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Irã afirma que aceita inspeções técnicas, mas não cederá a “exigências excessivas” de Washington
Presidente iraniano reforça caráter pacífico do programa atômico e rejeita ultimatos; negociações com os EUA ocorrem em meio a ameaças de ataque por parte de Donald Trump
Oriente-Medio
Foto: https://www.estadao.com.br/resizer/v2/2GZAIYLKNVCYBNVJVQD4ORDAFQ.jpg?quality=80&auth=97d88d474f37120fd6c3229f898331d8d0e984f443700dbe42f5ad9c409bb1f4&width=1200
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■   Bernardo Cahue, 11/02/2026

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, declarou neste domingo que o país está disposto a permitir “inspeções técnicas” da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) com o objetivo de comprovar a natureza pacífica de seu programa nuclear. A afirmação ocorre em um momento de elevada tensão diplomática e militar, após o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificar a retórica e não descartar uma ação armada contra instalações iranianas.

Em discurso transmitido pela televisão estatal, Pezeshkian foi enfático ao afirmar que o Irã “não se curvará a exigências excessivas” feitas por Washington. “Nossa doutrina de defesa proíbe armas atômicas. O programa nuclear é para fins civis, energéticos e medicinais. Estamos prontos para receber inspetores e mostrar a transparência de nossas atividades, mas isso não significa aceitar pressões ilegítimas ou além do quadro do TNP”, disse o presidente, referindo-se ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

As declarações surgem poucos dias depois de representantes do Irã e dos Estados darem início a uma nova rodada de negociações indiretas, mediadas por Omã. Segundo fontes diplomáticas, os encontros têm sido marcados por desconfiança mútua e posições divergentes sobre o nível de enriquecimento de urânio e o cronograma para alívio de sanções.

Contexto de pressão máxima e ameaça militar

Desde que retornou à Casa Branca, Donald Trump restabeleceu a política de “pressão máxima” sobre Teerã, combinando sanções econômicas paralisantes com exercícios militares no Golfo Pérsico. O presidente norte-americano já declarou que “todas as opções estão sobre a mesa” e, em entrevistas recentes, não descartou autorizar ataques preventivos contra centrífugas e instalações nucleares iranianas, caso as negociações não avancem nos termos exigidos por seu governo.

O comando da Guarda Revolucionária do Irã, por sua vez, respondeu com manobras militares e a revelação de novos mísseis balísticos. Autoridades iranianas afirmaram que qualquer ataque será respondido com “força esmagadora” contra bases norte-americanas na região e contra Israel, considerado seu principal adversário estratégico.

Os principais pontos de atrito nas negociações

As conversas em Omã têm se concentrado em um conjunto de exigências apresentadas pelos EUA e contrapropostas iranianas. Os temas mais sensíveis incluem:

  • Nível de enriquecimento de urânio: O Irã enriquece urânio a 60% de pureza (próximo dos 90% necessários para uma ogiva). Washington exige a redução imediata para 3,67% ou menos, como estipulado no acordo nuclear de 2015 (JCPOA).
  • Inspeções surpresa: Os EUA pressionam por um regime de inspeções mais intrusivas, incluindo acesso a locais militares não declarados. Teerã aceita as inspeções da AIEA, mas rejeita o que chama de “acesso arbitrário” e “violação da soberania nacional”.
  • Capacidade de centrifugação: Pedido de desativação de centrífugas avançadas (IR-6 e IR-8) e envio de estoques de urânio enriquecido para o exterior.
  • Sanções econômicas: O Irã condiciona qualquer recuo técnico à suspensão verificável das sanções financeiras, petrolíferas e bancárias que asfixiam sua economia.

Por outro lado, o governo iraniano apresentou uma lista de exigências próprias, que incluem:

  1. Garantia de não agressão: Compromisso formal dos EUA e aliados de não promoverem mudança de regime por meios militares.
  2. Compensação financeira: Pagamento de indenizações pelos danos causados pelas sanções unilaterais impostas após a saída dos EUA do acordo em 2018.
  3. Não interferência nos programas de mísseis: O Irã recusa negociar seu programa de mísseis balísticos, considerado dissuasório e não relacionado ao uso nuclear civil.
  4. Investimento estrangeiro: Contrapartidas econômicas efetivas, com garantias para empresas europeias e asiáticas voltarem a operar no país.

Reações internacionais e cenário prospectivo

A Rússia e a China, que fazem parte do grupo 5+1 (hoje sem os EUA), manifestaram apoio à continuidade do diálogo e pediram moderação a ambas as partes. O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, alertou para o risco de “escalada não intencional” e pediu que o Irã restabeleça o monitoramento contínuo das câmeras nas instalações nucleares, interrompido em anos anteriores.

Analistas avaliam que a disposição iraniana de aceitar inspeções é uma tentativa de ganhar tempo e desarmar retoricamente a opção militar, ao mesmo tempo que fortalece sua posição negociadora. Entretanto, a recusa em desmontar centrifugas avançadas e a continuidade do enriquecimento a 60% mantêm o impasse.

A Casa Branca ainda não comentou oficialmente as declarações do presidente Pezeshkian, mas fontes do Departamento de Estado indicaram que “ações concretas e verificáveis” são esperadas nos próximos dias, caso contrário “medidas adicionais serão consideradas”.

Por ora, a diplomacia prossegue em Omã, com uma nova rodada técnica prevista para os próximos dias. O mundo acompanha se o canal negociador será suficiente para conter a ameaça de um novo conflito no Oriente Médio.

Com informações de Reuters, Associated Press, Al Jazeera, BBC News, The Guardian, France Presse, Agência Irã (IRNA) e Departamento de Estado dos EUA ■

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