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Em um movimento quase orquestrado, as principais vozes do bolsonarismo e do centro político reagiram com vigor à Operação Wi-Fi Livre SP, deflagrada na última segunda-feira (1º) pela Polícia Civil paulista. A ação mira um contrato milionário — que já alcançou a cifra de R$ 157 milhões — firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG de propriedade da empresária Karina Ferreira da Gama. Enquanto as investigações indicam possíveis desvios de recursos públicos, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB) adotaram o mesmo discurso: o de que a operação seria uma "perseguição política". Os fatos, contudo, sugerem uma trama que entrelaça dinheiro público, financiamento de cinebiografia e negócios privados.
Em visita ao Mercado Central de Belo Horizonte no mesmo dia da operação, Flávio Bolsonaro não poupou críticas. O senador, que enfrenta desgaste após o vazamento de mensagens em que pedia recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro — que usava tornozeleira eletrônica — para bancar o filme "Dark Horse", classificou a ação policial como "pescaria probatória" e afirmou não querer crer que esteja sendo vítima de "perseguição". "Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima, mais uma vez, de uma pescaria probatória, de uma perseguição", declarou. Em seguida, endossou a narrativa de que o contrato de Wi-Fi nada tem a ver com o longa-metragem sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro: "o que não tem absolutamente nada a ver com o filme". Em entrevista à CNN Brasil, Flávio foi além, sugerindo que "parte da polícia esteja sendo usada para fins eleitoreiros", tentando associar a investigação a uma suposta sabotagem eleitoral.
Alinhado ao discurso da família Bolsonaro, o prefeito Ricardo Nunes saiu em defesa pública da empresária Karina Gama, alvo dos mandados de busca e apreensão. Em tom elogioso, Nunes referiu-se a ela como uma "pessoa decente", "mulher trabalhadora" e "batalhadora". Segundo o prefeito, a empresária "conhece o Bolsonaro, né? Então está passando por isso", insinuando que a investigação teria motivação política. "Se a motivação, conforme vocês estão me dizendo, é por conta do filme, aí é grave. Aí é perseguição política", declarou. Ao rebater as suspeitas de que os R$ 26 milhões pagos antecipadamente à ONG — sem a devida prestação de serviços — teriam abastecido o filme, Nunes argumentou que o contrato é de junho de 2024, enquanto a produção do longa só foi comunicada em outubro de 2025, ignorando a possibilidade de remanejamento contábil ou de antecipação de recursos para cobrir despesas.
A reação das autoridades contrasta, no entanto, com a opinião de técnicos e especialistas. Dados levantados pela própria investigação mostram que o Instituto Conhecer Brasil não possui qualquer histórico no setor de telecomunicações, limitando sua atuação a feiras de livros e eventos de natureza religiosa. Ainda assim, foi contratado por R$ 108 milhões para instalar 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito na periferia de São Paulo — contrato que, com aditivos, já ultrapassa os R$ 157 milhões. Apenas 3.200 pontos teriam sido instalados, e a polícia aponta que o município teria pago valores até 230% acima do preço de mercado. Em contrapartida, a estatal Prodam, com capacidade técnica comprovada, oferecia o serviço por um valor muito inferior.
O aprofundamento das investigações revela ainda o nó que conecta Karina Gama a figuras-chave do bolsonarismo. A empresária, que já foi promotora de literatura cristã, teve sua ascensão profissional e financeira após conhecer o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo do filme "Dark Horse". De acordo com a prestação de contas do parlamentar na Justiça Eleitoral, a empresa Go7, ligada a Karina, recebeu R$ 54 mil para tocar a campanha de Frias a deputado federal em 2022. Além disso, a amizade e a afinidade ideológica entre os dois abriram portas: o deputado destinou à ONG de Karina pelo menos R$ 2,5 milhões em emendas parlamentares para projetos sociais no interior de São Paulo.
As suspeitas, no entanto, não param por aí. Em 2024, Mario Frias direcionou uma emenda de R$ 1 milhão ao Instituto Conhecer Brasil sob a justificativa de fomentar o empreendedorismo jovem em Pirassununga. Contudo, a apuração do jornal O Estado de S.Paulo e do Diário do Centro do Mundo revelou indícios de que parte desse montante pode ter sido desviada. De acordo com documentos, a ONG teria contratado uma editora por R$ 400 mil para fornecer kits de livros didáticos que, segundo o responsável técnico do projeto, nunca chegaram à cidade. Parte da verba também foi destinada ao pagamento de um advogado que já representou Frias em ao menos nove processos judiciais, incluindo oito na Justiça Eleitoral.
Diante de tais evidências, a sucessão de declarações que classificam a investigação como "perseguição" soa menos como um argumento jurídico e mais como uma estratégia de desgaste da credibilidade das instituições. O episódio evidencia a perigosa promiscuidade entre o poder público municipal, as emendas parlamentares federais e os interesses privados da família Bolsonaro e seus aliados. Se o dinheiro público corre o risco de financiar um filme que enaltece uma figura política, o mínimo que se espera é uma apuração rigorosa e independente — e não uma coroação antecipada da inocência com base em relações partidárias.
Com informações de G1, CNN Brasil, UOL, Folha de S.Paulo, Revista Fórum, Diário do Centro do Mundo, BBC News Brasil, Estadão, Veja ■