A associação do pré-candidato ao tarifaço de Donald Trump reacende acusações de lesa-pátria, tenta funcionar como cortina de fumaça para o rombo bilionário do Banco Master e expõe o derretimento do bolsonarista nas pesquisas de rejeição
Com a proposta de novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros anunciada pelo governo Donald Trump, as redes sociais elegeram um alvo preferencial na política nacional. O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi rapidamente apelidado de "Tariflávio", expressão que viralizou em plataformas como o X (antigo Twitter) nesta terça-feira (2 de junho de 2026). O novo rótulo, além de condenar a medida protecionista dos EUA, concentra um bombardeio de críticas que vão desde a acusação de conluio com interesses estrangeiros até a tentativa de desviar o foco de escândalos financeiros e sua deterioração nas pesquisas eleitorais.
A indignação, que rapidamente se espalhou ao lado de bordões como "O PIX é nosso" e "Bolsonaros inimigos do Brasil", tem como alvo a combinação explosiva de três fatores que têm transformado a pré-campanha do senador em um verdadeiro teste de resiliência política.
- Crime de lesa-pátria e a conspiração com Trump
O estopim foi a proposta do governo Trump de sobretaxar produtos brasileiros e mirar o sistema de pagamentos instantâneo PIX, prática considerada "irrazoável" pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). A proximidade temporal entre a reunião de Flávio com Trump, na semana passada, e o anúncio da medida fez com que a base governista e críticos nas redes passassem a associar diretamente o senador à sabotagem da soberania brasileira. O presidente Lula, em discurso, classificou o parlamentar como "traidor da pátria", ecoando sentimento semelhante ao de figuras como o ex-presidente da Embratur Marcelo Freixo, que acusou o grupo político de Flávio de atuar contra o povo brasileiro em favor de interesses estrangeiros. Enquanto Trump ironicamente elogiava o "jovem inteligente", a percepção pública se consolidava de que a visita do senador à Casa Branca, longe de proteger o Brasil, serviu como aval para a investida comercial americana.
- Cortina de fumaça e o rombo bilionário com o Banco Master em Delaware
Para muitos analistas e opositores, a defesa intransigente de Flávio em relação às tarifas americanas funciona como uma estratégia de desvio de atenção. Por trás da névoa patriótica que tenta levantar, esconde-se um dos maiores escândalos financeiros recentes, que ameaça sepultar de vez sua candidatura. A revelação pelo site The Intercept Brasil de áudios e mensagens em que Flávio negocia com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e investigado por uma das maiores fraudes da história do país, expôs uma relação nada republicana. O acordo envolvia o repasse de cerca de R$ 134 milhões para o financiamento do filme "Dark Horse", sobre a vida de Jair Bolsonaro, em uma estrutura financeira que passa pelo estado de Delaware, nos EUA. A mentira contada por Flávio pela manhã de 13 de maio, negando qualquer relação com Vorcaro, e desmentida por ele próprio no mesmo dia, consolidou a imagem de que o senador tem muito mais a explicar sobre suas conexões no exterior do que sobre o tarifaço.
- Derretimento nas pesquisas eleitorais
Se o objetivo da "cortina de fumaça" é desviar o foco das investigações, o resultado prático no campo eleitoral tem sido desastroso. O senador viu seus números derreterem após os desdobramentos do caso Banco Master. A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada em 19 de maio, apontou uma queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto de Flávio, com o petista Lula vencendo no segundo turno por 48,9% a 41,8%. O Datafolha divulgado na semana seguinte corroborou a sangria, mostrando que 64% dos eleitores consideram que o senador agiu mal ao pedir dinheiro a Vorcaro e que sua rejeição disparou, chegando a 46% contra 45% do presidente Lula. A reação imediata de sua pré-campanha foi tentar a suspensão judicial da pesquisa no TSE, alegando que o questionário induzia respostas negativas — um movimento que, para seus críticos, evidencia o desespero de uma pré-campanha que se vê à beira do colapso.
A tentativa desesperada de Flávio Bolsonaro de se descolar das tarifas enviando uma carta ao governo Trump e sua campanha para rotular os números eleitorais como "fakes" apenas escancaram a profundidade da crise política que se abate sobre sua candidatura. O apelido "Tariflávio", surgido como uma crítica pontual, consolidou-se como a síntese perfeita de um projeto de poder que parece cada vez mais comprometido com interesses estrangeiros, atolado em escândalos e irremediavelmente desconectado do sentimento soberano da população brasileira. Resta saber se o pré-candidato conseguirá encontrar, antes da eleição, um antídoto contra o veneno político que ele mesmo ajudou a produzir.
Com informações de Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Revista Fórum, Brasil 247, UOL, Intercept Brasil, G1, BBC News Brasil, Agência DW, The Economist, The Washington Post, CNN Brasil, Bloomberg Línea e Valor Internacional ■