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Trump joga com a guerra para tentar conter o petróleo e o dólar
Por trás da retórica bélica contra o Irã, uma estratégia econômica articulada busca desvalorizar o dólar, forçar a queda do petróleo e reestruturar a ordem global — com custos assimétricos e riscos de descontrole
Analise
Foto: https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/54fe/live/49a84410-40c3-11f0-9f3b-adba2ba4bb4c.jpg.webp
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■   Bernardo Cahue, 23/03/2026

À primeira vista, a escalada militar no Golfo Pérsico — com ataques ao Irã, fechamento do Estreito de Ormuz e ameaças recíprocas — parece movida apenas por velhas rivalidades geopolíticas. No entanto, uma leitura mais aprofundada revela um tabuleiro mais complexo: a guerra tem sido usada pela administração Trump como alavanca para objetivos econômicos estruturais. Mais do que conter o programa nuclear iraniano, o conflito serve como instrumento para depreciar o dólar, derrubar o preço do petróleo e reconfigurar o comércio global em favor da indústria americana. A aposta é arriscada e expõe as contradições de uma estratégia que tenta conciliar “paz pela força” com a manipulação ativa dos mercados de energia e câmbio.

O “Mar-a-Lago Accord” e a cartada do dólar fraco

A chave para decifrar o movimento está no chamado “Mar-a-Lago Accord”, conjunto de propostas formuladas por Stephen Miran, então conselheiro econômico da Casa Branca. O documento defende o uso de instrumentos agressivos para reestruturar o sistema comercial global em favor dos Estados Unidos: tarifas, pressão para que aliados aumentem gastos com defesa, e sobretudo intervenção cambial para enfraquecer o dólar. A lógica é direta: um dólar mais competitivo impulsiona as exportações americanas e reindustrializa o país, ainda que isso represente um choque contra o antigo consenso do “dólar forte”. Segundo Miran, o sistema de reserva global impõe ao país um déficit comercial permanente e uma sobrevalorização cambial que penaliza o setor produtivo.

Nesse contexto, a guerra no Golfo serve como acelerador. As tensões no Oriente Médio tradicionalmente fortalecem o dólar como ativo-refúgio — mas, combinadas com intervenções coordenadas pelo Tesouro e a ameaça de taxação de fluxos estrangeiros, a administração Trump tenta reverter essa lógica. Em março de 2026, mesmo diante de um conflito aberto, o dólar apresentou movimentos de enfraquecimento após anúncios de trégua condicionada e sinalizações de que o governo prioriza a estabilidade dos preços de energia. Analistas interpretaram a oscilação como parte de um desenho mais amplo: a “pausa” nos ataques a instalações energéticas do Irã não foi apenas um recuo tático, mas uma mensagem aos mercados de que Washington está disposto a administrar a crise para não deixar o petróleo escapar ao controle.

Petróleo barato: o pilar que sustenta a jogada

Nenhuma estratégia de reindustrialização funciona com energia a US$ 120 o barril. O próprio Trump deixou claro em diversas ocasiões que o preço ideal do petróleo estaria abaixo de US$ 60, para conter a inflação e reduzir o custo de produção doméstica. Ocorre que o fechamento de Ormuz — por onde escoam cerca de 15% do petróleo mundial — gerou a mais súbita interrupção de oferta da história do setor. O Brent, que ainda em fevereiro de 2026 operava abaixo de US$ 73, disparou para mais de US$ 119 em março, ameaçando um choque inflacionário global.

Diante disso, a Casa Branca acionou um pacote contraditório: ao mesmo tempo que bombardeava alvos iranianos, liberava estoques estratégicos, negociava com o IEA uma liberação recorde de reservas (cerca de 1,2 bilhão de barris) e afrouxava temporariamente sanções contra o petróleo russo para ampliar a oferta. Em 9 de março, Trump declarou que a guerra estava “praticamente completa” e que o estreito seria reaberto; o petróleo caiu mais de 30%, aliviando as pressões sobre o custo de vida nos EUA. A coreografia foi interpretada por traders como mais um episódio do TACO — “Trump Always Chickens Out” — padrão no qual o presidente eleva a tensão ao extremo e depois recua diante dos custos econômicos.

A armadilha do “TACO trade” e os limites da estratégia

O problema estrutural, apontam analistas da Reuters e do Council on Foreign Relations, é que o próprio mercado passou a precificar o recuo como certeza. Ao fazer isso, reduz a pressão imediata sobre Trump, mas também cria um efeito perverso: com os futuros de petróleo ainda refletindo a expectativa de reabertura rápida de Ormuz, o presidente ganha margem para prolongar as operações militares sem que os preços atinjam níveis de pânico absoluto — o que adia uma solução definitiva. O analista Clyde Russell resume o paradoxo: “Ao precificar o TACO, o mercado torna o TACO menos provável”.

