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O Paquistão viveu um fim de semana de contrastes dramáticos. Enquanto sua capital, Islamabad, se destacava como palco central para as negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã, o noroeste do país sangrava com um dos ataques mais letais contra as forças de segurança nos últimos meses. Na noite de sábado, 9 de maio de 2026, um atentado coordenado que combinou um carro-bomba e uma emboscada visou um posto policial no distrito de Bannu, na província de Khyber Pakhtunkhwa, deixando um saldo trágico de, pelo menos, 14 policiais mortos e vários outros feridos.
O ataque ocorreu por volta das 20h55 (horário local), quando um homem-bomba conduziu um veículo carregado com uma grande quantidade de explosivos em direção ao posto de checagem de segurança de Fateh Khel, em Bannu. A detonação foi tão poderosa que destruiu completamente a estrutura do posto, derrubando seu telhado e soterrando diversos policiais sob os escombros.
Entretanto, a ação dos terroristas não se limitou à explosão inicial. Imediatamente após a detonação, dezenas de homens armados, descritos por autoridades como “fortemente armados”, invadiram o local arrasado e abriram fogo contra os policiais que haviam sobrevivido à explosão. Utilizando táticas de guerra assimétrica, os militantes também empregaram pequenos drones quadricópteros no ataque, para reconhecimento ou mesmo para lançar explosivos. “Os militantes usaram quadricópteros em seu ataque, junto com armas pesadas”, detalhou uma alta autoridade administrativa de Bannu, sob condição de anonimato, acrescentando que mais de 100 militantes participaram da operação.
A violência não parou por aí. Quando equipes de reforço da polícia foram enviadas para prestar socorro, caíram em uma emboscada preparada pelos terroristas, que abriram fogo de várias direções, causando baixas adicionais. O chefe da polícia da cidade, Sajjad Khan, confirmou em um comunicado que os corpos das vítimas foram recuperados dos escombros e que os sobreviventes foram levados às pressas para hospitais, onde foi decretado estado de emergência. Testemunhas relataram múltiplas explosões e intenso tiroteio, que espalharam pânico entre os moradores da região.
Embora os primeiros relatos da imprensa, citando fontes policiais iniciais, mencionassem ao menos três mortos, o balanço oficial foi sendo atualizado conforme os trabalhos de resgate avançavam. No domingo, 10 de maio, fontes oficiais da polícia e da mídia local já confirmavam números mais trágicos. A agência de notícias Bernama e o jornal The Express Tribune, citando fontes policiais, reportaram que ao menos 15 policiais foram mortos e outros três ficaram feridos. A agência de notícias iemenita Saba, por sua vez, também confirmou o número de 15 policiais mortos, citando uma autoridade policial local que classificou o episódio como parte de uma onda de extremismo que tem sobrecarregado as relações entre Islamabad e Cabul.
A responsabilidade pelo atentado foi reivindicada pela aliança militante Ittehad-ul-Mujahideen, um grupo que atua na região fronteiriça e que tem se notabilizado por ataques de alta letalidade. Nos ataques anteriores, a suspeita geralmente recaía sobre o Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), que mantém laços com o Talibã afegão. A escolha de uma tática tão coordenada e violenta, incluindo o uso de drones, evidencia um alto grau de planejamento e capacidade operacional por parte dos grupos extremistas que atuam na região.
O ataque em Bannu não é um evento isolado, mas sim o mais recente capítulo de uma escalada de violência que atormenta o noroeste do Paquistão, especialmente as áreas que fazem fronteira com o Afeganistão. A província de Khyber Pakhtunkhwa tem sido um dos epicentros do terrorismo no país, sendo palco de frequentes atentados que alvejam tanto civis quanto as forças de segurança.
Islamabad acusa repetidamente o governo talibã em Cabul de fornecer abrigo seguro para militantes do TTP e de outros grupos, que planejam e executam ataques a partir do território afegão. O governo Talibã, no entanto, nega veementemente as acusações, classificando a militância no Paquistão como um problema interno do país. Essa tensão fronteiriça já atingiu níveis críticos recentemente, com o Paquistão realizando ataques aéreos dentro do Afeganistão em fevereiro, o que provocou o pior combate entre os dois países em anos. Embora os confrontos tenham diminuído desde então, a situação permanece volátil, sem um cessar-fogo formal, e ataques como o deste fim de semana ameaçam reacender um conflito mais amplo e devastador na porosa fronteira entre os dois países.
