reside no fato de que as instituições — ainda que lentamente — parecem impor limites à impunidade. A decisão do TSE que tornou Castro inelegível, as operações da PF que expuseram sua relação espúria com Vorcaro e, agora, o recuo eleitoral, são capítulos de uma mesma história: a erosão de um modelo de fazer política que confunde cargos públicos com cabides de emprego e contratos estatais com vantagens pessoais. Contudo, o fim da candidatura de Castro não extingue a cultura política que a gerou. Resta saber se o PL, ao buscar um substituto, repetirá a mesma receita de apadrinhamento, ou se finalmente compreenderá que o escrutínio judicial e a opinião pública exigem mais do que trocas de favores entre governantes e banqueiros.
Por ora, o aviso de Claudio Castro a Valdemar Costa Neto ecoa como uma confissão tardia: a de que, no tabuleiro político fluminense, quando as instituições resolvem agir, não há blindagem partidária que proteja. A carta fora do baralho foi devolvida ao seu dono, e o PL, agora, terá que recompor seu jogo sem uma das peças que, até pouco tempo, considerava imbatível.
Com informações de G1, O Estado de S. Paulo (Estadão), O Globo, Veja, SBT News, Diário do Rio de Janeiro, O Tempo ■