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Falsos rumores, mortes reais: a crise mortal da desinformação em saúde no Congo
Um boato sobre uma suposta "doença da atrofia genital" espalhou-se por vilarejos e redes sociais na República Democrática do Congo, alimentando pânico e culminando no linchamento de profissionais de saúde; especialistas alertam que a desinformação ameaça retroceder décadas de avanços em saúde pública no continente africano
Africa
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSHVKTJOsxDFfo7i7UhoskLWjcaCFGE8vwpHQ&s
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■   Bernardo Cahue, 10/05/2026

Na província de Tshopo, no nordeste da República Democrática do Congo (RDC) coberta pela floresta tropical, um rumor começou a circular nos vilarejos no final do ano passado: uma misteriosa enfermidade estaria causando a atrofia dos órgãos genitais masculinos. Em poucos dias, depoimentos falsos se proliferaram nas redes sociais, amplificando uma ameaça puramente imaginária, gerando um pânico real que se tornou mortal antes mesmo que o governo pudesse reagir. Este foi o estopim de uma das mais graves crises de desinformação em saúde já registradas no continente africano, com consequências trágicas e duradouras.

O surgimento de um boato mortal

Em outubro, multidões enfurecidas atacaram e mataram quatro profissionais de saúde que realizavam pesquisas de vacinação na região de Isangi, em Tshopo. Os trabalhadores, que faziam parte de uma equipe de campo, foram acusados por moradores da vila de Ilambi de estarem "espalhando doenças falsas". Um membro da equipe que sobreviveu ao ataque relatou à Reuters que, apesar das repetidas tentativas dos médicos de explicar que estavam conduzindo uma pesquisa legítima sobre vacinas, os moradores permaneceram desconfiados. A presença de "estranhos" usando coletes de alta visibilidade e carregando tablets digitais aprofundou ainda mais a suspeita dentro da comunidade. Em um depoimento comovente, Justine Tangakeya, viúva de um dos profissionais de saúde assassinados, John Tangakeya, relatou: "Eles o queimaram vivo, sem sequer me deixar um vestígio dele".

Dimensão da tragédia e números alarmantes

A violência, no entanto, não parou por aí. O pânico se espalhou para outras partes da RDC. No total, pelo menos 17 assassinatos relacionados ao boato da atrofia foram registrados, incluindo os quatro profissionais de saúde, de acordo com a Africa Infodemic Response Alliance (AIRA), uma aliança liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que monitora informações falsas sobre saúde. A Reuters não conseguiu verificar de forma independente as outras mortes, mas os números já são suficientes para acender um alerta máximo.

Desconfiança enraizada no passado colonial

A falta de fé na medicina estabelecida em partes da África, embora prevalente em muitas regiões do mundo, tem raízes profundas no continente. Especialistas apontam que essa desconfiança é parcialmente fruto tanto da era colonial quanto de ensaios clínicos ocidentais mais recentes que, em alguns casos, não respeitaram os direitos das populações locais. O Dr. Jean Kaseya, diretor-geral do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (África CDC), afirmou que essa desconfiança é turbinada pelo uso generalizado de inteligência artificial de baixo custo e das redes sociais. "Quando a população não confia nas vacinas, nos profissionais de saúde ou nas políticas governamentais, significa que ela não acessa os serviços que podem ajudá-la a sobreviver", alertou Kaseya.

O papel das igrejas e das redes sociais

Uma análise de mais de uma dúzia de vídeos testemunhais realizada pela Reuters revelou que as igrejas ajudaram a espalhar os boatos em Tshopo. Contas no exterior e a imprensa local também desempenharam um papel crucial. Em dois dos vídeos verificados pela agência de notícias, pastores e fiéis de duas igrejas em Kisangani, a capital provincial, afirmaram que a oração teria curado as supostas vítimas. Um desses vídeos foi visualizado centenas de milhares de vezes. A desinformação, portanto, não se espalhou apenas digitalmente, mas encontrou eco e legitimidade em instituições comunitárias de grande influência.

Resposta do governo e condenações

Em resposta à Reuters, o porta-voz do governo de Tshopo afirmou que as autoridades locais levaram o boato a sério, investigaram as alegações de cinco supostas vítimas e não encontraram nenhuma evidência de que a doença fosse real. O governo também tomou medidas para punir os responsáveis por alimentar o pânico. Um tribunal local condenou um homem que acusou outro de espalhar a doença a 12 meses de prisão, e cerca de uma dúzia de pessoas foram presas. Essas medidas, no entanto, são vistas por analistas como paliativas diante da magnitude do problema.

Um problema que vai além das fronteiras do Congo

A crise de desinformação no Congo não é um caso isolado. Ataques a líderes comunitários e profissionais de saúde também foram registrados em Moçambique e no Malaui, ligados a informações falsas relacionadas à cólera. A OMS tem monitorado a situação de perto. Uma linha de saúde gerenciada pela organização, com o objetivo de combater a desinformação e fornecer conselhos confiáveis, registrou um aumento expressivo no número de chamadas: de 3.331 no primeiro trimestre de 2025 para 31.636 no quarto trimestre. Outro projeto da OMS, que monitora interações com comunidades, registrou cerca de 500 incidentes desde o seu lançamento no ano passado relacionados a rumores, teorias da conspiração e outras informações falsas. Esses números mostram que a "infodemia" – a epidemia de desinformação – pode ser tão ou mais mortal do que as próprias doenças que procura imitar.

A crise na RDC serve como um alerta sombrio sobre o poder destrutivo da desinformação em contextos de fragilidade institucional, pobreza e acesso limitado a cuidados de saúde. Para muitos observadores, combater a desinformação está se tornando tão essencial quanto combater as próprias doenças. O caso dos profissionais de saúde queimados vivos por uma multidão enfurecida por um boato falso não é apenas uma tragédia local, mas um símbolo do preço que se paga quando a verdade é a primeira vítima do pânico.

Com informações de Reuters, UOL Notícias, Terra, Entrevue.fr, Kathmandu Post, Malay Mail, Miami Herald, Yahoo News, Moneycontrol, The Indian Express ■

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