Além disso, a estratégia energética enfrenta limites geológicos e políticos. A produção de shale nos EUA já opera perto do pico, com os principais campos esgotando sua produtividade marginal; adicionar 300 mil barris/dia demanda mais de seis meses e depende da vontade dos acionistas, não apenas de preços altos. O afrouxamento das sanções à Rússia — que permitiu à Índia importar mais de 1,5 milhão de bpd — esbarra na capacidade de Moscou expandir produção, debilitada por anos de restrições tecnológicas. Já os estoques estratégicos, ainda que liberados, não suprem mais de 3 milhões de barris/dia, ante uma perda real estimada em mais de 10 milhões de barris diários.

Dólar enfraquecido, mercados emergentes sob pressão

O corolário da manipulação cambial é uma maior vulnerabilidade para economias periféricas. Apesar de o dólar ter mostrado quedas pontuais em anúncios de trégua, o quadro geral é de forte aversão ao risco e valorização do “refúgio” verde nos picos de tensão. Em 23 de março de 2026, o won sul-coreano desabou para mais de 1.500 por dólar, o peso mexicano e a rupia indiana bateram mínimas históricas, e os mercados acionários asiáticos registraram quedas entre 2,5% e 6,5%. O iene japonês também retrocedeu em direção à casa dos 160, revertendo parte da valorização desejada pelo Tesouro americano. Em outras palavras, o projeto de dólar fraco esbarra na lógica clássica dos fluxos de capital: quando a guerra ameaça se prolongar, investidores fogem para a moeda americana, frustrando o próprio plano que a guerra deveria viabilizar.

Crítica: o custo assimétrico da geoeconomia bélica

A análise crítica impõe uma pergunta central: a guerra pode ser efetivamente calibrada para produzir resultados econômicos sem fugir ao controle? As evidências apontam que não. Embora a Casa Branca tenha obtido vitórias táticas — como a liberação de petróleo venezuelano, a flexibilização pontual das sanções à Rússia e a contenção dos preços no varejo americano —, os custos de longo prazo se avolumam. O déficit orçamentário dos EUA ultrapassou US$ 1,9 trilhão em 2026, com os gastos com defesa e juros da dívida competindo pelo mesmo espaço fiscal. A credibilidade das instituições monetárias foi arranhada: o Federal Reserve viu sua independência questionada, e o Tesouro foi acusado de usar a política externa para manipular o rendimento dos títulos públicos.

No front externo, os aliados tradicionais europeus e asiáticos reagem com ceticismo. Ao mesmo tempo que Trump exigia que o Irã reabrisse Ormuz, Israel lançava ataques independentes, mostrando limites da coordenação. Países como China e Índia aceleraram a diversificação de reservas e a criação de canais financeiros alternativos, reduzindo a exposição ao dólar no médio prazo — exatamente o oposto do que a estratégia do “Mar-a-Lago Accord” previa. A noção de que os EUA podem usar a força militar para garantir petróleo barato e câmbio favorável sem consequências geopolíticas profundas revela-se frágil.

Entre o xadrez e o precipício

O governo Trump aposta em uma equação arriscada: usar o espectro da guerra para pressionar a oferta de energia, intervir no câmbio e forçar uma reestruturação comercial que favoreça o setor produtivo americano. A tática produziu momentos de alívio — como a queda do petróleo após anúncios de trégua e a volatilidade cambial que favoreceu exportações —, mas expôs contradições profundas. O “TACO trade” pode funcionar por algum tempo, mas a dependência de um conflito administrado permanentemente gera instabilidade crônica, desgaste da credibilidade e perda de influência justamente no sistema financeiro que os EUA tentam preservar. A guerra, nesse jogo, não é apenas um blefe: é um vetor de imprevisibilidade que, quanto mais acionado para fins econômicos, mais escapa ao controle de quem o desencadeou.

  • Objetivo cambial explícito: desvalorizar o dólar para reindustrializar os EUA, por intervenção direta ou cooperação forçada com aliados.
  • Meta energética: manter petróleo abaixo de US$ 60/baril para conter inflação e reduzir custos industriais, usando guerra e liberação de reservas como mecanismos compensatórios.
  • Paradoxo estrutural: o fechamento de Ormuz retira 10–12 milhões de bpd do mercado; apenas liberações e aumento limitado de oferta não suprem a perda, forçando recuos táticos.
  • Riscos geopolíticos: o “TACO trade” incorporado pelo mercado reduz a urgência por uma solução diplomática, prolongando o conflito e aprofundando fissuras com aliados.

Com informações de Council on Foreign Relations, ??? (Tencent Finance), Business Standard, Energy Intelligence, Reuters (ZAWYA), The Nightly, Chosun Ilbo, Investing.com, Fibo Group ■

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