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As eleições presidenciais em Portugal escreveram um novo capítulo histórico neste domingo (18). Pela segunda vez desde a Revolução dos Cravos em 1974, e pela primeira vez em quatro décadas, nenhum candidato obteve mais de 50% dos votos, forçando a realização de um segundo turno, marcado para 8 de fevereiro de 2026. A disputa será entre o socialista António José Seguro, que obteve 31.1% dos votos, e o líder do partido de extrema-direita Chega, André Ventura, com 23.5%. Este cenário inédito interrompe uma tradição de décadas em que os presidentes portugueses eram eleitos já no primeiro turno e sinaliza um momento de intensa reconfiguração política no país.
Com uma participação eleitoral de aproximadamente 52.4%, o eleitorado português se dividiu entre um número recorde de 11 candidatos. Os resultados oficiais, com 99.82% das urnas apuradas, são:
Os demais candidatos, incluindo Catarina Martins (Bloco de Esquerda) e António Filipe (Partido Comunista), obtiveram percentuais abaixo de 2.5%. O resultado de Marques Mendes, apoiado pelo principal partido do governo de centro-direita (PSD), representa a pior votação de um candidato governista na história das presidenciais portuguesas.
A necessidade de um desempate é um evento raríssimo no sistema presidencial português. A única vez anterior em que isso ocorreu foi em 1986, quando Mário Soares venceu Diogo Freitas do Amaral na segunda volta. Desde então, todos os presidentes conseguiram a maioria absoluta no primeiro turno. A repetição deste cenário após 40 anos é vista por analistas como um sintoma claro da fragmentação do sistema partidário e da erosão dos partidos tradicionais do centro (PS e PSD), que dominaram a política portuguesa por décadas.
António José Seguro (63 anos) é um político experiente, ex-secretário-geral do Partido Socialista e ex-líder da oposição durante a crise financeira de 2011. Sua campanha se construiu sobre uma imagem de moderação, experiência institucional e defesa da democracia. Após os resultados, ele declarou que "com a nossa vitória venceu a democracia" e convocou "todos os democratas e progressistas a se unirem na luta contra o ódio e a discriminação".
André Ventura (43 anos), fundador e líder do Chega, é a face de uma nova direita populista e radical em Portugal. Ex-comentarista esportivo e ex-inspetor tributário, seu partido, fundado em 2019, cresceu rapidamente com um discurso focado no combate à corrupção das "elites", na defesa de políticas de "lei e ordem" e no controle rigoroso da imigração. Ventura afirmou que o segundo turno é um sinal de que "a direita acordou" e prometeu lutar "dia por dia" para evitar um presidente socialista.
O segundo turno configura-se como um plebiscito entre duas visões radicalmente opostas para o país. Analistas apontam que, embora Ventura tenha consolidado uma base fiel, seu caminho para a vitória é estreito devido a um alto índice de rejeição, que supera 60% do eleitorado. A chave do resultado estará na distribuição dos votos dos candidatos derrotados, que somam cerca de 45% do eleitorado.
Este pleito ocorre em um momento de profunda instabilidade política e governativa em Portugal. O país terá tido três eleições legislativas desde 2022, e o atual governo, liderado pelo PSD, não detém maioria parlamentar, dependendo de negociações complexas para governar. O presidente que será eleito, embora com funções maioritariamente cerimoniais em tempos normais, detém poderes de "árbitro" em situações de crise: pode vetar leis, dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. Portanto, a figura que ocupará o Palácio de Belém poderá ter um papel decisivo na governabilidade nos próximos cinco anos.
O debate sobre a imigração é um dos temas centrais desta polarização. Nos últimos anos, o número de estrangeiros em Portugal saltou para mais de 1.5 milhão em uma população de menos de 11 milhões. Em 2025, o Parlamento, com os votos do Chega, aprovou um endurecimento da lei de imigração. A comunidade brasileira, a maior colônia imigrante com cerca de 500 mil pessoas, acompanha a eleição com apreensão, temendo um possível aumento da hostilidade e políticas ainda mais restritivas.
Com informações de: G1, BBC News Brasil, The Guardian, Wikipedia, France24, Eunews, RTP ■