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A Família Frias: do sacrifício no ar à rachadinha no chão do poder
Em meio a tiros da PMERJ em 1987 e boletos bancários de 2026, a história da família Frias expõe a fratura entre um pai mártir e um filho que trocou a fama na TV por uma carreira política manchada por denúncias de corrupção
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■   Bernardo Cahue, 23/05/2026

Há quase quatro décadas, o sobrenome da família Frias foi inaugurado na imprensa, aparecendo nas páginas policiais de forma trágica. Em agosto de 1987, o piloto Mário Antônio Frias, conhecido como “Seu Frias”, foi rendido por dois criminosos no Aeroporto de Jacarepaguá e forçado a decolar sob a mira de armas. A tentativa de resgate de três presos do Complexo Penitenciário Frei Caneca — entre eles o traficante Paulo Roberto de Moura, o “Meio Quilo” — terminou em fogo cruzado com a Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ). O helicóptero perdeu o controle, caiu no pátio de uma comunidade na região do Catumbi e explodiu, matando todos os ocupantes carbonizados. O filho caçula do piloto, na época com apenas 16 anos, recebeu a notícia como quem perde um herói. Seu nome: Mário Luís Frias.

Esse garoto, que cresceu sob o impacto da violência do Estado e do crime organizado, tornou-se um rosto familiar nas tardes da TV Globo. Após ser descoberto num processo informal de “olheiros” em praias cariocas, Mário Frias galgou fama nacional como galã de “Malhação” no fim dos anos 1990. No entanto, a trajetória que poderia ter se resumido a papéis de surfista e protagonista de novelas tomou um rumo diferente quando, em 2020, ele “cresceu o olho” na oportunidade aberta pela conturbada passagem de Regina Duarte à frente da Secretaria Especial da Cultura.

A nomeação de Mário Frias para o comando da pasta, em junho de 2020, representou o ápice de uma guinada ideológica radical. Antes um artista tranquilo, ele se tornou uma das vozes mais estridentes do bolsonarismo na área cultural, tratando funcionários aos gritos e promovendo uma gestão marcada pela “anti-cultura” e pelo alinhamento automático ao presidente. Mas foi na Câmara dos Deputados, onde assumiu como parlamentar por São Paulo, que o ex-ator parece ter encontrado seu palco mais sombrio: o da corrupção administrativa.

Investigação recente, conduzida com base em documentos obtidos pelo portal g1, revelou um esquema robusto de “rachadinha” operado no gabinete de Mário Frias entre fevereiro de 2023 e maio de 2024. A prática — que consiste na devolução compulsória de parte dos salários de servidores aos detentores dos cargos comissionados — foi detalhada por uma ex-funcionária, Gardênia Morais. Ela afirmou que, embora seu salário líquido variasse entre R$ 10 mil e R$ 21 mil, sobrava-lhe apenas uma fração, entre R$ 6 mil e R$ 7 mil, após as devoluções mensais exigidas. Os extratos bancários e comprovantes de Pix apontam que os recursos desviados abasteciam não apenas o então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, mas também parentes diretos do deputado:

  • Em janeiro de 2024, foi feito um Pix de R$ 1.000 para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar;
  • Em dezembro de 2023, a ex-assessora quitou uma fatura de cartão de crédito da esposa, Juliana Frias, no valor de R$ 4.832,32;
  • As movimentações identificadas somam, até o momento, R$ 35.116 em repasses diretos, sem contar empréstimos consignados que totalizaram R$ 174.886, dos quais apenas R$ 35 mil teriam sido usados pela própria funcionária.

O contraste entre o destino do pai e do filho é inevitável e profundamente simbólico. O piloto Mário Antônio morreu em meio a uma operação policial desastrada, enquanto tentava salvar a própria vida sob a mira de marginais. O episódio, ocorrido em 1987, ainda ecoa como uma metáfora da violência e do descaso institucionais: a notícia de sua morte, no Jornal do Brasil, foi reduzida a um último parágrafo de uma nota de rodapé, depois de destacado o prejuízo financeiro do helicóptero. Já o filho — que poderia ter construído uma biografia modesta como ator — optou por ingressar numa política movida a negacionismo, ataques à imprensa e, agora, a suspeitas de peculato.

Diante das evidências, o deputado Mário Frias silenciou. O atual chefe de gabinete, Diego Ramos, alegou “desconhecimento” sobre as acusações, afirmando ter assumido o cargo após o período investigado. Frias, no entanto, não se pronunciou até o fechamento desta reportagem, repetindo a mesma estratégia de isolamento já adotada por outros investigados em esquemas do tipo. A prática, popularmente chamada de “rachadinha”, é tipificada pelo Ministério Público como peculato — apropriação de recursos públicos por funcionário — podendo gerar penas severas e cassação do mandato.

Da tragédia aérea no Rio de Janeiro dos anos 1980 ao escândalo financeiro em Brasília em 2026, a história dos Frias ilustra mais do que um drama familiar. Ela revela o movimento perverso de uma elite política que se apropria da comoção e do sofrimento alheio para depois, uma vez no poder, repetir métodos tão indignos quanto os dos criminosos que levaram o pai à morte. A pergunta que fica no ar, enquanto os boletos bancários se acumulam nos autos do inquérito, é: o que restará do legado de Mário Frias quando o sobrenome finalmente se dissolver na mesma lama moral que ele ajudou a construir?

Com informações de g1, Brasil 247, Brasil de Fato, Folha de S.Paulo, O Antagonista, VEJA Rio, BBC News Brasil, Agência Brasil, The Intercept Brasil, Congresso em Foco e NaTelinha (UOL) ■

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