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EUA avaliam classificar PCC e CV como terroristas após pressão de aliados de Bolsonaro, diz NYT
Governo Trump estuda medida que pode impor sanções econômicas às facções; governo Lula se opõe e alerta para riscos à soberania nacional
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 27/03/2026

O governo dos Estados Unidos está avaliando incluir as duas maiores facções criminosas do Brasil — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — em sua lista de organizações terroristas estrangeiras (Foreign Terrorist Organizations, ou FTOs). A informação, divulgada pelo jornal The New York Times nesta sexta-feira (27), aponta que a movimentação ocorre após pressão de filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro junto a integrantes da administração Donald Trump.

De acordo com a reportagem, a proposta tem sido discutida nas últimas semanas no âmbito do Departamento de Estado dos EUA, embora não haja uma decisão formal confirmada. A Casa Branca não se pronunciou oficialmente sobre a possibilidade, mas a medida se alinha à campanha promovida por Trump desde o início de seu mandato para designar grupos criminosos da América Latina como organizações terroristas, como já ocorreu com cartéis mexicanos e a venezuelana Tren de Aragua.

O contexto geopolítico, no entanto, é delicado. Em maio de 2025, o governo brasileiro já havia rejeitado publicamente um pedido dos EUA para classificar o PCC e o CV como terroristas. Na ocasião, o secretário de Segurança Pública do Brasil, Mario Sarrubo, afirmou que "não temos organizações terroristas aqui, temos organizações criminosas", destacando que a legislação brasileira reserva o termo "terrorismo" para atos motivados por razões religiosas, ideológicas ou políticas.

Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que, se concretizada, a classificação vai além de um gesto simbólico. Nos Estados Unidos, a designação como FTO aciona o regime da Lei 18 U.S.C. § 2339B, que criminaliza qualquer forma de "apoio material" a esses grupos — o que inclui financiamento, assistência logística ou mesmo treinamento jurídico. A pena para esse tipo de crime pode ser severa, e a medida permite ao governo americano congelar ativos, impor sanções econômicas e até justificar operações extraterritoriais.

Nos bastidores, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstra preocupação com os possíveis desdobramentos. Entre os principais temores estão:

  • Risco à soberania nacional: A designação unilateral poderia abrir margem para que os EUA realizem operações militares ou de inteligência em território brasileiro sem a anuência do governo federal, um precedente considerado perigoso por analistas.
  • Impacto econômico: A aplicação das leis antiterrorismo americanas pode levar a um "êxodo de serviços financeiros", já que bancos e multinacionais poderiam ser processados por processar transações de empresas brasileiras indiretamente ligadas às facções, paralisando setores inteiros da economia formal.
  • Insegurança jurídica para a cooperação: A classificação pode inviabilizar acordos de cooperação policial, já que agências brasileiras poderiam ser acusadas de dar "apoio material" a terroristas ao compartilhar informações ou receber treinamento.

A articulação para que Washington adotasse essa postura foi capitaneada por figuras do bolsonarismo, principalmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-SP) e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Em novembro de 2025, os dois estiveram em El Salvador e se reuniram com o presidente Nayib Bukele, conhecido por sua política de tolerância zero contra gangues. Em março de 2026, Flávio Bolsonaro chegou a divulgar um dossiê que, segundo ele, continha informações sobre supostos vínculos das facções brasileiras com atos terroristas.

As reações políticas no Brasil são divergentes. Enquanto os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro comemoram a possibilidade da medida como um avanço no combate ao crime organizado, o governo Lula adota cautela. Em comunicados recentes, o chanceler Mauro Vieira manifestou oposição à ideia em encontros com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, defendendo que o enfrentamento às facções deve ocorrer por meio de cooperação policial e respeito ao direito internacional, e não por meio de classificação unilateral que pode servir como ferramenta de coerção política.

O contexto eleitoral também é apontado como um fator relevante. O The New York Times destacou que a discussão sobre a classificação ocorre em ano de eleições presidenciais no Brasil, e que Flávio Bolsonaro, candidato à sucessão, tem utilizado o discurso de "tolerância zero" para criticar o atual governo. A publicação sugere que a medida pode ser interpretada como uma tentativa de influenciar o resultado eleitoral, algo que o governo brasileiro monitora com atenção.

Enquanto isso, o Departamento de Estado dos EUA mantém a posição de que as facções brasileiras representam "ameaças significativas à segurança regional" devido ao tráfico de drogas e à violência, mas evita confirmar a inclusão na lista negra. Apesar disso, fontes indicam que o FBI já identificou células do PCC e do CV em pelo menos 12 estados americanos, incluindo Massachusetts, Nova York e Flórida, onde estariam envolvidas em tráfico de armas e lavagem de dinheiro.

Para especialistas ouvidos pela imprensa internacional, a eventual designação do PCC e CV como terroristas representa uma mudança de paradigma na relação bilateral. Em vez de reforçar a cooperação policial — essencial para combater o fluxo de armas que abastece as facções nos EUA e sai do mercado civil americano — a medida unilateral tende a criar atritos diplomáticos e dificultar o trabalho conjunto de inteligência.

O governo brasileiro já deixou claro que não pretende alterar sua legislação interna para classificar facções criminosas como terroristas, mantendo a distinção jurídica entre crime organizado transnacional e terrorismo. A expectativa agora é de que os próximos passos da administração Trump sejam acompanhados de perto por Brasília, que vê na decisão um teste crucial para o futuro da cooperação em segurança nas Américas.

Com informações de The New York Times, G1, Reuters, CNN Brasil, BBC News Brasil, Associated Press, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, U.S. News & World Report ■

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