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Post de Trump ao lado de Flávio Bolsonaro, no mesmo dia do novo tarifaço, acirra tensão diplomática
O republicano publicou imagem no Salão Oval e chamou o senador de "jovem inteligente", horas após o Escritório do Representante Comercial dos EUA recomendar sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. Enquanto Flávio alega ter pedido para evitar a taxação, o governo Lula responsabiliza a família Bolsonaro pela escalada protecionista
Politica
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ6mJ4tukkhwKVHOXekpL3rigb1QkzKBJgvSQ&s
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■   Bernardo Cahue, 02/06/2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou suas redes sociais na tarde desta terça-feira (2) para publicar uma foto ao lado do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), registrada durante um encontro no Salão Oval da Casa Branca no último dia 26 de maio. A postagem, regada a elogios, ocorreu poucas horas após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) divulgar um relatório que recomenda a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, aprofundando a guerra comercial iniciada pelo republicano.

Na publicação feita na plataforma Truth Social, Trump escreveu: "Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!". Além do senador, a imagem também mostra o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família que já atuou na articulação de sanções anteriores contra o Brasil.

O contexto do tarifaço

A recomendação de nova taxação foi feita com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, legislação que permite ao governo americano responder ao que considera "práticas desleais, irrazoáveis ou discriminatórias" de parceiros comerciais. No documento, o USTR lista uma série de queixas contra o Brasil, que vão desde questões de propriedade intelectual e acesso ao mercado de etanol até críticas ao sistema de pagamentos instantâneos Pix, ao desmatamento ilegal e à aplicação da lei anticorrupção.

Vale lembrar que a investida protecionista não é uma novidade no governo Trump. Em julho de 2025, os EUA chegaram a impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, em parte como retaliação à condução de processos judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Contudo, aquelas taxas foram posteriormente derrubadas pela Suprema Corte americana em fevereiro de 2026, restando apenas uma tarifa global de 10% sobre as exportações para os EUA. A nova proposta de 25%, que ainda passará por um período de consulta pública com audiência prevista para 6 de julho, tenta contornar as barreiras judiciais ao se basear em fundamentos comerciais e não mais em emergências econômicas.

O discurso contraditório de Flávio Bolsonaro

Ao mesmo tempo em que Trump exaltava Flávio nas redes, o senador concedia entrevista à Rádio Itatiaia na qual afirmou ter pedido "expressamente" ao presidente americano, ao vice J.D. Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio que não taxassem as empresas brasileiras. "Nas três reuniões que nós tivemos, eu pedi expressamente: não taxem as empresas brasileiras", declarou Flávio, acrescentando que, a partir de 2027, os EUA teriam um governo disposto a negociar "de igual para igual", deixando implícita uma crítica à atual administração de Luiz Inácio Lula da Silva.

O senador ainda aproveitou a oportunidade para defender a recente classificação das facções PCC e CV como organizações terroristas pelo governo americano — uma das principais pautas levadas por ele a Washington. A fala contradiz o discurso de independência diplomática e revela um alinhamento subserviente à agenda de Trump, que, ao mesmo tempo em que tece elogios públicos ao aliado brasileiro, aprofunda medidas que prejudicam diretamente a economia nacional.

Reações do governo Lula e repercussão política

A sobreposição dos eventos — o anúncio da taxação e a postagem amistosa — não passou despercebida pelo governo brasileiro. Durante agenda em Salvador, o presidente Lula responsabilizou a família Bolsonaro pela investida comercial, relacionando-a diretamente à visita de Flávio à Casa Branca. Em tom duro, o petista chamou o senador de "imbecil" e "traidor da pátria". Integrantes do PT passaram a circular nas redes sociais o termo "Tariflávio" para associar a taxação à oposição, enquanto o governo estuda acionar a Lei da Reciprocidade como resposta.

Especialistas em relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o gesto de Trump de receber um pré-candidato estrangeiro no Salão Oval — algo pouco usual — tem forte simbolismo ideológico. Embora tenha efeito limitado sobre o eleitorado de centro, o encontro é interpretado como uma sinalização política da Casa Branca em favor de um candidato alinhado ao trumpismo, acendendo um alerta sobre a possível influência americana no pleito brasileiro.

