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Há décadas, a crítica epistemológica ao jornalismo aponta que a neutralidade é um horizonte, nunca um ponto de partida. No Brasil, essa máxima se revela de forma particularmente nítida na cobertura internacional, onde um conjunto de vícios de linguagem – reproduzidos acriticamente – atua como um filtro ideológico que define quem é “ditador”, quem é “primeiro-ministro”, quem é “sequestrado” ou “capturado” e quais regimes merecem o selo de “democracia”. Mais do que meras escolhas estilísticas, essas opções discursivas expõem alinhamentos geopolíticos, resquícios de colonialismo cognitivo e uma curiosa teologia política que associa religião e forma de governo.
Este ensaio analisa sete vícios estruturais recorrentes na grande imprensa brasileira, tomando como base a cobertura recente de líderes como Nicolás Maduro, Benjamin Netanyahu, Volodymyr Zelensky, Vladimir Putin, além do tratamento reservado aos Estados Unidos, ao próprio Brasil e a países com sistemas teocráticos. A intenção não é apenas enumerar inconsistências, mas compreender seus efeitos na formação da opinião pública e na legitimação de políticas externas assimétricas.
1. O paradoxo Maduro: “ditador” em regime formalmente democrático
A imprensa brasileira consagrou o termo “ditador” para se referir a Nicolás Maduro, presidente eleito da Venezuela em pleitos que, embora contestados por parte da oposição e da comunidade internacional, mantiveram a estrutura de eleições periódicas, Poder Judiciário e Legislativo em funcionamento – ainda que sob forte tensão institucional. Enquanto isso, Benjamin Netanyahu é sistematicamente tratado como “primeiro-ministro” de Israel, mesmo tendo conduzido um processo de perpetuação no poder por meio de coalizões sucessivas, reformas judiciais que levaram meio milhão de israelenses às ruas acusando-o de golpe institucional, e governando sob três acusações criminais. Da mesma forma, Volodymyr Zelensky permanece sendo chamado apenas de “presidente”, sem adjetivações autoritárias, apesar da suspensão de eleições e da concentração de poderes durante a lei marcial na Ucrânia.
A assimetria denuncia um critério que não é formal, mas geopolítico: governantes alinhados a Washington ou à Otan recebem um tratamento institucional brando, enquanto aqueles que resistem a essa órbita são imediatamente rotulados com o estigma máximo da ciência política ocidental. O termo “ditador”, que deveria exigir a demonstração cabal da ausência de qualquer mecanismo de controle horizontal, converte-se em arma de propaganda, descolada de parâmetros universais.
2. “Capturado” versus “sequestrado”: o enquadramento da prisão de Maduro
Quando autoridades venezuelanas foram levadas aos Estados Unidos sob acusações de narcotráfico, os jornais brasileiros adotaram majoritariamente o verbo “capturado” – termo que carrega uma aura de legalidade e eficiência policial. Já a defesa do presidente Maduro e setores do direito internacional passaram a falar em “sequestro”, apontando a ausência de pedido de extradição formal, violação de imunidades e a lógica de uma operação política disfarçada de ação judicial. A escolha lexical não é inocente: “capturar” evoca a imagem de um criminoso comum posto sob a mira da justiça; “sequestrar” remete à arbitrariedade e à violação de soberania. Ao adotar a primeira forma sem a devida contextualização, o jornalismo brasileiro alinha-se ao enquadramento do Departamento de Justiça dos EUA, abdicando de sua função crítica.
3. Putin: ditador em um país formalmente democrático
Vladimir Putin é rotineiramente classificado como “ditador” ou “autocrata” nas manchetes nacionais, ainda que a Federação Russa possua Constituição, eleições periódicas (com ampla participação) e um sistema de poderes nominalmente separado. A crítica ao caráter iliberal do regime é legítima, mas o tratamento exclusivo que se dá à Rússia contrasta com a tolerância semântica em relação a aliados ocidentais que também cerceiam liberdades políticas. O vocabulário aplicado a Moscou torna-se, assim, menos um diagnóstico preciso e mais uma arma de distinção entre “aliados” e “adversários”.
