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O histórico de misoginia e racismo que aproxima Donald Trump de Adolf Hitler
Comparações não são mais retórica inflamatória: ex-chefe de gabinete, historiadores e análise científica apontam paralelos estruturais entre Trump, o fascismo e o nazismo
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■   Bernardo Cahue, 24/04/2026

A frase ecoou pelos corredores do poder em outubro de 2024: "Ele certamente se enquadra na definição geral de fascista, sem dúvida". Quem falava não era um adversário político, mas o general John Kelly, chefe de gabinete da Casa Branca de Donald Trump e um dos auxiliares que por mais tempo trabalhou diretamente com o ex-presidente. A declaração, publicada pelo New York Times e pela revista The Atlantic, abalou Washington. Kelly revelou que Trump, em conversas privadas, teria dito repetidas vezes que Hitler "fez algumas coisas boas" e que o então presidente desejava ter o tipo de "generais alemães" que serviram ao Führer e cometeram crimes de guerra indescritíveis durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao longo de sua trajetória pública, Donald Trump acumulou um extenso histórico de declarações e políticas que, segundo acadêmicos, historiadores e analistas políticos de diferentes partes do mundo, guardam semelhanças estruturais preocupantes com as bases ideológicas do nazismo — especialmente em seus eixos centrais: a misoginia como ferramenta de dominação e o racismo como linguagem de Estado. Não se trata de uma equivalência histórica, que seria anacrônica, mas da identificação de padrões retóricos, conceituais e institucionais que remetem a elementos fascistas.

Misoginia como política: das "mulheres porcos" ao controle dos corpos

O padrão misógino de Donald Trump não é acessório, mas central em sua trajetória pública. O episódio mais emblemático veio à tona em outubro de 2016, quando o Washington Post divulgou uma gravação de 2005 na qual Trump se gaba de usar sua fama para assediar mulheres, descrevendo em termos vulgares a liberdade que a celebridade lhe daria para "agarrá-las pela vagina" sem consentimento. A fala, classificada por comentaristas como misógina e degradante, levou o presidente da Câmara dos Deputados à época a declarar-se "enojado" e a excluir o candidato de um evento de campanha em Wisconsin.

O padrão, no entanto, é mais antigo. Em abril de 2016, o jornal El País noticiou que Trump sugeriu que mulheres que se submetem a aborto deveriam sofrer "algum tipo de castigo", uma posição tão extrema que nem mesmo os grupos mais radicais do movimento pró-vida a endossavam, pois considera a mulher também uma vítima, não uma criminosa. O articulista Franklin Foer, citado pelo El País, afirmou que, entre todas as ideologias que Trump já abraçou e abandonou, "existe uma ideologia que ele abraça com sinceridade e pratica com inquebrantável fervor: a misoginia".

Já em sua campanha de 2024, Trump prometeu que se tornaria "o protetor das mulheres, quer elas queiram ou não" — uma frase que, para analistas, não seria apenas paternalista, mas ecoaria a lógica fascista de supressão da autonomia feminina. No mesmo período, sua campanha e aliados passaram a adotar discursos que associam a luta por direitos das mulheres a uma suposta "ideologia de gênero" que precisaria ser erradicada, remetendo a políticas de Estado que, em regimes fascistas, redefiniram o papel social da mulher como restrito à procriação e ao lar.

Racismo e xenofobia: do muro à "contaminação do sangue"

Em dezembro de 2023, Trump afirmou em um comício em Iowa que imigrantes indocumentados da África, Ásia e América do Sul estavam "destruindo o sangue do nosso país". Quando questionado, disse que nunca leu "Mein Kampf", mas que Hitler teria usado a expressão "de uma maneira muito diferente". A frase ecoou diretamente passagens do manifesto nazista, no qual Hitler escreveu: "Todas as grandes civilizações do passado tornaram-se decadentes porque a raça originalmente criativa morreu, como resultado da contaminação do sangue". A ligação com a eugenia nazista é ainda mais explícita em sua fala de 2024 ao programa de Hugh Hewitt, quando afirmou que assassinos têm a criminalidade "nos genes" e que "temos muitos genes ruins neste país agora". Para o historiador Benjamin Carter Hett, do LaTimes, a retórica de Trump revive teorias criminológicas da era nazista, incluindo o conceito de "criminoso nato" e a defesa da "erradicação da vida indigna de vida" — premissa central que levou à criação dos campos de concentração na Alemanha.

