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Irã entrega lista de exigências para o fim da guerra no Paquistão
Representantes estão em Islamabad para tratativa com mediadores paquistaneses; Teerã nega qualquer conversa direta com os EUA
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 25/04/2026

O governo do Irã entregou neste sábado (25) ao Paquistão um documento com exigências para um acordo de fim da guerra contra os Estados Unidos, em meio à retomada das negociações mediadas pelo país asiático. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, apresentou as demandas a autoridades paquistanesas em Islamabad, mas Teerã reiterou que não haverá conversas diretas com representantes americanos — ao menos por enquanto. A informação foi divulgada pela agência Reuters, com base em fontes do governo paquistanês.

As tratativas ocorrem na capital paquistanesa, onde as delegações dos dois países participam de conversas indiretas, com os paquistaneses atuando como mensageiros entre as partes. Fontes ouvidas pela Reuters disseram que Araghchi entregou ao Paquistão documentos que incluem tanto as exigências iranianas quanto ressalvas de Teerã às propostas de Washington. O conteúdo do documento, no entanto, não foi divulgado até o momento.

Irã condiciona fim da guerra a 10 pontos

Embora os detalhes da nova lista de exigências não tenham sido revelados, reportagens anteriores da imprensa internacional — baseadas na agência oficial de notícias do Irã (IRNA) — dão conta de que Teerã apresentou anteriormente um plano de 10 pontos para encerrar o conflito“de forma permanente, e não apenas com um cessar-fogo temporário”. Entre os pontos anteriormente conhecidos, estariam:

  • Fim permanente das hostilidades — interrupção imediata e irreversível de todas as ações militares pelos EUA e Israel;
  • Garantias de segurança — compromissos internacionais vinculantes que impeçam futuros ataques ou operações que visem o regime;
  • Protocolo para o Estreito de Ormuz — acordo para passagem segura no canal, paralelamente ao reconhecimento do controle estratégico iraniano sobre a via;
  • Levantamento de todas as sanções — fim das sanções primárias e secundárias impostas pelos EUA e por organismos internacionais;
  • Liberação de ativos congelados — devolução das reservas financeiras do Irã retidas no exterior;
  • Reparações de guerra — compensação e ajuda internacional para a reconstrução da infraestrutura destruída no conflito;
  • Reconhecimento do programa de enriquecimento de urânio — aceitação, pelos EUA, do direito iraniano de enriquecer urânio nos termos do TNP;
  • Retirada das forças de combate dos EUA da região — saída de bases e pontos de implantação americanos no Oriente Médio;
  • Cessão das agressões contra aliados do Irã — fim dos ataques a grupos apoiados por Teerã no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen;
  • Resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU — chancela internacional que torne o acordo obrigatório sob o direito internacional.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, declarou que o país recebeu mensagens de Washington por meio de intermediários, mas que as demandas apresentadas até agora são “maximalistas e irracionais”.

Irã descarta encontro direto; EUA insistem em conversas presenciais

Horas depois de a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmar que “os iranianos querem conversar pessoalmente”, o Ministério das Relações Exteriores do Irã usou a rede social X (antigo Twitter) para negar qualquer reunião planejada com os enviados americanos. “Nenhuma reunião está planejada entre o Irã e os EUA”, escreveu Baqaei, acrescentando que “as considerações do Irã serão transmitidas ao Paquistão”.

O governo Trump destacou que os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner embarcariam para Islamabad ainda no sábado para “ouvir os iranianos”. A porta-voz Leavitt afirmou que Washington “certamente viu algum progresso da parte iraniana nos últimos dias”, mas Teerã manteve a posição de que só negociará com mediadores paquistaneses enquanto as tropas americanas mantiverem o bloqueio naval aos portos iranianos.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, que comandou a delegação americana na primeira rodada de negociações — realizada também em Islamabad nos dias 11 e 12 de abril — desta vez não viajou ao Paquistão, mas estaria de prontidão para se juntar às conversas, caso necessário.

Clima mais hostil que na primeira rodada

A despeito do otimismo manifestado por Trump na véspera — o presidente americano declarou à Reuters acreditar que a nova proposta iraniana atenderia às exigências dos EUA —, as tratativas deste sábado transcorrem em um ambiente mais tenso do que o da rodada anterior, quando os representantes das duas partes chegaram a se sentar frente a frente.

A segunda rodada de negociações estava prevista para terça-feira (21), mas foi adiada porque o Irã alegou não estar pronto, e a delegação americana permaneceu em Washington. No mesmo dia, Trump prorrogou o cessar-fogo entre os dois países para permitir a retomada das conversas.

Paquistão se consolida como mediador central

O Paquistão tem atuado como principal mediador entre as partes. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o marechal de campo Asim Munir têm mantido contato direto com as lideranças iraniana e americana. Fontes diplomáticas afirmam que Islamabad se empenhou para evitar o colapso do diálogo depois que a primeira rodada, que durou 21 horas, terminou sem avanços concretos.

Neste sábado, o chanceler iraniano também se reuniu com o ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, no Hotel Serena, mesmo local onde aconteceram os encontros anteriores. Além de Islamabad, a agenda de Araghchi inclui passagens por Mascate (Omã) e Moscou (Rússia), para “coordenar com parceiros” os esforços de paz.

Estreito de Ormuz paralisado e impacto global

Um dos pontos críticos do impasse é o Estreito de Ormuz, por onde escoava cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. A via marítima segue com o tráfego interrompido, sujeita a um bloqueio duplo exercido pelo Irã e pelos EUA. O fechamento elevou os preços da energia e pressionou cadeias globais de suprimento.

Dados de navegação mostram que apenas cinco navios cruzaram o estreito nas últimas 24 horas, ante uma média diária de cerca de 130 antes do início da guerra, em 28 de fevereiro. Os poucos navios que atravessam incluem um petroleiro iraniano de produtos refinados, mas nenhum dos superpetroleiros que normalmente abastecem os mercados mundiais.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, classificou a reabertura da rota como “vital para o mundo”. Enquanto os esforços diplomáticos prosseguem, o mercado de petróleo fechou em alta, impulsionado por expectativas de que as conversas possam produzir algum avanço. Trump afirmou que tem “todo o tempo do mundo” para negociar, ainda que mantenha pressão militar: um terceiro porta-aviões, o USS George H.W. Bush, foi deslocado para áreas próximas ao Golfo.

Entendendo o conflito

A guerra entre EUA e Irã começou em 28 de fevereiro e já dura mais de oito semanas. O conflito teve início com ataques israelenses que mataram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, e rapidamente escalou para bombardeios americanos a infraestruturas nucleares e energéticas iranianas, além da imposição de um bloqueio naval aos portos do país. Em retaliação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz e passou a alvejar bases americanas na região.

Em 8 de abril, o Paquistão anunciou um cessar-fogo de duas semanas, que tem sido prorrogado desde então para permitir a continuidade das negociações. A trégua mais recente foi estendida por tempo indeterminado por Trump, após pedido das autoridades paquistanesas.

Com informações de Agência Brasil, Al Jazeera, BBC News, CartaCapital, CNN Brasil, G1, Middle East Eye, Notícias R7, Reuters, The Hindu, Times Now News, UOL e Xinhua ■

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