Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a fazer duras críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante sua passagem pela Espanha nesta semana. Em entrevista ao jornal El País, Lula afirmou que Trump “não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país”. A declaração foi dada em meio à escalada das tensões comerciais e geopolíticas globais, com o republicano promovendo ameaças tarifárias e militares contra nações como Irã e aliados europeus.
A fala do chefe do Executivo brasileiro integra a cobertura da “Cúpula Brasil-Espanha”, realizada em Barcelona, onde Lula e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, assinaram uma série de acordos bilaterais e lideraram um encontro de líderes progressistas globais voltado ao fortalecimento da democracia e do multilateralismo.
‘Trump não é o imperador do mundo’
Em trecho da entrevista reproduzido por veículos como a BBC Brasil, a Folha de S.Paulo e a Deutsche Welle, Lula sublinhou que a Constituição americana divide os poderes de guerra e política externa entre o presidente e o Congresso, o que, em sua avaliação, torna a postura de Trump desproporcional e perigosa. “Não podemos acordar todo dia com um presidente ameaçando o mundo”, declarou. “Trump não é o imperador do mundo.”
De acordo com a reportagem do portal G1, que repercutiu a fala ao jornal alemão Der Spiegel, Lula afirmou que Trump “não foi eleito imperador do mundo” e classificou como irresponsável a conduta de ameaçar outros países com guerra o tempo todo.
A fala gerou ampla repercussão internacional. A agência de notícias Associated Press (AP) destacou que as críticas ocorrem em um momento em que Trump intensificou a pressão sobre a Espanha, ameaçando romper acordos comerciais e criticando o país por não elevar os gastos com defesa aos patamares exigidos pelos EUA na Otan. A emissora Al Jazeera também repercutiu as declarações, pontuando que Lula defende a “restauração da ordem global” sob risco de o mundo “virar um campo de batalha”.
Encontro de progressistas em Barcelona
A agenda do presidente na Espanha incluiu sua participação no encontro “Em Defesa da Democracia”, iniciativa lançada em 2024 pelo Brasil e pela Espanha para fomentar o diálogo contra forças extremistas, polarização e desinformação. O evento reuniu lideranças de diversas partes do mundo, como os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do Chile, Gabriel Boric.
Segundo o jornal The Manila Times, que cobriu o encontro, Lula fez questão de destacar que a reunião não deveria ser interpretada como um ato “anti-Trump”, mas sim como um espaço para discutir os rumos da democracia. “Não vai ser uma reunião anti-Trump”, teria dito o presidente, segundo a publicação. Ainda assim, o evento foi amplamente visto como uma tentativa de articulação de uma frente progressista em reação à avanço da extrema direita no mundo.
Já o portal norte-americano Republic World afirmou que as falas de Lula refletem a posição histórica do Brasil como defensor da cooperação Sul-Sul e crítico das abordagens hegemônicas na política global, ecoando a insatisfação de muitos países do Sul Global com as ameaças tarifárias e militares promovidas pela atual administração americana.
Multilateralismo e reforma da ONU
Além das críticas direcionadas a Trump, Lula aproveitou sua passagem pela Europa para reforçar a necessidade de uma reforma urgente nas Nações Unidas. Em entrevista ao El País, o presidente afirmou que o Conselho de Segurança da ONU se transformou em um espaço dominado pelos “senhores da guerra” e perdeu sua capacidade de mediação.
“A ONU não tem força para garantir a paz”, disse Lula, segundo a reportagem do Poder360. “Precisamos discutir uma nova governança global que reflita as realidades do século XXI, e não a geopolítica do pós-Segunda Guerra.” A fala foi endossada por Sánchez, que defendeu uma postura mais firme dos organismos internacionais diante dos conflitos atuais, como a invasão da Ucrânia e a escalada de tensões no Oriente Médio.