Essa preocupação com pureza genética e "sangue contaminado" não é isolada. Em 2020, Trump disse a apoiadores em Minnesota: "Vocês têm bons genes, sabem disso, não? Muito disso é sobre os genes, não é?", referindo-se à "teoria do cavalo de corrida" — a crença de que boas linhagens produzem descendentes superiores, adaptada da criação de cavalos. O comentário foi duramente criticado por grupos judeus, liberais e historiadores, que associaram a fala ao movimento eugenista norte-americano que inspirou diretamente as políticas raciais nazistas na década de 1930.

Há ainda mais evidências. O antecessor de Trump em uma das acusações de racismo estrutural remonta a 1973, quando sua empresa, a Trump Management, foi processada pelo Departamento de Justiça por discriminação habitacional contra inquilinos afro-americanos. Já como presidente, em 2017, Trump igualou publicamente supremacistas brancos a manifestantes antirracistas durante os protestos de Charlottesville, na Virgínia, declarando que "havia pessoas muito boas dos dois lados".

As semelhanças estruturais com Hitler e o fascismo

Para analistas, o racismo e a misoginia de Trump não são meros desvios de caráter, mas manifestações de um projeto político que reflete características centrais do fascismo. O historiador Federico Finchelstein, da Universidade de Nova York, membro da rede Swissinfo, define o fenômeno Trump como "uma versão extrema do populismo que está se aproximando do fascismo", identificando quatro elementos-chave: violência política, propaganda/desinformação, xenofobia e ditadura. Finchelstein é categórico: "Estamos diante de alguém que quer ser um líder fascista".

O professor Fernando Alcoforado, em análise publicada pela AE PETBA, lista semelhanças entre os governos de Hitler e Trump: nacionalismo agressivo, militarismo, culto ao chefe com traços messiânicos, desprezo ao Parlamento e uma visão de mundo baseada em hierarquias raciais e sociais naturais. Já o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, na CartaCapital, cunhou o termo "Narciso-Fascismo" para descrever o fenômeno Trump, lembrando que Hitler foi um protótipo do autoritarismo narcisista no século XX, enquanto Trump atualiza esse padrão por meio de novas tecnologias de comunicação.

A aproximação não vem apenas da esquerda ou de críticos. Em 2016, os ex-presidentes mexicanos Felipe Calderón e Vicente Fox fizeram comparações diretas entre Trump e Hitler. "Foi assim que ele começou a falar", disse Fox, referindo-se à demonização de imigrantes mexicanos. Calderón afirmou que Trump "alimenta o antiamericanismo e explora os medos sociais como o próprio Hitler fez em seu tempo". Também em 2015, quando Trump propôs um registro federal obrigatório para muçulmanos nos EUA e carteiras de identificação especiais, assessores de segurança nacional de rivais republicanos chamaram a proposta de "fascismo. Ponto. Não há outro nome a dar".

A normalização do extremo

Para o historiador Mark Bray, autor de "Antifa: The Anti-Fascist Handbook", a normalização do discurso trumpista é o maior perigo. "O verdadeiro problema não é o extremismo, mas sim como este extremismo é normalizado na sociedade", concorda Finchelstein. Bray, que deixou os Estados Unidos após receber ameaças de morte em função de seu trabalho antifascista, afirma: "Trump quer destruir a democracia e continuar sendo uma espécie de rei ou ditador". O general John Kelly, em sua fala de 2024, foi direto: "Olhando para a definição de fascismo — ideologia e movimento de extrema direita autoritária e ultranacionalista, caracterizado por liderança ditatorial, autocracia centralizada, militarismo, supressão da oposição com uso da força, crença em uma hierarquia social natural — ele certamente se encaixa nessa definição".

Quando o próprio chefe de gabinete da Casa Branca de Trump alimenta a comparação, e quando analistas internacionais de diferentes matizes ideológicos identificam padrões estruturais entre o trumpismo e o nazismo, a discussão deixa de ser retórica inflamatória para se tornar um alerta substantivo sobre os riscos que a repetição de certos padrões — misoginia institucionalizada, racismo como política de Estado e culto à pureza — representam para a democracia contemporânea.

Com informações de O Globo, Folha de S.Paulo, CartaCapital, BBC News Brasil, El País, Intercept Brasil, Gazeta do Povo, IHU Unisinos, Outras Palavras, Swissinfo, CNN Brasil, The New York Times, The Atlantic, Los Angeles Times, Wikipedia (Opiniões raciais de Donald Trump), AE PETBA, Grabois.org.br, TVI Notícias, A Terra é Redonda, Brasil de Fato, Exame, UOL, RFI, Estadão, Maxima, Esquerda Diário, Geledés, Migalhas, SciELO, Unesp, RTP, Antagonista, Lume UFRGS, Colsan, Cebri, Revista Oeste, CIG Servizos, Comentários Folha, Jornal da Cultura, Pulitzer Center, O Antagonista ■

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