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O que acontece quando uma produção cinematográfica nasce menos da intenção de contar uma história e mais da artimanha de aplicar um golpe financeiro e político? A resposta pode estar em “Dark Horse” (algo como “O Azarão”), a aguardada cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que promete estrear em meio ao turbilhão das eleições presidenciais de 2026. Entretanto, bastidores, documentos e denúncias obtidos pela imprensa desde maio revelam uma trama muito mais sombria: a de um filme repleto de ilegalidades, construído propositalmente para ser barrado, cujo verdadeiro objetivo seria lesar os cofres públicos e investidores e criar o factóide de proibição para acusar o “sistema” de censura e galvanizar a tropa bolsonarista.
A estratégia ecoa o roteiro clássico do golpe cinematográfico de “Primavera para Hitler” – só que, desta vez, sem a ironia da comédia. E pasmem, não precisa ser um grande especialista para dizer que o conjunto da obra está, inclusive, abaixo de qualquer amadorismo. Basta uma pequena olhada nos editais da Ancine, nas regras de produção brasileiras – o filme foi gravado em São Paulo – e em pesquisas sobre direito tributário básico: não passa, puramente, de um grande calote; no interim da artimanha, mais uma arma de desinformação da extrema-direita.
Fábrica de fumaça e calote: O “negócio” por trás da obra
A arquitetura financeira e regulatória de “Dark Horse” é o primeiro sinal de alerta. A produção está sob a responsabilidade da Go Up Entertainment, empresa de Karina Ferreira da Gama, que, apesar de constar como regular na Ancine, nunca havia produzido um único filme em toda a sua existência, nem no Brasil nem no exterior. Dados da agência revelam que a produtora teve seu registro confirmado apenas em 9 de julho de 2025 e está em situação regular, mas nunca lançou nenhum filme, seja no cinema, na TV aberta ou fechada. Aparentemente, a empresa foi formada para fazer o filme de Bolsonaro. Uma empresa sem histórico e criada sob medida – eis a base do esquema. As suspeitas se avolumam quando se descobre que a produtora recebeu um aporte bilionário. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, admitiu ter negociado um repasse de R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar a produção. No entanto, investigações do Intercept Brasil e da Folha mostram que os controladores do fundo Havengate, que recebeu essa verba, abriram uma empresa em Delaware, estado americano conhecido como paraíso fiscal, permitindo omitir a divulgação de sócios e de informações financeiras. A Polícia Federal investiga se os valores, que deveriam financiar o filme, podem ter sido usados para custear as despesas de Eduardo Bolsonaro, que vive no Texas. Em suma: dinheiro de um banqueiro investigado por fraudes bilionárias é enviado a um paraíso fiscal para bancar um filme de uma produtora que nunca filmou nada. A receita para o calote está pronta.
Irregularidades na veia: uma produção fora da lei para ser barrada
Qualquer produtor amador conhece as regras básicas para filmar no Brasil. “Dark Horse”, porém, desprezou todas elas. O Intercept Brasil revelou que o longa foi rodado no país pela Go Up Entertainment sem que nenhuma obrigação legal exigida pela Ancine fosse cumprida. A produção operou sem registro da obra, sem contratos apresentados, sem comprovação de vistos de trabalho para seu elenco majoritariamente estrangeiro e sem o pagamento de direitos trabalhistas devidos a parte da equipe brasileira. A Agência Nacional do Cinema confirmou que a produtora jamais protocolou qualquer documentação em seus sistemas, e que não houve comunicação ou autorização para o filme, nem pedido de registro para lançamento comercial no Brasil. A consequência natural, diante de tantas ilegalidades, seria a proibição da obra pela Ancine. E é aí que reside o cerne da trama: ao ser barrada por infringir a lei, os produtores pretendem acusar o “sistema” – com o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os ministros Alexandre de Moraes e Edson Fachin como alvos preferenciais – de perseguição e censura. O objetivo é claro: transformar a proibição em combustível para o discurso de vitimização bolsonarista.
