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Roberto Campos Neto e colapso orquestrado do Banco Master
O caso revela uma sucessão de falhas regulatórias, manobras financeiras opacas e uma supervisão negligente que permitiu que um banco insolvente operasse até o colapso, com alto custo para o sistema financeiro e o erário público
America do Sul
Foto: https://iclnoticias.com.br/app/uploads/2023/09/Campos-Neto-960x540.webp
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■   Bernardo Cahue, 27/01/2026

A crise e posterior liquidação do Banco Master em novembro de 2025 se configuram como um dos maiores escândalos financeiros recentes do Brasil. No centro da investigação, está a atuação - ou a ausência dela - do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto, que teria permitido que o banco de Daniel Vorcaro operasse em estado de insolvência crônica enquanto buscava desesperadamente uma salvação com dinheiro público.

Em vez de uma intervenção direta, Campos Neto teria optado por um caminho tortuoso: permitir uma "solução particular" às custas do contribuinte para salvar uma operação que os relatórios internos do próprio BC já apontavam como um "buraco sem fundo".

O Alerta Ignorado: A Crise de Liquidez sob os Olhos do BC

Desde fins de 2023, o Banco Master patinava em uma grave crise de liquidez. Documentos internos do BC mostram que, em meados de 2024, o banco falhou em apresentar capacidade de captação de mercado. A expectativa era que levantasse R$ 15 bilhões para mostrar solidez, mas conseguiu apenas R$ 2 bilhões. Em novembro daquele ano, o BC identificou que o Master já não conseguia pagar suas obrigações vencidas - o calote acontecia ao vivo, diante das autoridades.

Operações atípicas e claros sinais de alerta foram registrados, mas não resultaram em ação enérgica:

  • Empréstimos suspeitos: Em abril de 2024, o Master emprestou R$ 459 milhões a uma empresa de capital irrisório, a Brain Realty, que aportou a quantia em um fundo da REAG Investimentos.
  • Criação fictícia de liquidez: Em 20 dias, o patrimônio desse fundo foi multiplicado por 30 mil vezes através de "troca de numeralha em papéis sem valor comprovado", uma manobra para simular solidez e retornar recursos ao Master via CDBs.
  • Fiança fantasiosa: Sem dinheiro, Daniel Vorcaro apresentou à supervisão do BC a REAG como uma espécie de fiadora, através do fundo Gold Style, que prometia aportes de R$ 1 bilhão por mês. Relatórios obrigatórios, porém, revelaram que o fundo não tinha os ativos líquidos que alegava.

O "Salvamento" pelo BRB: Dinheiro Público para um Banco Privado Insolvente

Enquanto o Master derretia, o Banco de Brasília (BRB), uma instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal, iniciou em julho de 2024 a injeção de bilhões de reais no conglomerado de Vorcaro, através da compra de carteiras de crédito de qualidade questionável. Esta movimentação ocorreu nas mesmas semanas em que o BC registrava a incapacidade do Master de conseguir dinheiro no mercado.

O governador Ibaneis Rocha tornou-se um defensor público da operação, chegando a afirmar em um evento em Dubai que a compra de parte do Master pelo BRB era uma "operação que tem muito pouco risco". Esta declaração andava na contramão da realidade dos balanços: o Master operava com CDBs pagando juros até 40% acima do mercado, exposição dezenas de vezes além do limite regulatório e um caixa virtualmente vazio.

Em março de 2025, o BRB formalizou a proposta de compra de 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões. A operação, no entanto, enfrentou uma série de entraves:

  • Questionamentos do Ministério Público do DF e Federal.
  • Uma decisão judicial que barrou a assinatura do contrato, por ausência de autorização da Assembleia de Acionistas e da Câmara Legislativa do DF.
  • Aprovação do CADE, mas veto final do Banco Central em setembro de 2025, que citou ausência de documentos que comprovassem a "viabilidade econômico-financeira" da operação.

