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Irã diz que negociação ficará 'sem sentido' se Israel seguir com ataques ao Líbano
Ofensiva israelense em território libanês provoca reação dura de Teerã, que ameaça abandonar negociações de paz mediadas pelo Paquistão; comunidade internacional se divide e risco de alastramento da guerra cresce
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 09/04/2026

O governo do Irã declarou, nesta quinta-feira (9), que a continuação dos ataques de Israel contra o Líbano tornará “sem sentido” as negociações de paz com os Estados Unidos, marcadas para começar no sábado (11) em Islamabad, no Paquistão. O alerta foi feito pelo presidente Masoud Pezeshkian e pelo porta-voz das negociações iranianas, o presidente do Parlamento Mohammed Bager Qalibaf, horas depois de Israel ter realizado o que é considerado o seu ataque “mais mortal” da guerra contra o território libanês.

A ofensiva israelense, que durou apenas 10 minutos, consistiu no disparo de 160 mísseis contra aproximadamente 100 alvos do grupo Hezbollah em todo o Líbano. As Forças de Defesa de Israel (FDI) confirmaram que atingiram áreas densamente povoadas, alegando que membros do Hezbollah estavam escondidos entre civis, e afirmaram ter emitido ordens de evacuação para as regiões alvejadas. O ataque ocorreu no meio do dia, e relatos indicam que algumas investidas ocorreram sem os avisos habituais para evacuação da população.

De acordo com o serviço de defesa civil do Líbano, o saldo parcial do ataque é de 254 mortos e 890 feridos, sendo que apenas na capital, Beirute, foram registrados 182 óbitos. O governo libanês declarou luto oficial e acusou Israel de atingir deliberadamente áreas residenciais, pedindo à população que libere as ruas da capital para a passagem de ambulâncias. O premiê libanês, Nawaf Salam, classificou o episódio como um massacre e afirmou que mobilizará todos os recursos políticos e diplomáticos do país para impedir o que chamou de “máquina de matar israelense”.

Para o Irã, a ofensiva representa uma “violação flagrante” do cessar-fogo de duas semanas acertado na terça-feira (7) entre Teerã e Washington. Em comunicado, o presidente Masoud Pezeshkian afirmou que “as repetidas agressões da entidade sionista contra o Líbano são uma violação flagrante do acordo inicial de cessar-fogo e um sinal perigoso de engano e falta de compromisso com um possível acordo de paz”. Pezeshkian também declarou que “nossos dedos permanecem no gatilho” e que o Irã “nunca abandonará seus irmãos e irmãs libaneses”.

O porta-voz das negociações iranianas, Mohammed Bager Qalibaf, foi ainda mais incisivo: “Em tal situação, um cessar-fogo bilateral ou negociações seriam irracionais”, escreveu em suas redes sociais. Segundo Qalibaf, Israel já teria violado várias condições do cessar-fogo ao intensificar sua guerra paralela contra o Hezbollah, enquanto os Estados Unidos teriam descumprido o acordo ao insistir que o Irã abandone suas ambições nucleares.

O ponto central da discórdia entre as partes é a abrangência geográfica do cessar-fogo. Israel e Estados Unidos sustentam que o acordo de trégua não se aplica ao Líbano, onde as FDI seguem em guerra contra o Hezbollah, movimento xiita apoiado por Teerã. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi enfático: “Israel tem o dedo no gatilho e está preparado para retomar o combate a qualquer momento”. O premiê também afirmou que a frente de conflito no Líbano não está coberta pelo acordo e que os ataques continuarão até que os objetivos militares sejam alcançados.

Por outro lado, o Paquistão, que atuou como mediador do cessar-fogo, garantiu que a trégua incluía todas as frentes de conflito, incluindo o Líbano. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, declarou publicamente que “o Irã e os Estados Unidos, juntamente com seus aliados, concordaram com um cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e outros países”. A contradição entre as versões expõe a fragilidade do entendimento alcançado às pressas.

