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Palestinos votam nas primeiras eleições desde o início da guerra em Gaza
Entre a esperança por serviços básicos e o desencanto pela constante invasão israelense, Cisjordânia e a cidade de Deir al-Balah, em Gaza, realizam neste sábado (25) as primeiras eleições municipais do território desde o conflito de 2023
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 25/04/2026

As seções eleitorais na Cisjordânia e em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, abriram neste sábado (25) para as primeiras eleições municipais desde o início da guerra, em 2023. O pleito ocorre em meio a um cenário de desolação na Faixa de Gaza e de desânimo generalizado entre a população, que vê pouca perspectiva de mudança real diante de uma insvasão militar israelense e de uma crise de representatividade.

Números do pleito e contexto histórico
De acordo com a Comissão Eleitoral Central, com sede em Ramallah, cerca de 1,5 milhão de pessoas estão registradas para votar na Cisjordânia ocupada, enquanto 70 mil eleitores estão aptos a votar na área de Deir al-Balah, em Gaza. A votação em Gaza é histórica: é a primeira vez em duas décadas que os palestinos da região vão às urnas, sendo a última votação de qualquer tipo realizada em 2006, quando o Hamas venceu as eleições legislativas e, posteriormente, assumiu o controle da Faixa de Gaza.

Ausência do Hamas e predominância do Fatah
A maioria das listas eleitorais está alinhada ao partido Fatah, de orientação nacionalista e laica, liderado pelo presidente Mahmoud Abbas, ou concorre como independente. Não há listas vinculadas ao movimento islamista Hamas, que controla quase a metade da Faixa de Gaza e cujo ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel desencadeou a guerra. O Hamas foi proibido de participar e várias outras facções boicotaram o pleito devido à exigência de que os candidatos reconhecessem a autoridade da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Apesar de não estar oficialmente na cédula de votação em Deir al-Balah, uma lista de candidatos é amplamente vista como alinhada ao grupo.

Logística e desafios em meio à destruição
Em Deir al-Balah, as urnas funcionarão das 7h às 17h (horário local) — com fechamento antecipado em relação à Cisjordânia (onde a votação vai até as 21h) para que a apuração seja feita durante o dia, devido à falta de eletricidade no território devastado pela guerra. A cidade foi escolhida por ter sido uma das poucas áreas da Faixa de Gaza que não sofreu uma invasão terrestre israelense em larga escala durante os dois anos de conflito e por ter uma infraestrutura relativamente menos danificada. A Comissão Eleitoral Central improvisou a realização do pleito na região e utilizou espaços como estádios, centros de atividades femininas e antigas clínicas como locais de votação, alguns deles montados em tendas. A votação se dará por meio de quatro listas independentes — "Paz e Construção", "Deir al-Balah nos Une", "Futuro de Deir al-Balah" e "Renascimento de Deir al-Balah" — e os eleitores escolherão uma lista e, em seguida, cinco candidatos específicos dentro dela.

Desencanto e sentimento de futilidade
Em muitas cidades da Cisjordânia, incluindo Nablus e Ramallah, apenas uma lista foi apresentada, o que significa que a Fatah será a vencedora automática, sem necessidade de votação. Mahmoud Bader, um empresário da cidade de Tulkarem, no norte da Cisjordânia, expressou seu desencanto: "Sejam candidatos independentes ou partidários, não tem nenhum efeito e não terá nenhum efeito nem benefício para a cidade. A ocupação [israelense] é quem governa Tulkarem. Seria apenas uma imagem exibida para a mídia internacional, como se tivéssemos eleições, um Estado ou independência". Em Gaza, no entanto, há um sentimento de esperança cautelosa. Abd al-Rahman al-Masri, um médico de 27 anos que nunca havia votado, afirmou que quer que o próximo conselho municipal encontre soluções para os problemas locais, desde água e esgoto até a falta de espaço nos cemitérios. Farah Chaath, residente de Deir al-Balah, disse estar feliz por votar pela primeira vez aos 25 anos, afirmando que a eleição "é a confirmação de que seguimos existindo na Faixa de Gaza apesar de tudo".

Reação internacional e significado político
O coordenador da ONU, Ramiz Alakbarov, elogiou a comissão por organizar um "processo crível" e que as eleições "representam uma oportunidade importante para que os palestinos exerçam seus direitos democráticos durante um período excepcionalmente difícil". A votação também é vista como uma tentativa da Autoridade Palestina (AP), que governa a Cisjordânia, de se reafirmar em Gaza, de onde foi expulsa pelo Hamas em 2007. O cientista político Jamal al Fadi, da Universidade Al-Azhar do Cairo, explicou que a AP participa do pleito de Deir al-Balah apenas "como um experimento" para testar seu próprio sucesso ou fracasso. O porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, disse que o grupo apoia a realização das eleições e prometeu não interferir: "O Hamas já decidiu entregar todas as responsabilidades e poderes à lista vencedora logo após a divulgação dos resultados".

Os resultados da eleição são esperados até o final de sábado ou no domingo. A realização do pleito marca um momento simbólico importante — um lampejo de processo democrático em meio à destruição da guerra e à fragmentação política, ainda que seus efeitos práticos sobre a vida da população sob ocupação e sobre a reunificação palestina ainda sejam incertos.

Com informações de UOL, O Globo, Folha de S.Paulo, BBC News, Al Jazeera, DW News, The National, The Jerusalem Post, The Canberra Times, NDTV, The Express Tribune, WION News, L'Orient-Le Jour, New Straits Times ■

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