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Bastou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgar, em suas redes sociais, a foto de seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca, para que a imagem se transformasse imediatamente em combustível político. A fotografia, que mostra o pré-candidato à Presidência em pé ao lado do republicano sentado à escrivaninha, foi acompanhada de um texto econômico e sem maiores detalhes — como uma espécie de “souvenir” oficial da viagem. A assessoria do senador tratou o clique como prova de “prestígio internacional” em meio à crise causada pela revelação de que ele havia pedido R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro (dono do Banco Master) para financiar um filme sobre a trajetória do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Curiosamente, a mesma foto — que mostra Flávio e Eduardo Bolsonaro ao fundo — passou a ser vendida na White House Gift Shop, a loja de souvenires oficial da sede do governo americano. O produto, uma caneca estampada com a imagem, foi batizado pelos usuários de redes sociais como o novo “souvenir da família Bolsonaro”. A ironia não escapou aos críticos: um político brasileiro que tenta se eleger com discurso de defesa da soberania nacional transforma seu encontro com um líder estrangeiro em mera mercadoria turística. A percepção de “encontro de fã com ídolo” foi destacada pelo colunista Octavio Guedes, da GloboNews, que afirmou: “Flávio Bolsonaro não viajou para se encontrar com Trump, e sim para sair do Brasil, fugindo de perguntas sobre o escândalo do Banco Master”.
Enquanto a foto do senador viralizava, no entanto, a mesma imagem começou a circular em versões adulteradas. Uma montagem criada por inteligência artificial, na qual Flávio e Eduardo aparecem sentados ao lado de Trump em uma posição que nunca ocorreu — com o senador vestindo gravata azul, e não a verde e amarela dos registros oficiais —, foi compartilhada como se fosse verdadeira. O G1 Fato ou Fake e a Reuters verificaram o conteúdo e concluíram, com 99% de probabilidade, que a cena havia sido fabricada com IA. A ferramenta SynthID, do Google, detectou nível de confiança “muito alto” de que a imagem foi gerada por modelos de inteligência artificial da empresa. Flávio e Eduardo, entretanto, nunca usaram esse material em seus perfis oficiais; a mentira correu solta por meio de contas anônimas, mas o estrago político já estava feito: ainda que falsa, a imagem alimentou a narrativa de que a visita teria sido algo maior do que realmente foi.
O que poderia ter sido um episódio menor ganhou contornos muito mais sérios quando, no dia 2 de junho, o próprio Donald Trump publicou em sua rede social, a Truth Social, uma foto do encontro com a seguinte legenda: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!”. A mensagem foi postada exatamente no mesmo dia em que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de práticas restritivas ao comércio americano. Horas antes, o presidente Lula havia responsabilizado a família Bolsonaro pela medida, relacionando?a à visita de Flávio à Casa Branca uma semana antes. O timing da postagem de Trump — que elevou a foto de Flávio a um selo de endosso presidencial — é tido por especialistas como uma interferência diplomática sem precedentes. O professor Vinicius Rodrigues Vieira, da FGV, afirmou à BBC News Brasil: “Trump mostra uma clara preferência pelo pré-candidato e isso é uma ‘red flag’ enorme para o processo eleitoral brasileiro”.
O contraste entre a foto produzida pelo próprio Flávio (o “souvenir” da White House Gift Shop) e a publicação de Trump é revelador. Enquanto o senador tratou o registro como lembrança de bastidores — um mero apoio de imagem para abafar o escândalo Vorcaro —, o presidente americano converteu a mesma imagem em um ato político de alto impacto, justamente no momento em que prejudicava a economia brasileira com novas tarifas. A diferença de tratamento evidencia a fragilidade da estratégia bolsonarista: Flávio obteve uma “photo op” para consumo interno, mas Trump usou esse mesmo clique para dar um recado geopolítico, escancarando quem lhe é mais conveniente na disputa eleitoral brasileira.
Mais grave do que a controvérsia fotográfica, contudo, são as investigações sobre o uso de dinheiro público por meio da família Bolsonaro em território americano. Enquanto Flávio posava para fotos, seu irmão, o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), protagonizava um enredo paralelo — e bem mais obscuro. Vivendo nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, onde pediu licença do mandato alegando perseguição do ministro do STF Alexandre de Moraes, Eduardo é alvo de um inquérito da Polícia Federal que suspeita que recursos do filme “Dark Horse” — a cinebiografia do pai — tenham sido usados, na verdade, para bancar suas despesas pessoais no exterior.
De acordo com as apurações, os R$ 61 milhões pagos por Daniel Vorcaro a pedido do senador Flávio foram transferidos para um fundo sediado no Texas, o Havengate Development Fund, controlado por aliados de Eduardo. O advogado Paulo Calixto, que representa Eduardo nos EUA, é o administrador do fundo. Ao mesmo tempo, um outro fundo ligado a Calixto — o Mercury Legacy Trust — comprou em fevereiro de 2026 uma casa no valor de R$ 3,6 milhões em Arlington, Texas, mesmo estado onde Eduardo reside. O imóvel foi adquirido em nome do ex-secretário de Cultura André Porciúncula, que declarou à Justiça Eleitoral ter apenas R$ 164 mil em bens.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou no dia 2 de junho que há necessidade de instaurar um novo inquérito para apurar o destino dos recursos. Uma das linhas de investigação é justamente a de que parte do dinheiro tenha custeado a vida de Eduardo nos EUA. Questionado, Eduardo rebateu: “A história de que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca. Meu status migratório não permitiria, se isso tivesse ocorrido, as próprias autoridades americanas me teriam punido”. Em sua defesa, ele argumentou que o filme foi produzido nos EUA, com elenco e estrutura americanos, e que nenhum investidor colocaria dinheiro no Brasil para uma obra sobre Jair Bolsonaro por medo de “perseguição do regime”.
A ironia é flagrante: o mesmo político que passou anos acusando adversários de “entregar o patrimônio nacional a interesses estrangeiros” mantém, nos dias de hoje, milhões de reais em fundos de investimento nos Estados Unidos — país que, ao mesmo tempo, aplica tarifas punitivas contra o Brasil. E mais: esses recursos, segundo a PF, podem ter origem em dinheiro público (ou dela derivado) e estariam sendo geridos por um advogado de imigração que também comprou imóveis de alto padrão para aliados da família. A contradição entre o discurso nacionalista radical e a prática financeira internacional expõe a fratura moral do projeto político que Flávio representa.
O impacto eleitoral do caso já começa a aparecer. Pesquisa Datafolha divulgada em 22 de maio mostrou que, após a revelação dos áudios com Vorcaro, Flávio recuou de 35% para 31% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto o presidente Lula oscilou de 38% para 40%. A tentativa de reverter a queda com uma foto ao lado de Trump, por enquanto, não se mostrou eficaz. Como escreveu o colunista Octavio Guedes: “A fotografia é o que menos importa para a pré-campanha. O silêncio do senador importa muito mais”. O silêncio, no entanto, já não é mais possível. Entre o “souvenir” da Casa Branca e os milhões investidos em fundos americanos, a família Bolsonaro terá de explicar ao país, nas próximas semanas, onde termina a defesa da pátria e começa a defesa do próprio patrimônio.
Com informações de G1, BBC News Brasil, O Globo, Folha de S.Paulo, Reuters, UOL, The Intercept Brasil, GloboNews e Agência Lupa ■