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Estudo da USP confirma: ser negro é fator de risco para homicídio no Brasil
Pesquisa com dados de 2022 revela que população negra tem risco 49% maior de morte violenta, mesmo quando escolaridade, idade e local de moradia são semelhantes aos da população branca
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Foto: https://previews.123rf.com/images/svetilo/svetilo2103/svetilo210300260/170428635-male-hand-clenched-into-a-fist-on-a-white-background-a-symbol-of-the-struggle-for-the-rights-of.jpg
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■   Bernardo Cahue, 23/01/2026

Um estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) revelou que a cor da pele é um fator de risco independente para morte violenta no Brasil. Publicado na revista científica Ciência & Saúde Coletiva, o trabalho conclui que pessoas negras têm 49% mais chance de serem vítimas de homicídio do que pessoas brancas. Em alguns modelos de análise, esse risco pode chegar a ser até 2,3 vezes maior .

A pesquisa, que analisou os 42.441 homicídios registrados no país em 2022, utilizou um método estatístico chamado escala (ou escore) de propensão. Esta técnica permitiu aos pesquisadores criar grupos comparativos de pessoas com características idênticas em idade, sexo, escolaridade, estado civil e local de moradia, isolando a cor da pele como a única variável diferencial . “Há fortes evidências de que simplesmente a cor da pele é a causa de morte violenta”, afirma o pesquisador Rildo Pinto, um dos autores do estudo .

Perfil das Vítimas e Desigualdade Geográfica

Os dados de 2022 traçam um perfil predominante das vítimas de homicídio no país, composto majoritariamente por:

  • Homens (91,4%)
  • Jovens adultos entre 20 e 59 anos (83,3%)
  • Pessoas solteiras (79,4%)
  • Indivíduos com baixa escolaridade (68,3%)

Do ponto de vista racial, a desigualdade é marcante: pessoas pretas e pardas representaram quase 78% do total de vítimas, enquanto pessoas brancas corresponderam a pouco mais de 21% . A análise geoespacial identificou áreas de alta concentração (hotspots) e áreas de baixa concentração (coldspots) de homicídios .

Nos hotspots, localizados principalmente no Nordeste, em partes do Norte e da Amazônia, a taxa de homicídios atingiu 43,2 mortes por 100 mil habitantes – quase cinco vezes a taxa dos coldspots do Sul e Sudeste (8,8 por 100 mil) . Nessas regiões mais violentas, a seletividade racial é ainda mais brutal: 9 em cada 10 vítimas são negras .

Homicídios Ocultos e a "Normalização" da Violência

O estudo também identificou lacunas nos dados, como uma área entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte cercada por municípios violentos, mas sem classificação estatística clara. Os pesquisadores suspeitam de subnotificação de óbitos, um fenômeno conhecido como “homicídio oculto”, que pode mascarar a real dimensão da violência .

Para o pesquisador Rildo Pinto, há um preocupante processo de “normalização” da violência contra a população negra, alimentado pela polarização social e política. “Conversei com algumas pessoas, todas brancas, sobre o estudo. A reação delas foi do tipo: ‘isso é óbvio' ou ‘isso é normal'”, relata. Ele alerta para a tendência “desumanizadora” dessa questão .

Racismo Estrutural e Caminhos para Políticas Públicas

Especialistas enfatizam que os dados comprovam o racismo estrutural em ação. “A cor da pele opera como marcador social de desproteção. Pessoas negras são vistas como suspeitas, descartáveis ou passíveis de violência letal”, analisa David Santos, diretor-executivo da Educafro Brasil . O jurista Flávio de Leão Barros Pereira, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, resume: “O recorte racial na sociedade brasileira é um marcador de risco” .

Os autores do estudo defendem que suas descobertas devem servir de base para políticas públicas mais eficazes. Eles sugerem:

  1. Replicar a metodologia em nível local (municípios, bairros) para diagnósticos precisos .
  2. Priorizar investimentos em educação de qualidade como medida estruturante de longo prazo .
  3. Promover reformas na segurança pública com controle rigoroso do uso da força e responsabilização de abusos .

A pesquisa se soma a outros levantamentos que evidenciam a vulnerabilidade da população negra. Um estudo da Fiocruz de 2025, por exemplo, já apontava que jovens negros são 73% das vítimas de mortes violentas ou acidentes nessa faixa etária no Brasil .

Com informações de: G1, DW, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, Jornal de Brasília, Fiocruz (Agenda Jovem Fiocruz) ■

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