A Falha Sistêmica: Um Modelo de Regulação Permissiva

Analistas apontam que o caso Master não é um episódio isolado, mas o produto de uma arquitetura do sistema financeiro baseada em baixa regulação, alta opacidade e incentivos à irresponsabilidade. Durante a gestão de Roberto Campos Neto, o BC teria se orientado por uma "visão dogmática de mercado autorregulado e pela redução deliberada da supervisão substantiva".

Essa postura permitiu que prosperasse um modelo de negócios baseado em:

  1. Captação agressiva e insustentável: Oferta de CDBs com taxas até 140% do CDI, usando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como selo de segurança para atrair investidores.
  2. Ativos opacos e de alto risco: Parte importante do patrimônio do Master era composta por precatórios (títulos de dívida judicial de governos) e empréstimos a empresas em "situações especiais".
  3. Estruturas societárias complexas: Facilitação de operações cruzadas e manobras contábeis para simular liquidez, como as envolvendo a REAG.

O FGC, nesse contexto, teria atuado como um "incentivo perverso", dando uma falsa sensação de segurança que permitia aos bancos assumirem riscos excessivos. Na data de sua liquidação, o Master deveria ter depositado R$ 2,5 bilhões no FGC, mas mantinha apenas R$ 22,9 milhões - uma ninharia.

O Desfecho e as Repercussões em Cascata

A farsa não poderia se sustentar indefinidamente. Em novembro de 2025, já sob o comando de Gabriel Galípolo no BC, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado Master, motivada por "grave crise de liquidez" e "graves violações" às normas. Um dia antes, Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que investiga a emissão de títulos de crédito falsos.

O caso gerou uma onda de repercussões que atingiu as mais altas esferas do Estado:

  • Investigação do TCU: O Tribunal de Contas da União questionou se houve falhas ou negligência do BC na fiscalização e determinou uma inspeção na autarquia.
  • Envolvimento do STF: O ministro Dias Toffoli assumiu o caso e impôs um severo regime de sigilo. Outro ministro, Alexandre de Moraes, foi envolvido na polêmica após revelações de que seu escritório de advocacia tinha um contrato milionário com o Banco Master e de que ele teria feito contatos com o presidente do BC sobre o caso.
  • Crise no BRB: O então presidente do banco, Paulo Henrique Costa, e o diretor financeiro foram afastados. A instituição contratou uma auditoria para investigar os fatos.
  • Defesa da Supervisão: O diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, se defendeu publicamente, negando que tenha recomendado a aquisição de carteiras fraudadas e colocando seus sigilos à disposição da Justiça.

Perguntas que Permanecem sem Resposta

O artigo de Leandro Demori e as investigações subsequentes deixam uma série de interrogações sobre o período em que Roberto Campos Neto comandou o Banco Central:

  1. Por que o BC, tendo em mãos relatórios que apontavam a insolvência do Master e manobras contábeis claras, permitiu que o banco continuasse operando por todo o ano de 2024?
  2. Qual foi o grau de conhecimento e anuência da cúpula do BC sobre as operações de "salvamento" conduzidas pelo BRB com dinheiro público?
  3. A postura regulatória permissiva foi uma falha técnica ou uma escolha ideológica, como argumentam alguns analistas, de confiar cegamente na "disciplina de mercado"?

Roberto Campos Neto deixou o BC em dezembro de 2024 como um "ícone da autonomia" do banco central, legando ao seu sucessor, Gabriel Galípolo, "o trabalho de descascar o pepino da maior fraude bancária da história do Brasil". O caso Master expõe, assim, as profundas fissuras entre a retórica de um mercado autorregulado e a realidade de um sistema que, na prática, socializou prejuízos e premiou a irresponsabilidade, sob o olhar passivo de seu principal fiscal.

Com informações de: ICL Notícias, G1, Folha de S.Paulo, CNN Brasil, BN Amazonas

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