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A inflação na Argentina acelerou para 3,4% em março, o maior patamar mensal em um ano, segundo dados divulgados nesta terça-feira (14) pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). O resultado superou as expectativas do mercado, que projetava alta de 3%, e representou uma aceleração em relação aos 2,9% registrados em fevereiro.
Com o avanço do terceiro mês do ano, o índice de preços ao consumidor (IPC) acumulou alta de 9,4% no primeiro trimestre de 2026 — número já próximo da meta de 10,1% prevista pelo próprio governo no Orçamento para todo o ano. Em 12 meses, a inflação atingiu 32,6%, ligeiramente abaixo dos 33,1% de fevereiro, mas ainda em patamar elevado, apesar da forte queda em relação aos níveis de três dígitos herdados pelo governo Javier Milei.
O resultado acendeu um alerta dentro do Palácio da Casa Rosada e expôs os desafios crescentes para consolidar a desinflação em uma economia que ainda carrega décadas de inércia inflacionária. O processo de queda dos preços, que levou a taxa mensal a cair para cerca de 1,5% em meados de 2025, perdeu força desde então, e a inflação vem oscilando entre 2,9% e 3,4% nos primeiros meses de 2026.
Educação e transporte puxaram alta
A aceleração de março teve como principal motor o setor de educação, que registrou alta de 12,1% no mês, pressionado pelo início do ano letivo e pelos reajustes anuais nas mensalidades escolares. Em seguida, o grupo transporte avançou 4,1%, refletindo aumentos nos combustíveis, no transporte público e nas passagens aéreas.
Os preços regulados como um todo tiveram impacto significativo, com o grupo habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis subindo 3,7%, em meio à continuidade do processo de retirada de subsídios às tarifas públicas. Recreação e cultura (3,6%), restaurantes e hotéis (3,4%) e alimentos e bebidas não alcoólicas (3,4%) também contribuíram para o resultado. Dentro do grupo de alimentos, a carne teve papel de destaque, com altas de até 8% em algumas regiões.
Guerra no Oriente Médio e choque energético
O governo argentino atribuiu parte da aceleração a fatores externos, principalmente ao impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços globais de energia. O conflito, que se intensificou no final de fevereiro, elevou a volatilidade nos preços do petróleo e afetou diretamente os custos de combustíveis, transporte e produção no país sul-americano.
"Registrou-se um impacto significativo da guerra no Oriente Médio, em linha com os efeitos observados em outros países", escreveu o ministro da Economia, Luis Caputo, na rede social X, citando aumentos de 9% nos combustíveis, 24% nas passagens aéreas domésticas e 22% no transporte interurbano.
Reação de Milei: "dado repugnante"
O presidente Javier Milei reagiu com insatisfação ao número. "Não gostei do dado, achei repugnante", disse em evento organizado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos em Buenos Aires. Em sua conta no X, o presidente também classificou o resultado como "ruim", mas destacou que há "elementos duros" que permitem explicar o ocorrido e, principalmente, esperar que a inflação retorne à sua trajetória descendente nos próximos meses.
"A única coisa que é preciso fazer é ter paciência, não é preciso se desesperar", acrescentou Milei, que voltou a defender a continuidade do ajuste fiscal. "A motosserra não vai parar. Vamos tirar todos os pesos de circulação até que a taxa de inflação colapse e continuar abrindo a economia", afirmou.
Luis Caputo, por sua vez, demonstrou otimismo com a desaceleração a partir de abril. "A partir de abril, veremos um processo de desinflação e crescimento; os melhores meses estão por vir", disse o ministro. Em outro discurso, chegou a afirmar que "a inflação vai ter certidão de óbito".
Décimo mês seguido de aceleração
O dado de março marcou o décimo mês consecutivo em que a inflação mensal não recuou, segundo o Buenos Aires Herald, o que representa um sinal de que o processo de desinflação entrou em um platô de difícil superação. Em termos anuais, a inflação de 32,6% continua sendo uma das mais altas do mundo, apesar da queda expressiva em relação aos 211% anualizados do início do governo Milei.
Analistas apontam que a segunda etapa do combate à inflação tende a ser mais difícil que a primeira. Reduzir a inflação de níveis extremamente elevados é mais simples do que estabilizá-la em patamares baixos e sustentáveis, especialmente em um país com décadas de inércia inflacionária, onde empresas e consumidores antecipam reajustes, criando um ciclo difícil de romper.
FMI revisa projeções para cima
O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou nesta terça-feira que a Argentina moderará seu crescimento de 2025 (4,4%) e se situará em 3,5% neste ano e 4% no ano que vem, em boa parte devido à desaceleração da atividade econômica no segundo semestre de 2025. O Fundo espera que o processo de desinflação continue no país, mas de maneira "um pouco mais gradual" do que se previa. O organismo havia fixado a expectativa de inflação para este ano em 16,4% e a elevou para quase o dobro, para 30,4%.
Economistas consultados pelo banco central da Argentina em março projetam uma inflação de 29,1% ao fim de 2026, revisada para cima em três pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. A meta oficial do governo, de 10,1%, é considerada praticamente inalcançável pelo mercado.
Impactos sobre a popularidade e a indústria
O dado de inflação se soma a outros indicadores desfavoráveis para o governo argentino nas últimas semanas. A indústria registrou em fevereiro uma queda de atividade de 8,6% na comparação anual, e o trabalho informal atingiu 43% no quarto trimestre de 2025, também segundo o Indec. A valorização do peso ante o dólar (1.385 pesos por dólar na taxa oficial) favorece as importações estimuladas pela política de desregulamentação, mas a enxurrada de produtos importados, principalmente da China, ajudou a baratear preços ao mesmo tempo que teve forte impacto sobre o aparato produtivo nacional.
Pesquisas de opinião mostram impacto na popularidade do presidente. Uma pesquisa da consultoria Trespuntozero mostrou que a aprovação do governo Milei caiu de 41,5% no início de março para 37,2% no final do mês. Outro levantamento, da consultoria Zuban Córdoba, apontou que 60,7% dos entrevistados são contra a reeleição de Milei, com apenas 29,4% declarando apoio a um segundo mandato.
Perspectivas
A despeito do resultado desfavorável, a expectativa oficial e de parte do mercado é de que a inflação volte a perder força nos próximos meses, à medida que os efeitos sazonais se dissipem, o aperto fiscal continue produzindo resultados e o choque energético decorrente da guerra no Oriente Médio seja absorvido. A combinação de reajustes de preços administrados, pressões externas e recomposição de preços relativos, no entanto, tem dificultado uma desaceleração mais rápida e consistente, e o governo Milei segue sob pressão para entregar resultados concretos em um ano que antecede as eleições presidenciais.
Com informações de G1, Metrópoles, UOL, Reuters, Bloomberg, Buenos Aires Times, Buenos Aires Herald, La Nación, El Cronista, TN, AA.com.tr e IstoÉ Dinheiro ■