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O apelo à civilização ocidental de Rubio encontra a advertência da "linha vermelha" de Pequim
Enquanto o secretário de Estado dos EUA invoca herança e soberania em discurso marcado por tom colonial, chanceler chinês alerta para riscos à estabilidade global e reafirma defesa intransigente de Taiwan
Europa
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■   Bernardo Cahue, 26/02/2026

A 62ª Conferência de Segurança de Munique tornou-se o palco de um profundo choque de narrativas sobre a ordem internacional. De um lado, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, proferiu um discurso que muitos analistas classificaram como uma visão do mundo do século XIX, defendendo a revitalização das nações ocidentais com base em uma herança cultural e cristã comum e criticando duramente o globalismo. Do outro, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, delineou uma linha vermelha clara para a estabilidade global, alertando contra "tendências perigosas" e reafirmando o papel de Pequim como uma "âncora de estabilidade" em um mundo fragmentado.

A fala de Rubio, intitulada por apoiadores como "histórica" e comparada ao discurso de Ronald Reagan, representou uma virada explícita em relação às décadas de política externa baseadas em instituições multilaterais. Em seus principais pontos, o secretário:

  • Rejeitou o globalismo: Classificou como "ideia tola" a noção de um "mundo sem fronteiras" e o conceito de "cidadão do mundo", argumentando que tais ideias ignoram a natureza humana e a história.
  • Definiu a ameaça à civilização: Alertou que a "migração em massa descontrolada" ameaça a "coesão das sociedades, a continuidade da cultura e o futuro do povo" ocidental.
  • Justificou o unilateralismo: Defendeu ações militares diretas dos EUA (como os bombardeios no Irã e a captura de Nicolás Maduro) como alternativas necessárias diante da ineficácia da ONU, que, segundo ele, foi incapaz de resolver conflitos como o de Gaza.
  • Convocou para uma aliança civilizacional: Proclamou que EUA e Europa "pertencem um ao outro" como parte de uma única "civilização ocidental", unida por "séculos de história compartilhada, fé cristã, cultura e ancestralidade".

A resposta chinesa não tardou. Em sua própria intervenção e em reuniões à margem da conferência, Wang Yi contrapôs a visão de Rubio com uma defesa ferrenha do multilateralismo e da integridade territorial chinesa. O chanceler:

  1. Traçou uma linha vermelha: Alertou que as declarações do Japão sobre uma possível contingência no Estreito de Taiwan constituem uma "tendência perigosa" que desafia a soberania da China e a ordem internacional pós-guerra, sob a qual Taiwan foi devolvida à China.
  2. Ofereceu a China como estabilizadora: Em contraste com o que classificou como ações unilaterais e desestabilizadoras, Wang posicionou a China como um "pilar de estabilidade" e um "ancoradouro confiável para a cooperação internacional".
  3. Defendeu a diversidade: Citando Confúcio ("o homem superior busca a harmonia, mas não a uniformidade"), Wang rejeitou a ideia de que as diferenças entre os sistemas políticos devam levar à confrontação, pedindo, em vez disso, aprendizado mútuo.
  4. Criticou o "novo imperialismo": Analistas e institutos de pesquisa chineses, como o CICIR, associaram publicamente as ações e a retórica dos EUA na América Latina e na Europa a uma forma de "novo colonialismo" ou "imperialismo", ecoando o sentimento de que a visão de potências como os EUA busca tratar regiões inteiras como "quintais".

O encontro entre Rubio e Wang Yi à margem da conferência, descrito como uma tentativa de "aliviar tensões" em temas como comércio e Taiwan, ocorreu, portanto, em um ambiente de profunda desconfiança. Enquanto Rubio pintava um quadro de um Ocidente que precisa se unir e se proteger para sobreviver, Wang advertia que "falhar em confrontar totalmente o passado pode levar à repetição dos erros", numa clara alusão ao que Pequim vê como ressurgimento de mentalidades imperialistas. O "ponto de virada" anunciado pelo presidente da conferência, Wolfgang Ischinger, não é apenas sobre a forma da aliança transatlântica, mas sobre a própria linguagem e os valores que definirão a ordem global — se baseada em esferas de influência civilizacionais ou em princípios multilaterais de coexistência.

Com informações de The White House, U.S. Department of State, The Express Tribune, BBC News, The Jerusalem Post, China Daily, ?????, The New York Times, NPR ■

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