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Em um movimento que elevou as tensões na já volátil rota marítima do Golfo Pérsico, o Irã apreendeu dois navios porta-contêineres no Estreito de Ormuz nesta quarta-feira (22). A ação ocorreu poucas horas após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a extensão por tempo indeterminado do cessar-fogo entre Washington e Teerã. A informação foi confirmada pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), que justificou a operação acusando as embarcações de violarem normas de navegação e manipularem sistemas de localização, colocando em risco a segurança da hidrovia.
De acordo com a agência de notícias semi-oficial Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, os navios apreendidos são o MSC Francesca, de bandeira do Panamá, e o Epaminondas, de bandeira da Libéria. Ainda segundo a IRGC, o MSC Francesca teria ligações com Israel, e o Epaminondas foi acusado de “adulterar os sistemas de navegação”. Os dados de monitoramento marítimo mostraram ambas as embarcações paradas perto da costa iraniana, a nordeste de Omã. Fontes do Ministério de Assuntos Marítimos da Grécia, no entanto, negaram a apreensão do Epaminondas, que pertence à empresa grega Technomar Shipping.
Além das duas apreensões, uma terceira embarcação, o porta-contêineres Euphoria, também de bandeira panamenha e de propriedade grega, foi alvejada e permanece inoperante na costa do Irã. A Organização de Tráfego Marítimo do Reino Unido (UKMTO) e a empresa de inteligência marítima Vanguard reportaram que os três incidentes ocorreram em um curto intervalo na manhã de quarta-feira, sugerindo uma operação coordenada. Em um dos ataques, uma lancha armada da IRGC alvejou o navio sem contato prévio por rádio, causando danos significativos à ponte de comando da embarcação. As tripulações dos três navios estão seguras, e não há relatos de feridos.
A ação militar iraniana foi uma resposta direta ao anúncio do presidente Donald Trump, que na noite de terça-feira (21) declarou, em sua rede social Truth Social, que os Estados Unidos concordaram com um pedido dos mediadores paquistaneses para “suspender nosso ataque ao país do Irã até que seus líderes e representantes possam apresentar uma proposta unificada e as discussões sejam concluídas, de uma forma ou de outra”. A extensão do cessar-fogo, que expiraria na quarta-feira, foi feita de forma unilateral e sem o estabelecimento de um novo prazo. Apesar da trégua, Trump foi enfático ao declarar que o bloqueio naval dos EUA aos portos iranianos seria mantido. “Determinei que nossas forças militares continuem o bloqueio e, em todos os outros aspectos, permaneçam prontas e capazes, e, portanto, estenderei o cessar-fogo até que sua proposta seja apresentada e as discussões sejam concluídas”, escreveu o presidente.
O governo iraniano recebeu o anúncio de Trump com ceticismo. A agência Tasnim afirmou que o Irã não havia solicitado a extensão da trégua e reiterou as ameaças de romper o bloqueio americano pela força. Um assessor do principal negociador iraniano, o presidente do parlamento Mohammad Baqer Qalibaf, classificou a decisão de Trump como uma possível “manobra para ganhar tempo”. As autoridades de Teerã condicionam qualquer negociação de paz ao levantamento completo do bloqueio naval, que consideram um ato de guerra equivalente a um bombardeio.
O impasse nas negociações é evidente. O Paquistão, atuando como mediador, havia preparado um hotel de luxo em Islamabad para sediar negociações de última hora, mas o Irã nunca confirmou sua participação, e a delegação dos EUA, que seria liderada pelo vice-presidente JD Vance, nunca deixou Washington. A extensão do cessar-fogo adiou indefinidamente a visita da comitiva americana ao Paquistão. Enquanto isso, a guerra econômica se intensifica: o Irã praticamente fechou o estreito para navios que não sejam os seus, atacando embarcações que tentam transitar sem permissão, enquanto os EUA impõem um contrabloqueio que, segundo Trump, está causando um prejuízo de US$ 500 milhões por dia ao Irã. Antes dos ataques desta quarta, os EUA já haviam disparado e apreendido um navio de carga iraniano no sábado (19) e abordado um petroleiro iraniano no Oceano Índico.
A importância estratégica do Estreito de Ormuz, por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo global e do gás natural liquefeito, torna cada episódio de tensão um evento de repercussão mundial. Os ataques e apreensões realizados pelo Irã ocorrem enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpre uma missão oficial na Espanha, Alemanha e Portugal. O roteiro do presidente brasileiro, que começou em Barcelona no dia 16 de abril, inclui encontros de alto nível, como a 1ª Cúpula Brasil-Espanha com o presidente Pedro Sánchez, e a participação na feira de inovação Hannover Messe, que neste ano homenageia o Brasil. A agenda na Europa busca consolidar parcerias, atrair investimentos e discutir temas globais como o multilateralismo, em um momento-chave às vésperas da entrada em vigor provisória do acordo Mercosul-União Europeia.
A escalada no Oriente Médio e a instabilidade no comércio global de energia devem figurar entre os temas das conversas de Lula com as lideranças europeias, que buscam alternativas para mitigar os impactos da crise energética. Enquanto isso, o mundo aguarda os próximos passos de Washington e Teerã, com a trégua mantida, mas o bloqueio naval e as hostilidades no mar perpetuando um estado de “guerra fria” no Golfo Pérsico.
Com informações de Reuters, CNN Brasil, G1, BBC News Brasil, R7, Terra, Politico, AFP (via Jiji Press), Deccan Herald, The Hindu, Khaleej Times, News On AIR, Belga News Agency, WION, New Arab, Al Jazeera, EFE, DW, Yonhap News Agency e Agência Brasil ■