A reação do governo paquistanês foi imediata. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif condenou veementemente o incidente e ordenou que as forças de segurança atuem com “toda a força” para levar os culpados à justiça. No entanto, para uma população já cansada de décadas de violência, a promessa de justiça soa cada vez mais como um refrão vazio, diante da aparente incapacidade do Estado em conter uma crise de segurança que se aprofunda dia após dia.
Enquanto a violência consumia o noroeste do país, a capital, Islamabad, vivia um cenário completamente diferente, hospedando as mais importantes negociações diplomáticas do ano. Em um papel que poucos países poderiam desempenhar, o Paquistão consolidou sua posição como o mediador primário e “não inocente” nas negociações entre os Estados Unidos e o Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio.
As negociações, que têm gerado expectativas globais, ganharam um novo impulso no último domingo, 10 de maio. A agência de notícias estatal iraniana, IRNA, informou que o Irã enviou sua resposta à mais recente proposta de paz apresentada pelos EUA, por meio de um mediador paquistanês. De acordo com o comunicado oficial, as negociações nesta fase se concentrarão unicamente na questão do fim da guerra na região, deixando outros temas espinhosos para uma etapa posterior.
As propostas em discussão são complexas e envolvem concessões significativas de ambos os lados. De acordo com o site Axios, os EUA exigem que o Irã interrompa seu programa de enriquecimento de urânio por um período de 20 anos. Em contrapartida, Teerã teria proposto uma pausa de apenas cinco anos, rejeitando abertamente a exigência americana. A negociação gira em torno de um memorando de entendimento de 14 pontos que definiria os parâmetros para um mês de negociações formais, com o objetivo de estabelecer um cessar-fogo duradouro e reabrir o Estreito de Hormuz para a navegação comercial.
Este é o ponto alto de um processo que já teve avanços e recuos. No início de abril, o Paquistão obteve sua maior vitória diplomática em anos ao intermediar um cessar-fogo de duas semanas entre as partes, que desde então foi estendido indefinidamente para dar lugar à diplomacia. A primeira rodada de negociações diretas foi realizada em Islamabad nos dias 11 e 12 de abril, contando com a presença de altos funcionários, incluindo o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi. No entanto, as 21 horas de negociações exaustivas no Hotel Serena não conseguiram produzir um acordo final para encerrar a guerra, deixando o futuro do processo ainda incerto.
O papel de mediador global, no entanto, contrasta dramaticamente com a realidade paquistanesa. Enquanto os diplomatas paquistaneses medeiam a paz entre superpotências em luxuosos hotéis de Islamabad, as forças de segurança do país são dizimadas em ataques coordenados nas regiões fronteiriças. A incapacidade do Estado paquistanês de conter seus próprios conflitos internos e garantir a segurança de seus cidadãos, particularmente nas áreas tribais do noroeste e na província do Baluchistão, lança uma sombra sobre sua pretensão de exercer um papel de protagonista na geopolítica mundial.
Para analistas, essa dupla face do Paquistão não é apenas um paradoxo, mas uma estratégia. Ao se posicionar como um mediador insubstituível entre Washington e Teerã, o governo de Shehbaz Sharif busca projetar uma imagem de estabilidade e relevância internacional, que atrai investimentos e apoio político, ao mesmo tempo em que tenta conter as forças centrífugas que ameaçam desmembrar o país.
Ainda assim, a um dia para que o presidente Donald Trump inicie uma visita à China, a pressão sobre Islamabad é máxima. Os EUA esperam que o mediador paquistanês consiga extrair uma resposta positiva do Irã que possa servir de base para um acordo mais amplo. No entanto, com tropas americanas ainda em combate no Oriente Médio e com a sombra de uma operação militar de maior escala, denominada “Projeto Freedom Plus”, pairando sobre as negociações, a margem para erros tanto em Teerã quanto em Washington é mínima. E para o Paquistão, que luta para apagar os incêndios em sua própria casa, o preço de um fracasso diplomático pode ser tão alto quanto o preço de mais um atentado em suas fronteiras.
Com informações de Anadolu Ajans?, Associated Press, BBC News Brasil, Bernama, CNN Brasil, Dawn News, Estadão, The Express Tribune, GZH, The Hindu, The Indian Express, IRNA, O Povo, Reuters, Saba News Agency, Veja, WION, Xinhua e Yeni ?afak ■