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Último governador do Rio que não ficou inelegível é do PT
Enquanto sete nomes que passaram pelo Palácio Guanabara desde 1999 foram condenados à inelegibilidade por corrupção, abuso de poder ou fraudes eleitorais, a breve passagem de Benedita da Silva em 2002 permanece como o único mandato sem manchas na Justiça Eleitoral — levantando o espelho sobre o "voto de pouca memória" do fluminense
Analise
Foto: https://midianinja.org/wp-content/uploads/2022/09/photo1663158389.jpeg
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■   Bernardo Cahue, 27/03/2026

A condenação do ex-governador Cláudio Castro (PL) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), anunciada nesta semana, sacramentou um fenômeno político singular no país. O Rio de Janeiro, estado que já foi símbolo de pujança econômica e capital da República, consolidou um padrão institucional de autodestruição da classe política: todos os governadores eleitos nos últimos 30 anos foram presos, cassados ou tornados inelegíveis . Em meio a essa lista que inclui nomes como Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e Wilson Witzel, destaca-se uma figura anômala: a última governadora a transitar pelo cargo sem ser alcançada pela letra fria da inelegibilidade é a petista Benedita da Silva, que ocupou o Palácio Guanabara por menos de um ano, entre abril de 2002 e janeiro de 2003.

A análise do período que vai de 1999 até 2026 revela um dado estarrecedor: seis governadores efetivos e um vice que assumiu o cargo — totalizando sete gestores — foram declarados inelegíveis por diferentes esferas da Justiça. As acusações vão desde a formação de organizações criminosas e desvio de verbas da saúde até fraudes em licitações e uso da máquina pública para financiamento eleitoral clandestino. Benedita, que herdou o governo após a renúncia de Anthony Garotinho para concorrer à Presidência, não só concluiu seu mandato sem sofrer processos de cassação como, anos depois, seguiria exercendo cargos públicos sem restrições eleitorais.

O paradoxo expõe uma ferida histórica da política fluminense: enquanto a exceção é representada por uma mulher negra, nascida na favela do Chapéu Mangueira e filiada a um partido de esquerda, a regra nos últimos 25 anos tem sido a condenação de sucessivos gestores por crimes contra a administração pública e a democracia. Abaixo, a lista completa dos governadores e vices que amargaram a inelegibilidade, com os respectivos casos que os levaram à condenação:

  • Anthony Garotinho (governador 1999-2002): Foi condenado pelo TSE por corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documento e coação de testemunhas. Os crimes foram cometidos nas eleições municipais de 2016 em Campos dos Goytacazes, investigados na Operação Chequinho, que apurou compra de votos. Tornou-se inelegível por oito anos.
  • Rosinha Garotinho (governadora 2003-2006): Presa em 2017 na Operação Caixa d'Água, foi acusada de integrar organização criminosa que arrecadava recursos ilícitos com empresários para financiar campanhas eleitorais. Foi condenada por irregularidades nas eleições municipais de 2012, tornando-se inelegível por oito anos.
  • Sérgio Cabral (governador 2007-2014): Principal ícone da Operação Lava-Jato no estado, coleciona condenações que ultrapassam 430 anos de prisão. Foi condenado por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, evasão de divisas e fraude em licitações. Tornou-se inelegível por 10 anos após condenação por fraude nas eleições de 2014.
  • Luiz Fernando Pezão (governador 2014-2018): Condenado pelo TSE por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2014. A Corte entendeu que Pezão e seu vice concederam benefícios financeiros e reajustes salariais a servidores no período vedado pela legislação eleitoral como contrapartida por doações de campanha. Foi preso ainda durante o mandato em novembro de 2018, denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro.
  • Francisco Dornelles (vice e governador interino em 2018): Condenado juntamente com Pezão pelo TSE por abuso de poder político nas eleições de 2014, tornando-se inelegível. Dornelles, que assumiu por sete meses durante o tratamento de câncer de Pezão, foi o primeiro governador a decretar calamidade financeira no estado.
  • Wilson Witzel (governador 2019-2021): Sofreu impeachment por crime de responsabilidade, acusado de envolvimento em fraudes na compra de equipamentos e celebração de contratos durante a pandemia da Covid-19. Foi condenado à inelegibilidade por cinco anos no processo político e posteriormente por decisão do TSE, ficando inelegível até 2026.
  • Cláudio Castro (governador 2021-2026): Tornou-se o mais recente integrante da lista ao ser condenado pelo TSE por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. Foi comprovado que Castro utilizou a Fundação Ceperj e a Uerj para contratar ilegalmente milhares de funcionários públicos — os chamados "cabos eleitorais" — em um esquema que violou a transparência e a lisura do pleito. Está inelegível até 2030.

Em contraste direto com essa sequência de cassações e condenações, Benedita da Silva (governadora 2002-2003) permanece como a única chefe do Executivo fluminense no período recente que não foi declarada inelegível. Sua passagem pelo governo foi curta e conturbada — enfrentou rombo nas contas herdado de Garotinho e uma crise de segurança pública que exigiu intervenção federal. No entanto, embora tenha perdido a eleição para Rosinha Garotinho naquele ano, sua gestão não gerou condenações na esfera eleitoral ou criminal. Em 2003, um acordo político entre PT e PMDB na Alerj evitou que ela enfrentasse uma possível inelegibilidade baseada nas contas rejeitadas de 2002, mas a própria Benedita jamais foi condenada pessoalmente por improbidade ou corrupção.

O cenário exposto permite a elaboração de um parâmetro duvidoso e recorrente na política fluminense: o "voto de pouca memória". Apesar da sucessão de governadores que terminam seus mandatos presos ou condenados, o eleitorado do Rio de Janeiro tem demonstrado, ao longo das últimas décadas, uma tendência à reeleição ou à eleição de nomes ligados diretamente aos antecessores condenados. Cláudio Castro era vice de Witzel, que sofreu impeachment; foi reeleito mesmo após as denúncias do caso Ceperj começarem a vir à tona. Pezão foi eleito e reeleito mesmo após os escândalos de Cabral, de quem era vice. Rosinha Garotinho foi eleita no primeiro turno após a gestão atribulada do marido Anthony.

Esse fenômeno aponta para uma relação de apagamento seletivo da memória institucional, onde o marketing político e a máquina pública, muitas vezes usada de forma irregular como se vê nas condenações recentes, conseguem sobrepor a percepção de continuidade da corrupção. O eleitor fluminense, espremido entre a violência e a crise fiscal, oscila entre a esperança depositada em novos nomes e a resiliência de velhas estruturas políticas. A exceção Benedita da Silva, vinda de um movimento social de base e sem vínculos com as grandes empreiteiras que sangraram os cofres estaduais, serve hoje mais como um lembrete histórico do que como um modelo replicado: desde sua passagem efêmera, o Palácio Guanabara nunca mais foi ocupado por alguém que conseguisse escapar ileso do tribunal da Justiça Eleitoral.

O quadro atual, com a renúncia de Castro e a posse do desembargador Ricardo Couto como governador interino, apenas reforça a institucionalização da descontinuidade. A Assembleia Legislativa (Alerj) deverá escolher, em eleição indireta, o próximo ocupante do cargo para um "mandato-tampão". Resta saber se o novo nome conseguirá quebrar o ciclo ou se juntará, em breve, à extensa lista de gestores fluminenses que tiveram seus destinos políticos selados pela Justiça.

Com informações de UOL, Extra Online, Agência Brasil, Folha de S.Paulo, R7, Gazeta Digital, G1 ■

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