4. O modelo de democracia estadunidense: idealizado, mas delegado
Outro vício de linguagem recorrente é a apresentação dos Estados Unidos como “a principal democracia do Ocidente” ou “o farol democrático”, sem qualquer menção à sua estrutura de delegados – onde o voto popular não elege diretamente o presidente (Colégio Eleitoral), o Senado sobre-representa estados rurais, e distritos majoritários são desenhados por critérios partidários (gerrymandering). Enquanto o sistema eleitoral brasileiro – baseado no voto direto, voto em lista aberta e justiça eleitoral independente – é tratado como “complexo” ou “falho”, o modelo americano raramente é submetido à mesma lupa. Essa idealização oculta que a democracia dos EUA funciona sob lógica de delegação que muitas vezes frustra a soberania popular, um fato raramente explicitado nas análises de política externa publicadas por aqui.
5. A ambiguidade sobre o regime democrático brasileiro
No noticiário doméstico, o Brasil oscila entre “democracia em consolidação” e “democracia frágil”, dependendo do viés editorial. Raramente se aplica aos problemas nacionais o mesmo rigor semântico reservado a países do Sul Global. A alternância de poder, o funcionamento do Supremo Tribunal Federal, o sistema eleitoral auditável e a liberdade de imprensa (ainda que ameaçada) são elementos que, em qualquer outro país, seriam usados para justificar o rótulo de “democracia robusta”. No entanto, o vício autoflagelante faz com que muitos veículos brasileiros importem uma linguagem depreciativa que desqualifica as próprias instituições, ao mesmo tempo em que enaltece modelos estrangeiros com vícios estruturais equivalentes ou piores.
6. A teologia política: regimes ayatolá = ditadura; regimes cristãos/judaicos = democracia
Talvez o vício mais evidente de viés culturalista seja a diferença de tratamento entre países de maioria muçulmana com influência religiosa institucional e países judaicos ou cristãos. O Irã é invariavelmente tratado como “ditadura dos aiatolás”, com menção destacada ao papel do Conselho dos Guardiões e à teocracia. Já Israel, que se define como Estado judeu e concede poderes substanciais ao rabinato e a partidos religiosos no controle de casamento, conversão e territórios ocupados, jamais é qualificado como “teocracia” ou “ditadura religiosa”. Do mesmo modo, países de tradição cristã como Hungria, Polônia ou Estados Unidos, onde igrejas evangélicas e católicas exercem forte pressão sobre políticas públicas, mantêm o rótulo inconteste de “democracias”. A mensagem subliminar é clara: regimes onde predomina o Islã são inerentemente autoritários; regimes onde predomina o judaísmo ou o cristianismo são naturalmente democráticos – um pressuposto que viola qualquer princípio de análise empírica.
Impactos e a necessidade de autorreflexão
Esses vícios de linguagem não são meros deslizes de redação. Eles produzem consequências concretas:
Uma análise extensa do discurso jornalístico brasileiro sobre política internacional revela que a neutralidade é sistematicamente traída por escolhas lexicais que refletem alianças de Estado, preconceitos religiosos e uma visão acrítica da democracia estadunidense. Superar esses vícios exige mais do que manuais de redação: exige um esforço consciente de simetria analítica, a disposição de aplicar os mesmos critérios a aliados e adversários, e o abandono da velha dicotomia que transforma o “outro” automaticamente em ditadura.
Enquanto o jornalismo brasileiro não confrontar suas próprias inconsistências terminológicas, seguirá servindo como caixa de ressonância de uma ordem internacional desigual, em vez de cumprir seu papel de fornecer ao público elementos para uma compreensão crítica e descolonizada do mundo.
Com informações de Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Veja, CartaCapital, Piauí, The Intercept Brasil, Reuters, Associated Press, Agência France-Presse, BBC News Brasil, Deutsche Welle Brasil, El País Brasil, The New York Times, The Washington Post, Le Monde Diplomatique Brasil, Opera Mundi, Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Observatório da Imprensa, Repórteres Sem Fronteiras, Freedom House, Human Rights Watch, Anistia Internacional, Instituto de Estudos Avançados da USP, Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NESAL) – UFRJ, Laboratório de Estudos de Imprensa (LABJOR) – Unicamp. ■