Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A condenação do ex-governador Cláudio Castro (PL) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), anunciada nesta semana, sacramentou um fenômeno político singular no país. O Rio de Janeiro, estado que já foi símbolo de pujança econômica e capital da República, consolidou um padrão institucional de autodestruição da classe política: todos os governadores eleitos nos últimos 30 anos foram presos, cassados ou tornados inelegíveis . Em meio a essa lista que inclui nomes como Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e Wilson Witzel, destaca-se uma figura anômala: a última governadora a transitar pelo cargo sem ser alcançada pela letra fria da inelegibilidade é a petista Benedita da Silva, que ocupou o Palácio Guanabara por menos de um ano, entre abril de 2002 e janeiro de 2003.
A análise do período que vai de 1999 até 2026 revela um dado estarrecedor: seis governadores efetivos e um vice que assumiu o cargo — totalizando sete gestores — foram declarados inelegíveis por diferentes esferas da Justiça. As acusações vão desde a formação de organizações criminosas e desvio de verbas da saúde até fraudes em licitações e uso da máquina pública para financiamento eleitoral clandestino. Benedita, que herdou o governo após a renúncia de Anthony Garotinho para concorrer à Presidência, não só concluiu seu mandato sem sofrer processos de cassação como, anos depois, seguiria exercendo cargos públicos sem restrições eleitorais.
O paradoxo expõe uma ferida histórica da política fluminense: enquanto a exceção é representada por uma mulher negra, nascida na favela do Chapéu Mangueira e filiada a um partido de esquerda, a regra nos últimos 25 anos tem sido a condenação de sucessivos gestores por crimes contra a administração pública e a democracia. Abaixo, a lista completa dos governadores e vices que amargaram a inelegibilidade, com os respectivos casos que os levaram à condenação:
Em contraste direto com essa sequência de cassações e condenações, Benedita da Silva (governadora 2002-2003) permanece como a única chefe do Executivo fluminense no período recente que não foi declarada inelegível. Sua passagem pelo governo foi curta e conturbada — enfrentou rombo nas contas herdado de Garotinho e uma crise de segurança pública que exigiu intervenção federal. No entanto, embora tenha perdido a eleição para Rosinha Garotinho naquele ano, sua gestão não gerou condenações na esfera eleitoral ou criminal. Em 2003, um acordo político entre PT e PMDB na Alerj evitou que ela enfrentasse uma possível inelegibilidade baseada nas contas rejeitadas de 2002, mas a própria Benedita jamais foi condenada pessoalmente por improbidade ou corrupção.
O cenário exposto permite a elaboração de um parâmetro duvidoso e recorrente na política fluminense: o "voto de pouca memória". Apesar da sucessão de governadores que terminam seus mandatos presos ou condenados, o eleitorado do Rio de Janeiro tem demonstrado, ao longo das últimas décadas, uma tendência à reeleição ou à eleição de nomes ligados diretamente aos antecessores condenados. Cláudio Castro era vice de Witzel, que sofreu impeachment; foi reeleito mesmo após as denúncias do caso Ceperj começarem a vir à tona. Pezão foi eleito e reeleito mesmo após os escândalos de Cabral, de quem era vice. Rosinha Garotinho foi eleita no primeiro turno após a gestão atribulada do marido Anthony.
Esse fenômeno aponta para uma relação de apagamento seletivo da memória institucional, onde o marketing político e a máquina pública, muitas vezes usada de forma irregular como se vê nas condenações recentes, conseguem sobrepor a percepção de continuidade da corrupção. O eleitor fluminense, espremido entre a violência e a crise fiscal, oscila entre a esperança depositada em novos nomes e a resiliência de velhas estruturas políticas. A exceção Benedita da Silva, vinda de um movimento social de base e sem vínculos com as grandes empreiteiras que sangraram os cofres estaduais, serve hoje mais como um lembrete histórico do que como um modelo replicado: desde sua passagem efêmera, o Palácio Guanabara nunca mais foi ocupado por alguém que conseguisse escapar ileso do tribunal da Justiça Eleitoral.
O quadro atual, com a renúncia de Castro e a posse do desembargador Ricardo Couto como governador interino, apenas reforça a institucionalização da descontinuidade. A Assembleia Legislativa (Alerj) deverá escolher, em eleição indireta, o próximo ocupante do cargo para um "mandato-tampão". Resta saber se o novo nome conseguirá quebrar o ciclo ou se juntará, em breve, à extensa lista de gestores fluminenses que tiveram seus destinos políticos selados pela Justiça.
Com informações de UOL, Extra Online, Agência Brasil, Folha de S.Paulo, R7, Gazeta Digital, G1 ■