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O jeitinho Luciano Huck
Apresentador que critica Bolsa Família e defende “meritocracia” construiu império de R$ 1 bilhão com subsídios públicos, propaganda de bets e relações nebulosas com o poder
Artigo
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■   Bernardo Cahue, 25/05/2026

No último sábado (23), durante o 5º Fórum Esfera no Guarujá (SP), Luciano Huck afirmou que, ao concentrar 56% da economia municipal no programa, os beneficiários do Bolsa Família “queriam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa ad aeternum” e que o sistema “não gera nenhum estímulo” para sua saída. Após a repercussão negativa, ele gravou um vídeo em suas redes sociais alegando que o trecho foi tirado de contexto. A fala do apresentador, no entanto, está em descompasso com os fatos: dados da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania mostram que 2.069.776 famílias deixaram o Bolsa Família entre janeiro e outubro do ano passado devido ao aumento da renda. Ao generalizar que os mais pobres preferem a dependência, Huck reproduz o velho preconceito de classe que condena os vulneráveis enquanto ignora a desigualdade estrutural do país. A seguir, uma análise aprofundada das entranhas financeiras e políticas do “jeitinho Luciano Huck”.

Das bets à falência: o “garoto-propaganda” da BetMGM
Em 2024, Luciano Huck tornou-se garoto-propaganda da BetMGM, uma plataforma estrangeira de apostas esportivas que firmou sociedade com o Grupo Globo. O apresentador gravou comerciais veiculados nos intervalos de seu próprio programa, Domingão com Huck, incentivando o público a apostar on-line em rede nacional. A defesa de que o Bolsa Família gera acomodação ganha contornos de hipocrisia quando vem de quem lucra com o vício em jogos de azar — setor que, segundo especialistas, prospera justamente sobre o desespero financeiro dos mais pobres. O caso se agrava quando se lembra que o apresentador também foi garoto-propaganda do Banco Will, instituição financeira liquidada pelo Banco Central que deixou milhares de clientes no prejuízo. Huck já havia deixado o Banco Pan, onde atuava como sócio consultivo, e foi “garoto-propaganda” do Itaú e da XP. Trata-se de um rico que, ao emprestar sua imagem para qualquer negócio, expõs seus seguidores a riscos financeiros graves enquanto amealha fortuna estimada em R$ 1 bilhão.

Jatinho subsidiado pelo BNDES: o socialismo para ricos
Em 2013, Luciano Huck usou um empréstimo de R$ 17,7 milhões do BNDES, com juros de apenas 3% ao ano, para comprar um jatinho particular da Embraer. O financiamento, viabilizado pelo programa BNDES Finame, foi intermediado pelo Itaú e contratado pela Brisair Serviços Técnicos e Aeronáuticos Ltda., empresa da qual Huck e Angélica são sócios. Ele tem 114 meses para quitar o débito. O argumento da assessoria de que o avião é usado para deslocamento até as gravações do programa não convence: o jato comporta oito passageiros e voa apenas duas vezes por semana. Ou seja, um bilionário utilizou dinheiro público subsidiado para adquirir um bem de luxo — exatamente o tipo de “atalho” que ele critica nos pobres. Se há alguém que conseguiu um “jeitinho” para ficar no conforto, esse alguém é Luciano Huck.

“Familhão” e o fantasma do Papa-Tudo
Em março de 2024, Huck lançou o título de capitalização Familhão, um clube de benefícios que cobra R$ 20 mensais e sorteia R$ 1 milhão em barras de ouro. O produto é vendido em lotéricas e tem o apresentador como embaixador. A analogia inevitável é com o Papa-Tudo, título de capitalização que a Globo lançou nos anos 1990 com Xuxa como garota-propaganda e que terminou em escândalo: a empresa deu calote de R$ 218 milhões, deixou de entregar 1.200 televisores e 125 ambulâncias sorteadas, além de ter sido colocada sob intervenção da Susep. Ao repetir o modelo antigo, Huck reedita uma armadilha financeira que já vitimou milhões de brasileiros. O Familhão pode não ter sido ainda alvo de uma CPI, mas o histórico da Globo com esse tipo de negócio é, no mínimo, preocupante.

Mansão em Angra: o decreto “Lei Luciano Huck”
A mansão de Huck na Ilha das Palmeiras, em Angra dos Reis, foi construída em Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios com diversas irregularidades: diques, muro de arrimo e formação de praia artificial sem licença. O apresentador foi multado em R$ 50 mil pelo estado e em R$ 40 mil pela Justiça de Angra por instalar boias na praia. O episódio mais grave, no entanto, é a relação promíscua com o poder público: Huck contratou o escritório de advocacia de Adriana Ancelmo, mulher do então governador Sérgio Cabral Filho. Pouco depois, Cabral editou o Decreto 41.921, que alterou a legislação da APA e beneficiou diretamente a mansão de Huck — a ponto de ambientalistas apelidarem a medida de “Lei Luciano Huck”. O município moveu uma ação civil pública contra o apresentador, que foi defendido pelo escritório da primeira-dama. O caso é um exemplo clássico de tráfico de influência: enquanto Huck pregava moralidade na TV, usava sua posição para obter favores de um governo manchado pela Lava Jato.

A quase candidatura e os “pitacos” para a Faria Lima
Desde 2018, Luciano Huck alimenta especulações sobre uma candidatura à Presidência. Naquele ano, ele articulou nos bastidores, participou de jantares com FHC, encomendou pesquisas de intenção de voto e chegou a ser cotado para concorrer pelo PPS, mas desistiu publicamente em um artigo na Folha. Em 2022, o nome voltou a circular, porém com menor intensidade. A cada ciclo eleitoral, Huck dá “pitacos” à cúpula financeira — reuniões com banqueiros e empresários da Faria Lima — para alimentar pesquisas e moldar estratégias de campanha, sem nunca efetivamente se lançar. Seu discurso é escancaradamente anti-petista, e suas críticas ao PT são recorrentes, como quando afirmou que Lula “não contribui” para o país. O apresentador construiu uma imagem de “parceiro do povo” enquanto se aproxima das elites financeiras e políticas, sempre com um pé na política e outro na propaganda, mas sem nunca assumir o ônus de um cargo eletivo.

Conclusão: o “jeitinho” que a elite não admite
Luciano Huck é a síntese do “jeitinho brasileiro” de sua própria classe: critica os pobres por supostamente se acomodarem no Bolsa Família, mas aceita subsídios públicos milionários para comprar jatinho; condena a corrupção, mas contrata escritório da mulher de Sérgio Cabral para se livrar de multas ambientais; defende a meritocracia, mas constrói sua fortuna em negócios nebulosos, como propagandas de bets e títulos de capitalização suspeitos. Por trás do sorriso de “bom moço”, há um rico com preconceito a pobres que se camufla de parceiro do povo para ganhar (muito) dinheiro.

Com informações de Dourados News, ND+, RD1, Correio Braziliense, Veja, Folha de S.Paulo, Poder360, O Globo, Terra, Diário do Centro do Mundo, Jornal GGN, Fundação Anfip, TechTudo, Meio & Mensagem, Focus GN, UOL, Gazeta do Povo, Valor Econômico, Terra, Diário do Centro do Mundo, O Globo, RD1, Veja, Folha de S.Paulo, Poder360, O Globo, Terra, Diário do Centro do Mundo, Jornal GGN, Fundação Anfip ■

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