A reação internacional ao ataque e à escalada das tensões foi imediata e diversificada.

  • China: O governo chinês condenou os ataques israelenses contra o Líbano e manifestou preocupação com o risco de alastramento do conflito. Pequim teve papel crucial nas negociações que levaram ao cessar-fogo, convencendo Teerã a aceitar a trégua.
  • Rússia: O Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a ofensiva israelense como uma tentativa de sabotar o processo de paz e pediu o retorno imediato aos esforços políticos e diplomáticos para resolver a crise. Moscou ofereceu seus bons ofícios para mediar o conflito, mas a oferta não foi aceita pelas partes envolvidas.
  • França: O governo francês pediu uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU para discutir a escalada da violência no Líbano e na região. A França também condenou os ataques israelenses e pediu a suspensão imediata das hostilidades.
  • Reino Unido: O governo britânico, embora tenha se abstido de participar diretamente dos ataques, enfrenta pressão internacional após permitir que suas bases militares no Chipre fossem usadas como apoio logístico para as operações israelenses. O premiê Keir Starmer descartou qualquer envolvimento direto do Reino Unido no conflito, mas a situação gerou atritos diplomáticos com Teerã.
  • Alemanha: O chanceler alemão, Friedrich Merz, reiterou que a guerra no Oriente Médio “não é um assunto da Otan” e que a Alemanha não participará dos ataques contra o Irã, embora tenha demonstrado compreensão pelas motivações israelenses.
  • Japão: O governo japonês condenou os ataques e pediu moderação a todas as partes, ao mesmo tempo em que adotou medidas preventivas para garantir a segurança de seus cidadãos na região. O premiê Sanae Takaichi instou o Irã a buscar canais diplomáticos para resolver a crise.

O impacto econômico da crise já é sentido globalmente. Os preços do petróleo despencaram 14% após o anúncio do cessar-fogo, cotado a cerca de US$ 95 por barril, após ter atingido US$ 90,40. No entanto, a commodity ainda permanece US$ 25 acima do valor anterior ao início da guerra, em 28 de fevereiro. O fechamento do Estreito de Ormuz, determinado pelo Irã em retaliação aos ataques israelenses, continua a ameaçar o fluxo global de energia, já que por ali passa cerca de um quinto da produção mundial de petróleo e gás. O governo iraniano já anunciou que condiciona a reabertura do estreito ao fim definitivo das ações militares americanas e israelenses na região.

Enquanto isso, as consequências humanitárias no Líbano se agravam. As equipes de resgate continuam trabalhando nos escombros de prédios residenciais destruídos, e o sistema de saúde libanês, já fragilizado, enfrenta dificuldades para atender o grande número de feridos. O Ministério da Saúde libanês informou que mais de 1.165 pessoas ficaram feridas no ataque de quarta-feira, e há receio de que o número de mortos possa aumentar à medida que os corpos são retirados dos escombros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) manifestou preocupação com a capacidade de resposta dos hospitais libaneses, que já operam no limite de sua capacidade.

As negociações de paz entre Irã e Estados Unidos estão previstas para começar no sábado (11) em Islamabad, sob mediação do Paquistão. O vice-presidente americano, JD Vance, liderará a delegação dos EUA, enquanto o Irã será representado por Mohammed Bager Qalibaf. No entanto, diante da escalada das tensões e das declarações das autoridades iranianas, a realização do encontro está ameaçada. O premiê paquistanês, Shehbaz Sharif, já pediu que todas as partes envolvidas demonstrem “contenção” e respeitem o espírito do processo de paz, mas a desconfiança entre os lados parece ser o principal obstáculo para qualquer avanço diplomático.

Com informações de G1, BBC, Reuters, Associated Press (AP), Agence France-Presse (AFP), Al Jazeera, Al Arabiya, RTÉ, Taiwan News, RFI, SIC Notícias, CartaCapital, R7, Folha de S.Paulo, DW, Xinhua e RIA Novosti ■

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