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Flávio Bolsonaro pede aos EUA que poupem Brasil de novo tarifaço
Senador e pré-candidato do PL enviou carta a Marco Rubio após proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros; governo Trump mantém pressão sobre o país e aliados associam medida a encontro na Casa Branca
Politica
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■   Bernardo Cahue, 02/06/2026

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, enviou nesta terça-feira (2) uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, pedindo que o governo de Donald Trump não imponha tarifas de importação aos produtos brasileiros. O movimento ocorre em meio ao anúncio do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias do Brasil ao final de uma investigação comercial aberta em julho de 2025.

A correspondência endereçada a Rubio busca “reiterar, formalmente, o pedido que eu fiz a você presencialmente: que os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil”, conforme trecho do ofício divulgado pela assessoria. Na carta, Flávio argumenta que o Brasil atravessa um “período de grave deterioração fiscal e econômica” e que novas taxas causariam “sérios prejuízos para a população brasileira”. O senador também se coloca como futuro chefe do Executivo ao afirmar estar “preparado para colocar a minha equipe de transição imediatamente à sua disposição” para um acordo comercial “benéfico” aos dois países. Apesar de tentar se apresentar como construtor de pontes, Flávio é o mesmo que, na semana passada, esteve em Washington ao lado de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo para uma reunião com Trump no Salão Oval — encontro que agora rende questionamentos sobre seu real papel nos bastidores da decisão americana.

A iniciativa de Flávio, no entanto, contrasta com o discurso adotado logo após sua viagem a Washington. Na ocasião, o senador se vangloriou de ter conseguido que os Estados Unidos classificassem as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas — medida amplamente criticada pelo governo brasileiro, que alertou para possíveis prejuízos econômicos e risco de intervenção estrangeira. Agora, diante do novo tarifaço proposto pelo governo Trump, Flávio busca se desvencilhar da associação entre sua visita à Casa Branca e a medida protecionista. O senador afirmou em entrevista à Rádio Itatiaia que pediu “expressamente” a Trump, ao vice-presidente J.D. Vance e ao secretário Marco Rubio que não taxassem as empresas brasileiras. “Nas três reuniões que nós tivemos [...] eu pedi expressamente: não taxem as empresas brasileiras”, declarou. Horas depois, o próprio Trump publicou uma foto do encontro com os irmãos Bolsonaro e Paulo Figueiredo no Salão Oval, o que, nos bastidores, bolsonaristas avaliam como um “timing” pouco oportuno.

Nos bastidores da política nacional, a avaliação predominante entre analistas é que Flávio Bolsonaro sai como o grande perdedor das novas ameaças comerciais de Trump. A conclusão de que o senador será o principal prejudicado é compartilhada por cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil. Para a professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, o episódio devolve ao presidente Lula a “força da narrativa da soberania” e o discurso de enfrentamento a uma potência estrangeira, o que tende a fortalecê-lo na reta final da campanha. Já Flávio, depois de uma semana em que tentou demonstrar sua influência sobre a Casa Branca, vê sua imagem atrelada a uma medida que prejudica o setor produtivo nacional.

O governo dos Estados Unidos concluiu que certas práticas do governo brasileiro — entre elas o sistema Pix — são “irrazoáveis” e “oneram ou restringem o comércio dos EUA”. Em resposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou tom eleitoral duro. Em discurso em Catalão (GO), Lula chamou Flávio Bolsonaro de “imbecil” e afirmou que a família do ex-presidente age como “vendedores da pátria”. “Ele foi pedir arrego. ‘Trump, dá uma porrada no Lula, taxa o Lula, porque o Lula vai ganhar as eleições’. Imbecil. Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar é o povo brasileiro”, disparou o petista. O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, também responsabilizou Flávio pelo novo tarifaço: “A família Bolsonaro age contra o Brasil para atender interesses pessoais. Até onde são capazes de agir contra o Brasil para atender seus próprios interesses?”, questionou. Valadares acrescentou que o partido fará um trabalho de esclarecimento contra o “ataque à economia e empregos”.

Nos bastidores legislativos, a insatisfação com a atuação do senador também ganhou contornos formais. O deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) protocolou uma representação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a investigação de Flávio Bolsonaro por suposta influência na decisão comercial dos Estados Unidos. O parlamentar argumenta que há indícios de que o senador teria atuado para estimular as sanções contra o próprio país, o que configuraria crime contra a soberania nacional. O pedido ainda aguarda análise da corte.

Os movimentos de Flávio para se desassociar do novo tarifaço ocorrem em meio a uma pré-campanha já abalada por outras polêmicas. Ainda na avaliação dos analistas, o episódio também pode beneficiar candidatos alternativos da direita, como Ronaldo Caiado (PSD), que estaria melhor posicionado para capitalizar o enfraquecimento do herdeiro político de Jair Bolsonaro. A ofensiva governista ganhou ainda mais força com a tentativa do PT de emplacar nas redes sociais o rótulo de “Tariflávio” para associar o senador à taxação. Em paralelo, o próprio governo Lula mantém negociações com os americanos e enxerga chances reais de evitar a imposição das taxas, enquanto tenta extrair ao máximo o desgaste do pré-candidato do PL.

Contradições e um pedido que expõe a fragilidade da articulação

Ao afirmar ter pedido que os EUA “poupem o Brasil”, Flávio Bolsonaro expõe as fragilidades de sua própria articulação internacional. A sua ida a Washington, que deveria consolidar sua imagem de estadista, acabou por escancarar a falta de capitais políticos para influenciar o aliado republicano — que, ao menos publicamente, não apenas ignorou o pedido como intensificou a pressão comercial sobre o país. Mais grave, contudo, é a tentativa do senador de transferir a responsabilidade para o adversário, ao afirmar que “essa tarifa é do Lula, pelo seu tom agressivo com os Estados Unidos”. A declaração não apenas contradiz seu próprio discurso de “proximidade” com o governo americano, como revela uma curiosa inversão de papéis: em plena campanha eleitoral, um candidato à Presidência prefere corroborar uma sanção externa contra o próprio país a admitir o insucesso de sua missão pessoal. Em meio à sucessão de recuos e acusações, fica a impressão de que, para Flávio, o preço da tentativa de se aproximar de Trump pode estar sendo cobrado justamente nas vésperas da eleição — e em reais, não em dólares.

Com informações de Folha de S.Paulo, O Globo, Valor Econômico, BBC News Brasil, CNN Brasil, Revista Veja, CartaCapital, Metrópoles, Folha PE ■

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