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O filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), se transformou no epicentro de uma crise política que ameaça implodir a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Mais do que uma obra cinematográfica, a produção revelou uma sofisticada engenharia financeira que, segundo investigações e ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pode ter sido montada para driblar a legislação eleitoral e transformar o longa em um gigantesco palanque eleitoral, com direito a lucro de bilheteria.
A estratégia, em tese, seria simples: o filme, com estreia prevista para setembro de 2026, a apenas um mês do primeiro turno das eleições, funcionaria como uma "propaganda eleitoral dissimulada" – uma campanha paralela e milionária, financiada por recursos de origem suspeita, que não estaria sujeita aos limites de gastos e à prestação de contas da Justiça Eleitoral. O plano, no entanto, começou a ruir com a divulgação de áudios e documentos pelo site The Intercept Brasil em 13 de maio de 2026.
O esquema: R$ 134 milhões de um banqueiro presoAs gravações e mensagens obtidas com exclusividade mostram Flávio Bolsonaro negociando diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, o repasse de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para bancar a produção do filme. "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu o senador a Vorcaro em 16 de novembro de 2025, um dia antes de o banqueiro ser preso ao tentar fugir do país.
Documentos e mensagens indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) foram efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico. O dinheiro teria sido recebido por um fundo no Texas (EUA), ligado a aliados do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente.
O valor é estratosférico para os padrões do cinema brasileiro. Para se ter uma ideia, o sucesso "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar, arrecadou pouco mais de R$ 100 milhões em bilheteria – bem menos do que o orçamento do filme de Bolsonaro. Profissionais do setor ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que R$ 134 milhões são "exagerados" para o projeto, dado que o elenco não tem grandes estrelas de Hollywood no auge. O ator principal, Jim Caviezel, teve seu maior sucesso há mais de 20 anos com "A Paixão de Cristo".
A 'caixa-preta' e o controle dos BolsonaroApesar dos valores astronômicos, a produtora Go Up Entertainment e o deputado Mário Frias (PL-SP), roteirista da obra, afirmam não ter recebido dinheiro do banqueiro. A Go Up diz ainda que não pode revelar a origem do orçamento sob sigilo contratual, criando uma verdadeira "caixa-preta" em torno do financiamento.
As revelações do Intercept, porém, mostram que o controle sobre os recursos estava nas mãos da família Bolsonaro. Um contrato de produção, datado de 2023, assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro, o coloca como produtor-executivo, com amplos poderes sobre a gestão financeira do projeto, a captação de recursos e as decisões de gastos. O deputado cassado havia negado publicamente qualquer papel de gestão, mas a documentação comprova o contrário.
Emendas parlamentares: dinheiro público para o filmeO esquema não se limitou ao dinheiro de Vorcaro. Parlamentares bolsonaristas destinaram ao menos R$ 4,6 milhões em emendas a entidades ligadas à produtora do filme, como a ONG Academia Nacional de Cultura (ANC), presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, que também está à frente da Go Up Entertainment. O caso é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), sob suspeita de que o dinheiro público esteja indiretamente financiando a produção.
Lançamento estratégico e ação no TSEO cronograma de lançamento do filme para setembro de 2026, a poucas semanas do pleito, é o que mais acendeu o alerta na Justiça Eleitoral. No dia 19 de maio, aliados do presidente Lula (PT) – o deputado Rogério Correia (PT-MG) e o grupo Prerrogativas – acionaram o TSE pedindo a proibição da exibição, distribuição e publicidade do filme durante o período eleitoral.
A ação argumenta que a "magnitude financeira, combinada com o conteúdo biográfico-político da obra e com o calendário de lançamento próximo à eleição presidencial, aproxima o caso de uma operação de comunicação política de massa". A peça judicial cita a decisão do TSE de 2022, que proibiu a exibição do documentário "Quem mandou matar Jair Bolsonaro?", da Brasil Paralelo, às vésperas do segundo turno. Na ocasião, a corte entendeu que o filme poderia ter um "efeito colateral abusivo".
Além do pedido de suspensão, a representação solicita a abertura de uma Investigação Judicial Eleitoral (IJE) para apurar suspeitas de:
O impacto político foi imediato e devastador para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. A primeira pesquisa Datafolha divulgada após o escândalo, em 22 de maio, mostrou uma queda significativa do senador: no primeiro turno, ele oscilou de 35% para 31%, enquanto Lula foi de 38% para 40%. No segundo turno, a diferença se ampliou: Lula tem 47% contra 43% de Flávio. A rejeição ao senador também subiu.
A imagem de "cavalo paraguaio" – aquele que larga na frente e perde vantagem – passou a ser associada a Flávio. O escândalo, que o torna vulnerável a ações por inelegibilidade, é considerado o maior abalo em sua trajetória desde o início da pré-campanha. A CNN Brasil também registrou queda nas intenções de voto do pré-candidato após o vazamento das conversas.
A bilheteria impossível: prejuízo certo?Do ponto de vista comercial, o negócio também parece insustentável. Especialistas do setor calculam que, para que Vorcaro recuperasse o investimento de R$ 134 milhões, o filme precisaria arrecadar mais de R$ 300 milhões em bilheteria – um valor 40% maior que a soma de todos os filmes brasileiros lançados em 2025 (cerca de R$ 215 milhões). Em um cenário generoso, mesmo que a distribuidora ficasse com apenas 15% da receita, o longa teria que superar a marca dos R$ 300 milhões.
A conta é ainda mais desanimadora quando se compara a bilheteria de "Dark Horse" com a de sucessos recentes do cinema nacional. Para pagar Vorcaro, o filme precisaria vender cerca de 15,1 milhões de ingressos no Brasil, um número que apenas cinco filmes na história do país atingiram – e todos eles superproduções internacionais como "Vingadores: Ultimato" e "Titanic". Além disso, as cidades onde Bolsonaro teve seu melhor desempenho em 2022, muitas delas no interior, não possuem salas de cinema.
O deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) apresentou outra representação ao TSE, apontando que o filme precisaria alcançar uma bilheteria "irreal de até R$ 804 milhões" para gerar qualquer lucro, o que evidencia a falta de viabilidade comercial da obra.
Conclusão: um tiro que saiu pela culatra?A engenharia financeira por trás de "Dark Horse" escancara uma tentativa de usar o cinema como plataforma de campanha eleitoral sem os devidos controles legais. Ao envolver um banqueiro preso, suspeito de fraudes bilionárias, dinheiro não declarado, empresas de fachada e emendas parlamentares, o esquema produziu o efeito oposto ao desejado: em vez de um "biopic" heroico para alavancar a candidatura de Flávio Bolsonaro, tornou-se o maior fardo eleitoral do clã desde o fim do governo de Jair Bolsonaro.
As múltiplas ações no TSE, as investigações em curso no STF e a repercussão negativa nas pesquisas indicam que o tiro saiu pela culatra. Resta saber se a Justiça Eleitoral conseguirá, a tempo de evitar os efeitos no pleito, desmontar a manobra e impedir que "Dark Horse" se transforme em um cavalo de Troia da democracia brasileira.
Com informações de Intercept Brasil, BBC News Brasil, Valor Econômico, G1, Gazeta do Povo, UOL, O Globo, Agência Brasil, CNN Brasil, Poder360, Metrópoles, Jota, Diário do Centro do Mundo, O Povo, Gaúcha ZH, Congresso em Foco, Estadão, Folha de S.Paulo, Revista Fórum, TV Brasil, Movimento Revista, Brasil 247, Notícias ao Minuto, Jovem Pan News, Painel Político, BNews São Paulo, Ac24horas, GZH ■