De acordo com a agência EFE, a reforma do sistema multilateral foi um dos pontos centrais das conversas bilaterais entre Brasil e Espanha, que resultaram na assinatura de quinze acordos de cooperação, abrangendo áreas como transição energética, inteligência artificial, ciência e tecnologia.
Reação na imprensa e no cenário internacional
A repercussão das declarações de Lula dominou manchetes na imprensa brasileira e internacional. Em editorial, o jornal O Globo destacou que o presidente brasileiro “vestiu o figurino de líder do Sul Global” e usou sua influência para tentar conter os ímpetos unilaterais de Trump. A Folha de S.Paulo ressaltou que, apesar da dureza das críticas, Lula evitou ataques pessoais e manteve a porta aberta para o diálogo, em sintonia com a tradição diplomática brasileira.
Nos Estados Unidos, a cobertura foi mais contida, mas publicações como a Fox News repercutiram as falas como mais um episódio de atrito entre os dois líderes. A CNN Internacional destacou que a visita de Lula à Espanha e seus acordos com Sánchez representam um movimento geopolítico significativo, em um momento em que Washington pressiona aliados europeus a adotarem posturas mais duras contra China e Rússia.
Na China, a agência estatal Xinhua destacou a fala do presidente brasileiro como um contraponto importante à política externa americana, enquanto o Global Times apontou que a visita de Lula à Europa demonstra a emergência de um mundo multipolar menos dependente da liderança exclusiva dos EUA.
Já no Oriente Médio, o site iraniano Topcor.ru avaliou que a Espanha se tornou um centro de consolidação de países latino-americanos contrários à política de Trump, especialmente após Madri ter se posicionado contra o ataque americano-israelense ao Irã. O veículo Brussels Reporter apontou solidariedade de Lula com a postura antibélica de Sánchez, que se recusou a ser “cúmplice de algo ruim para o mundo” ao vetar o uso de bases militares espanholas em um eventual conflito contra o Irã.
No Japão, a emissora NHK e o Japan Times repercutiram a fala de Lula de que Trump “não tem o direito de ameaçar outros países com guerra”, destacando o papel de mediação que o Brasil tenta exercer em um cenário internacional fragmentado.
Equilíbrio na relação com os EUA
Apesar da dureza nas críticas, Lula buscou sinalizar que não pretende romper com os Estados Unidos. Em entrevista à BBC, afirmou que tem “muitas preocupações no Brasil para se preocupar com a Venezuela” e que evita criar atritos desnecessários. “Não quero briga com Trump”, disse o presidente, segundo a reportagem da emissora britânica. O petista também sinalizou que aguarda uma oportunidade para conversar com o americano, mas que não aceitará ser tratado com desrespeito, em referência a episódios anteriores em que Trump teria humilhado chefes de Estado estrangeiros.
Em análise publicada pelo site Jacobin, especialistas apontaram que as provocações de Trump têm, na prática, fortalecido a unidade entre lideranças progressistas na América Latina e na Europa, abrindo espaço para uma articulação política que cruza o Atlântico. “A convergência em torno da necessidade de enfrentar as ameaças e ações de Trump cria uma oportunidade para progressistas e socialistas em todo o continente se unirem”, avalia o texto.
O presidente Lula retornou ao Brasil neste sábado (18), após cumprir agenda de três dias na Espanha. A viagem foi amplamente interpretada como um movimento do Palácio do Planalto para reposicionar o Brasil como ator central no debate sobre a ordem global, ao mesmo tempo em que fortalece laços com aliados europeus diante das incertezas impostas pela política externa do governo Trump.
Com informações de O Globo, Folha de S.Paulo, BBC Brasil, Agência Brasil, Poder360, CNN Brasil, Brasil de Fato, G1, The Daily Star, Republic World, Associated Press (AP), Reuters, Al Jazeera, The National (EAU), Iran Topcor, Brussels Reporter, Xinhua, Global Times, NHK, Japan Times, EFE, Deutsche Welle, El País, Der Spiegel, The Manila Times, Fox News, Jacobin ■