Assédio, exploração e um roteiro de “baixíssimo orçamento”
Se o aspecto financeiro já é nebuloso, as condições de trabalho nos sets de filmagem foram um retrato do caos. Denúncias registraram um ambiente de trabalho abusivo, com relatos que incluem agressão física, assédio moral recorrente e até mesmo revistas íntimas humilhantes realizadas em figurantes brasileiros. Um dossiê do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (Sated-SP) aponta que os trabalhadores relataram receber comida estragada e sofrer com atrasos nos pagamentos, além de terem atuado sem a assinatura dos contratos obrigatórios do setor. O Ministério Público do Trabalho abriu um inquérito para investigar as irregularidades. A situação contrasta com a propaganda da produção, que se vendeu como uma obra em “padrão hollywoodiano”, mas que, de acordo com o deputado Mário Frias (PL-SP), idealizador do projeto, era na verdade um thriller de “baixíssimo orçamento” e, segundo analistas de cinema, com péssimo roteiro, comparado às obras "de fabricação caseira" dos humoristas Hermes e Renato na MTV. A equipe brasileira foi tratada como figurante em seu próprio país, em um projeto que nunca teve a intenção de respeitar as leis trabalhistas e os direitos dos profissionais nacionais.
O Timing Perfeito: Lançamento em Plena Campanha Eleitoral
O lançamento de “Dark Horse” está previsto para setembro de 2026, a apenas um mês das eleições presidenciais. Produtores chegaram a cogitar antecipar a estreia para julho, demonstrando a pressa em usar a obra como uma ferramenta de propaganda política. A data não é obra do acaso. A ideia é clara: explorar a comoção gerada pela proibição do filme para construir uma narrativa de “mártir da liberdade de expressão”, angariar mais doações de apoiadores desavisados e tentar influenciar o voto. A combinação de uma inelegibilidade iminente do ex-presidente com o escândalo financeiro de seu filho poderia ser fatal para a campanha, mas o filme surge como um “salvador da pátria” para a direita radical, como apontou a análise do jornal Financial Times, que classificou a produção como uma “comédia de erros” que ameaça a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Primavera para Hitler: O Roteiro do Fracasso Anunciado
A comparação com o clássico filme “Os Produtores” (1968), de Mel Brooks, é inevitável e assustadoramente precisa. Na comédia, os vigaristas Max Bialystock e Leo Bloom criam o pior musical da história, “Primavera para Hitler”, com o objetivo claro de que a peça fracassasse, os investidores perdessem todo o dinheiro e eles pudessem embolsar o montante arrecadado. A análise do Diário do Centro do Mundo destaca que, em ambos os casos, o centro da trama não é a arte, mas o ecossistema de interesses, picaretagem e dinheiro ao redor do espetáculo. “Dark Horse” é a versão brasileira dessa patranha: uma obra de roteiro ruim, repleta de distorções históricas para transformar Bolsonaro em um mártir, e construída para não dar certo, a fim de gerar o lucro do calote e o capital político da comoção. A diferença crucial é que, enquanto em “Os Produtores” o plano dá errado porque o público aplaude a peça como sátira, em “Dark Horse” o plano parece ser o de transformar o fracasso em combustível para uma guerra cultural, explorando a má-fé e a desinformação.
O cavalo perdedor que quer ser vítima.
“Dark Horse” não é um filme; é um golpe. Um esquema arquitetado para lesar investidores, fraudar o sistema de incentivo à cultura, sonegar impostos, explorar trabalhadores e, acima de tudo, criar um novo capítulo na narrativa de perseguição que alimenta o bolsonarismo. Cada irregularidade foi meticulosamente planejada para que a obra fosse barrada, e cada etapa desse processo será usada para acusar o sistema de censura, inflar o ego dos apoiadores e desviar o foco de crimes reais. A pergunta que fica não é por que o filme será barrado – já que a resposta está na própria ilegalidade da produção —, mas sim por que seus criadores acham que ninguém irá perceber a armadilha. A história do cinema já mostrou que, para os espertalhões, o fracasso pode ser mais lucrativo que o sucesso. No Brasil de 2026, eles apostaram todas as fichas num cavalo azarão falando em inglês. E, bem longe do herói descrito por Chico Buarque em João e Maria, só servindo mesmo para aumentar o tom da piada: bolsonarista raiz, como adorador de tudo que vem dos Estados Unidos, só vê e aplaude filme dublado. Desta vez, nem chegará a ver.
Com informações de BBC News Brasil, CNN Brasil, O Globo, Folha de S.Paulo, The Intercept Brasil, Diário do Centro do Mundo, Poder360, IG Último Segundo, CartaCapital, Agência Pública, Vermelho e Omelete ■