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O governo do Irã declarou, nesta quinta-feira (9), que a continuação dos ataques de Israel contra o Líbano tornará “sem sentido” as negociações de paz com os Estados Unidos, marcadas para começar no sábado (11) em Islamabad, no Paquistão. O alerta foi feito pelo presidente Masoud Pezeshkian e pelo porta-voz das negociações iranianas, o presidente do Parlamento Mohammed Bager Qalibaf, horas depois de Israel ter realizado o que é considerado o seu ataque “mais mortal” da guerra contra o território libanês.
A ofensiva israelense, que durou apenas 10 minutos, consistiu no disparo de 160 mísseis contra aproximadamente 100 alvos do grupo Hezbollah em todo o Líbano. As Forças de Defesa de Israel (FDI) confirmaram que atingiram áreas densamente povoadas, alegando que membros do Hezbollah estavam escondidos entre civis, e afirmaram ter emitido ordens de evacuação para as regiões alvejadas. O ataque ocorreu no meio do dia, e relatos indicam que algumas investidas ocorreram sem os avisos habituais para evacuação da população.
De acordo com o serviço de defesa civil do Líbano, o saldo parcial do ataque é de 254 mortos e 890 feridos, sendo que apenas na capital, Beirute, foram registrados 182 óbitos. O governo libanês declarou luto oficial e acusou Israel de atingir deliberadamente áreas residenciais, pedindo à população que libere as ruas da capital para a passagem de ambulâncias. O premiê libanês, Nawaf Salam, classificou o episódio como um massacre e afirmou que mobilizará todos os recursos políticos e diplomáticos do país para impedir o que chamou de “máquina de matar israelense”.
Para o Irã, a ofensiva representa uma “violação flagrante” do cessar-fogo de duas semanas acertado na terça-feira (7) entre Teerã e Washington. Em comunicado, o presidente Masoud Pezeshkian afirmou que “as repetidas agressões da entidade sionista contra o Líbano são uma violação flagrante do acordo inicial de cessar-fogo e um sinal perigoso de engano e falta de compromisso com um possível acordo de paz”. Pezeshkian também declarou que “nossos dedos permanecem no gatilho” e que o Irã “nunca abandonará seus irmãos e irmãs libaneses”.
O porta-voz das negociações iranianas, Mohammed Bager Qalibaf, foi ainda mais incisivo: “Em tal situação, um cessar-fogo bilateral ou negociações seriam irracionais”, escreveu em suas redes sociais. Segundo Qalibaf, Israel já teria violado várias condições do cessar-fogo ao intensificar sua guerra paralela contra o Hezbollah, enquanto os Estados Unidos teriam descumprido o acordo ao insistir que o Irã abandone suas ambições nucleares.
O ponto central da discórdia entre as partes é a abrangência geográfica do cessar-fogo. Israel e Estados Unidos sustentam que o acordo de trégua não se aplica ao Líbano, onde as FDI seguem em guerra contra o Hezbollah, movimento xiita apoiado por Teerã. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi enfático: “Israel tem o dedo no gatilho e está preparado para retomar o combate a qualquer momento”. O premiê também afirmou que a frente de conflito no Líbano não está coberta pelo acordo e que os ataques continuarão até que os objetivos militares sejam alcançados.
Por outro lado, o Paquistão, que atuou como mediador do cessar-fogo, garantiu que a trégua incluía todas as frentes de conflito, incluindo o Líbano. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, declarou publicamente que “o Irã e os Estados Unidos, juntamente com seus aliados, concordaram com um cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e outros países”. A contradição entre as versões expõe a fragilidade do entendimento alcançado às pressas.
A reação internacional ao ataque e à escalada das tensões foi imediata e diversificada.
O impacto econômico da crise já é sentido globalmente. Os preços do petróleo despencaram 14% após o anúncio do cessar-fogo, cotado a cerca de US$ 95 por barril, após ter atingido US$ 90,40. No entanto, a commodity ainda permanece US$ 25 acima do valor anterior ao início da guerra, em 28 de fevereiro. O fechamento do Estreito de Ormuz, determinado pelo Irã em retaliação aos ataques israelenses, continua a ameaçar o fluxo global de energia, já que por ali passa cerca de um quinto da produção mundial de petróleo e gás. O governo iraniano já anunciou que condiciona a reabertura do estreito ao fim definitivo das ações militares americanas e israelenses na região.
Enquanto isso, as consequências humanitárias no Líbano se agravam. As equipes de resgate continuam trabalhando nos escombros de prédios residenciais destruídos, e o sistema de saúde libanês, já fragilizado, enfrenta dificuldades para atender o grande número de feridos. O Ministério da Saúde libanês informou que mais de 1.165 pessoas ficaram feridas no ataque de quarta-feira, e há receio de que o número de mortos possa aumentar à medida que os corpos são retirados dos escombros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) manifestou preocupação com a capacidade de resposta dos hospitais libaneses, que já operam no limite de sua capacidade.
As negociações de paz entre Irã e Estados Unidos estão previstas para começar no sábado (11) em Islamabad, sob mediação do Paquistão. O vice-presidente americano, JD Vance, liderará a delegação dos EUA, enquanto o Irã será representado por Mohammed Bager Qalibaf. No entanto, diante da escalada das tensões e das declarações das autoridades iranianas, a realização do encontro está ameaçada. O premiê paquistanês, Shehbaz Sharif, já pediu que todas as partes envolvidas demonstrem “contenção” e respeitem o espírito do processo de paz, mas a desconfiança entre os lados parece ser o principal obstáculo para qualquer avanço diplomático.
Com informações de G1, BBC, Reuters, Associated Press (AP), Agence France-Presse (AFP), Al Jazeera, Al Arabiya, RTÉ, Taiwan News, RFI, SIC Notícias, CartaCapital, R7, Folha de S.Paulo, DW, Xinhua e RIA Novosti ■