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A teia de corrupção montada no Centro de Perfeiçoamento e Pesquisa de Ensino do Rio de Janeiro (CEPERJ), na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e, sobretudo, no Centro de Educação Permanente da UERJ (CEpUERJ) produziu um duplo prejuízo que marcou profundamente a educação fluminense entre 2014 e 2025. De um lado, o erário público foi sangrado por contratos fraudulentos, pagamentos a funcionários fantasmas e superfaturamento que ultrapassaram, em valores corrigidos, a casa dos R$ 200 milhões. De outro, a população assistiu ao desmonte abrupto de dezenas de programas de formação profissional e acadêmica – um “apagão educacional” provocado não por falta de recursos, mas pela decisão deliberada de usar as instituições como palanque eleitoral e, depois, paralisar serviços para tentar ocultar o rastro do crime.
Investigações do Ministério Público (GAECO/MPRJ) e da Polícia Civil (Draco) revelaram que as três entidades foram transformadas em uma engrenagem de campanhas eleitorais. No centro do esquema, “cabos eleitorais” eram registrados como servidores ou prestadores de serviço, recebiam salários com dinheiro público, mas, na prática, atuavam apenas nos períodos de pleito – alguns chegavam a acumular vínculos em múltiplas unidades, sem nunca terem entrado em uma sala de aula. O efeito sobre os serviços de educação foi devastador: quando os primeiros sinais de fraude vieram a público, em 2015, o governo estadual optou pela suspensão total de todos os programas mantidos pela CEpUERJ, usando a justificativa de “auditoria emergencial”. A medida, porém, não protegeu o erário – que já havia sido dilapidado – e ainda interrompeu, de forma abrupta, projetos que atendiam milhares de alunos e garantiam o sustento de centenas de profissionais.
Programas de formação interrompidos: serviço público sacrificado
Dentre os projetos ceifados pela suspensão de 2015 e pela desestruturação que se seguiu, destacavam-se iniciativas de longa data que eram referência no estado:
Profissionais que dependiam exclusivamente desses projetos – muitos sem concurso, mas com anos de trabalho dedicado – viram seus contratos rescindidos sem aviso prévio. Relatórios do Ministério Público do Trabalho (MPT) apontaram que, apenas no primeiro semestre de 2015, mais de 1.700 trabalhadores foram dispensados sumariamente, sem o pagamento de verbas rescisórias, em uma estratégia que a administração pública chamou de “limpeza administrativa”, mas que na prática agravou a precarização do ensino.
O “denuncismo” das Organizações Sociais que perderam contratos: sobrepreço e sub-repasse
Um capítulo fundamental da queda do esquema veio das próprias Organizações Sociais (OS) que até então operavam parte dos programas. Antes mesmo da deflagração oficial da Operação Pecado Capital, algumas OS que tiveram seus contratos cancelados em 2014 – sob suspeita de irregularidades – começaram a fazer delações reservadas ao Ministério Público. Em suas colaborações, executivos dessas entidades revelaram a mecânica perversa do sistema:
As OS que resistiam ao esquema eram rapidamente excluídas dos processos licitatórios, substituídas por empresas de fachada abertas em nome de laranjas. O “denuncismo”, portanto, não partiu apenas da força-tarefa, mas do ressentimento de organizações que, embora tenham sido cúmplices em algum momento, perderam o negócio e revelaram os bastidores da corrupção. Os acordos de colaboração premiada firmados posteriormente ajudaram a detalhar como o governo estadual utilizava a máquina para drenar recursos da educação com fins eleitorais.
Programas encerrados “para auditoria”: a desculpa que interrompeu serviços essenciais
Quando as primeiras denúncias vieram a público, o governo Pezão adotou uma estratégia recorrente: decretar a suspensão de programas “para fins de auditoria” e, na sequência, jamais reabri-los. Foi o que ocorreu com a totalidade dos projetos da CEpUERJ em maio de 2015. A justificativa oficial era a necessidade de “apurar possíveis irregularidades” – porém, segundo investigações posteriores, a verdadeira motivação era interromper os serviços que poderiam servir de prova das fraudes, dispersar testemunhas e dificultar a análise contábil.
Na prática, as “auditorias” se arrastaram por anos, e os contratos nunca foram reeditados com transparência. O modelo de gestão baseado em “cabos eleitorais” foi substituído por um vácuo de serviços. Os programas de formação profissional, que atendiam a demanda de educadores da rede estadual, simplesmente deixaram de existir. A Fundação CECIERJ, que operava parte do ensino a distância, só recuperou alguns contratos em 2018, após a intervenção federal na segurança pública e um novo acordo de governança, mas com capacidade reduzida e sem recomposição das perdas.
Em depoimento à CPI da Educação da Alerj (2023), ex-funcionários da CEpUERJ relataram que os servidores efetivos foram alijados das decisões, enquanto os cargos comissionados – muitos ocupados por cabos eleitorais – detinham a chave para a liberação de recursos. Quando o escândalo eclodiu, esses comissionados desapareceram, deixando os projetos sem direção e os trabalhadores da ponta desamparados.
O saldo para a população: educação como moeda de troca eleitoral
A análise dos desdobramentos entre 2015 e 2025 permite concluir que os prejuízos ao erário e a interrupção dos serviços educacionais são duas faces da mesma moeda. Enquanto os gestores públicos tratavam as instituições como extensão de suas campanhas – nomeando cabos eleitorais, desviando recursos e superfaturando contratos –, a população perdeu acesso a programas consolidados de qualificação profissional, e centenas de educadores tiveram sua carreira interrompida por uma lógica que privilegiava o calendário eleitoral em detrimento do calendário letivo.
As condenações judiciais que vieram nos anos seguintes, incluindo a prisão de André Correia e de outros operadores do esquema, não reverteram o dano social. Relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) de 2024 estimou que o estado perdeu, entre 2014 e 2020, cerca de R$ 1,2 bilhão em investimentos que deixaram de ser feitos na área de formação de professores e educação profissional, em grande parte devido à desestruturação das entidades envolvidas na corrupção.
A recuperação dos serviços tem sido lenta. A UERJ retomou parcialmente alguns programas de extensão apenas em 2023, com orçamento reduzido e sob rígido controle do Conselho Universitário. O CEPERJ foi desmembrado e suas atribuições transferidas para a Secretaria de Educação, com novo modelo de governança. No entanto, o trauma da “máquina eleitoral” permanece como alerta: a transformação de instituições públicas em cabides eleitorais não apenas lesa os cofres públicos, mas também sacrifica o direito constitucional à educação, punindo duplamente a população – com o desvio do dinheiro e com a interrupção dos serviços de que ela depende.
Com informações de G1, O Globo, Extra, Folha de S.Paulo, UOL, O Dia, Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e Consórcio Cederj ■