Análise crítica e inconsistências

A cronologia dos fatos expõe uma situação no mínimo contraditória. Enquanto o governo Trump, por meio do USTR, acusa o Brasil de práticas comerciais desleais e prepara uma nova rodada de sanções, Trump pessoalmente utiliza seu palanque virtual para enaltecer um político brasileiro que se apresenta como interlocutor privilegiado da atual administração americana. Longe de ser um gesto de amizade, a postagem parece combinar interesses eleitorais: para Flávio, a foto com Trump serve como trunfo para sua pré-campanha; para Trump, a imagem ao lado de um líder da oposição brasileira ajuda a desgastar o governo Lula e pavimenta o caminho para um futuro aliado no Planalto.

Além disso, levanta-se uma questão ética sobre o uso de um encontro político para, em tese, tratar de assuntos de Estado. Se Flávio Bolsonaro, na condição de senador e pré-candidato, tinha legitimidade para buscar a classificação de facções criminosas como terroristas, não tinha, por outro lado, autoridade para discutir a política tarifária dos EUA, um tema que compete exclusivamente ao governo federal. Sua promessa de negociar "de igual para igual" apenas a partir de 2027, caso seja eleito, soa como uma admissão de impotência no presente, sugerindo que suas tratativas em Washington foram inócuas ou, pior, que ele aceitou passivamente o tarifaço em troca de apoio geopolítico.

Consequências para o comércio bilateral

O novo tarifaço ameaça atingir setores estratégicos da economia brasileira. Embora o USTR tenha incluído uma extensa lista de exceções — que protege produtos como café, carne bovina, algumas frutas e partes de aeronaves — a taxação geral de 25% sobre itens não-excepcionados representa um duro golpe para as exportações brasileiras, que somaram mais de US$ 40 bilhões em 2025. O período de consultas públicas se encerra em 1º de julho, com audiência marcada para o dia 6. A decisão final, contudo, caberá a Trump, que pode usar o instrumento como mais uma moeda de barganha em suas negociações globais.

Diante desse cenário, o governo brasileiro se vê diante de um dilema: retaliar com a Lei da Reciprocidade e arriscar uma escalada ainda maior, ou adotar uma postura de cautela na expectativa de uma reversão da medida na Justiça americana, como ocorreu anteriormente. Enquanto isso, a cena de Trump e Flávio sorrindo no Salão Oval, no mesmo dia em que o comércio brasileiro era alvejado, ficará como um símbolo das contradições e dos riscos da subserviência ideológica nas relações internacionais.

Principais pontos da cobertura:

  • Trump publicou foto com Flávio Bolsonaro horas após USTR propor tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, baseado na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
  • Senador afirmou ter pedido "expressamente" a Trump, Vance e Rubio que não taxassem empresas brasileiras, mas defendeu classificação de PCC e CV como terroristas.
  • Lula responsabilizou a família Bolsonaro pela taxação, chamou Flávio de "imbecil" e "traidor da pátria", enquanto governo estuda reciprocidade.
  • Especialistas apontam encontro como raro gesto político de Trump para influenciar eleição brasileira, mas com efeito limitado sobre eleitorado de centro.
  • Proposta tarifária passará por consulta pública até julho, com decisão final a cargo de Trump.

Impactos esperados da taxação de 25%:

  • Setores mais afetados: produtos industrializados, tecnologia e itens não contemplados na lista de exceções.
  • Produtos protegidos: café, carne bovina, algumas frutas e partes de aeronaves.
  • Exportações brasileiras para os EUA em 2025 superaram US$ 40 bilhões.

Reações e desdobramentos:

  • Governo Lula: Estuda ativar Lei da Reciprocidade e busca alternativa na Justiça americana.
  • Oposição: Tenta se desassociar das tarifas, atribuindo culpa a Lula.
  • Próximos passos: Consulta pública até 1º de julho e audiência em 6 de julho; decisão final de Trump.

Com informações de G1, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, CartaCapital, CBN, BBC News Brasil, Rádio Itatiaia, Jornal de Brasília, SBT News, R7, O Globo, The Brazilian Report, CNBC ■

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