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Globo estaria na caixinha de Vorcaro?
Análise revela o circuito financeiro completo: o dinheiro do Banco Master que abasteceu a Globo por meio de patrocínios milionários saiu dos cofres públicos estaduais – geridos por governadores que foram estrelas em evento –, enquanto a cobertura jornalística do grupo os blindou e direcionou as acusações contra o PT e o governo federal
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 23/03/2026

A teia de relações entre o Banco Master e o Grupo Globo deixou de ser um conjunto de indícios para se revelar, nos últimos dias, como um circuito financeiro e político perfeitamente articulado. As evidências disponíveis indicam que o dinheiro investido pelo banqueiro Daniel Vorcaro na emissora – em forma de patrocínios milionários – teve como origem recursos públicos de estados e municípios, direcionados ao Master por governadores que, ao mesmo tempo, eram prestigiados como convidados e palestrantes em eventos de luxo promovidos pela Globo. Completa-se, assim, o elo: o dinheiro público que abasteceu o esquema do Master retornou à Globo sob a forma de patrocínios, selando uma relação de mútua proteção editorial que explica a seletividade da cobertura do escândalo.

O patrocínio milionário e a chancela da credibilidade
Em maio de 2024, o Banco Master estampou seu logotipo como o principal patrocinador do Summit Valor Econômico Brazil-USA, evento realizado no luxuoso Hotel Plaza em Nova York para celebrar os 25 anos do jornal Valor Econômico, do Grupo Globo. O patrocínio, avaliado em cerca de R$ 10 milhões , não foi um mero negócio comercial. Tratou-se de um investimento de Vorcaro para adquirir um bem intangível, mas fundamental para seus negócios futuros: o selo de credibilidade das Organizações Globo.

O banqueiro, que naquele momento iniciava sua escalada no mercado financeiro, foi tratado como uma das principais estrelas do encontro. Subiu ao palco como orador de abertura, agradeceu publicamente aos executivos e jornalistas da casa e foi apresentado como “amigo” por Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio. Em seu discurso, Vorcaro não poupou elogios: “Cumprimento o ‘Fred’ e toda a equipe que admiro bastante: Lauro, Maria Fernanda, Álvaro, Malu e todos os demais”. A referência direta a Lauro Jardim e Malu Gaspar, colunistas de O Globo, expôs publicamente a intimidade que o banqueiro mantinha com a cúpula do jornalismo da casa.

Governadores na vitrine: o outro lado do patrocínio
O mesmo evento que consagrou Vorcaro como “banqueiro confiável” diante da elite financeira brasileira e internacional serviu como plataforma de lançamento para governadores que, meses depois, seriam os principais responsáveis por injetar recursos públicos no Banco Master. Segundo a própria cobertura do Valor Econômico, estiveram presentes e fizeram apresentações sobre “agendas de investimentos de grande porte” os governadores :

  • Cláudio Castro (PL-RJ)
  • Mauro Mendes (Mato Grosso)
  • Eduardo Riedel (Mato Grosso do Sul)
  • Tarcísio de Freitas (São Paulo)
  • Helder Barbalho (Pará)
  • Ratinho Junior (Paraná)
  • Ronaldo Caiado (Goiás)

O vínculo entre a participação no evento patrocinado por Vorcaro e os posteriores aportes de recursos públicos no Banco Master é direto e documentado. Em especial, o governador Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, que marcou presença no Summit em Nova York, foi responsável por uma das maiores operações de direcionamento de recursos ao Master: a Rioprevidência aplicou cerca de R$ 970 milhões em letras financeiras do banco, mesmo após alertas de risco. O Tribunal de Contas do Estado já havia identificado irregularidades e ordenado a suspensão de novas aplicações ainda em 2023, mas os repasses prosseguiram.

No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) – ausente do evento em Nova York, mas igualmente poupado nas análises da Globo – protagonizou um dos capítulos mais graves: seu escritório de advocacia firmou contratos de venda de precatórios com fundos ligados ao Master e à Reag Investimentos, somando R$ 38 milhões em 2024. Ao mesmo tempo, o Banco de Brasília (BRB), estatal do governo do DF, comprou títulos do Master em operações que chegaram a R$ 8 bilhões e tentou adquirir o controle do banco.

O dinheiro público que voltou para a Globo
O circuito financeiro fecha-se quando se constata que os recursos públicos direcionados ao Banco Master por esses governadores – especialmente por Cláudio Castro e Ibaneis Rocha – foram, em parte, convertidos em patrocínios pagos por Vorcaro ao Grupo Globo. O Master não apenas patrocinou o evento em Nova York, como também foi parceiro da emissora no Carnaval carioca, estampando seu logotipo ao lado do da Globo no camarote da revista Quem e do jornal O Globo.

Nesses camarotes, Vorcaro circulava como “anfitrião” e “verdadeiro dono da casa”, segundo relatos. Em dezembro de 2025, quando o Banco Master já enfrentava graves problemas de liquidez, o Will Bank – controlado pelo mesmo grupo – tornou-se patrocinador do Domingão, com Luciano Huck atuando como garoto-propaganda. A negociação entre Huck e Vorcaro para a compra do Will Bank chegou a ser tratada em diálogos vazados.

A blindagem editorial e a seletividade acusatória
Diante desse intrincado emaranhado de negócios e interesses, a cobertura da Globo sobre o escândalo do Banco Master adotou uma linha editorial que pode ser interpretada como uma tentativa de ocultar o próprio envolvimento e desviar o foco. O “PowerPoint da GloboNews”, exibido em março de 2026, foi duramente criticado por tentar associar o escândalo ao presidente Lula e ao PT, desconsiderando que nem o partido nem seus filiados são citados em qualquer investigação da Polícia Federal sobre o esquema.

O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) classificou a apresentação como “muito grave” e apontou as omissões significativas: não aparecem no PowerPoint os governadores Cláudio Castro, Ibaneis Rocha, Tarcísio de Freitas, nem o ex-presidente Jair Bolsonaro, que recebeu recursos de doadores ligados ao entorno de Vorcaro. Também não são citados Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central que acobertou as irregularidades do Master e hoje é executivo do Nubank – empresa da qual a família Marinho é sócia.

O silêncio sobre Campos Neto é particularmente revelador. Durante sua gestão no Banco Central, ele editou normas que deram fôlego ao Master e, ao deixar o cargo, foi contratado como principal executivo do Nubank, instituição em que a Globo Ventures adquiriu participação societária. A Globo ofereceu espaço publicitário na TV em troca de ações do banco digital – que hoje é comandado justamente por aquele que, na visão de analistas, foi um dos principais responsáveis por permitir que o esquema do Master prosperasse.

Conflito de interesses estrutural
A relação entre Globo e Vorcaro transcendeu os negócios comerciais e alcançou a esfera pessoal. Kachar, o executivo que chamou Vorcaro de “amigo” em Nova York, manteve um namoro público com a atriz Monique Afradique – mesma pessoa que, na agenda do banqueiro preso, aparecia sob o codinome “Allan do TI”. Ambos circularam nos mesmos ambientes sociais e selaram parcerias no Carnaval e em eventos corporativos.

Diante desse cenário, a tentativa da Globo de se apresentar como um tribunal independente que investiga o “esquema criminoso” do Master colide frontalmente com as evidências de que a emissora foi, na prática, uma das maiores beneficiárias do dinheiro público desviado para o banco. O patrocínio de R$ 10 milhões no evento em Nova York não foi um gesto isolado de Vorcaro – foi parte de uma estratégia de compra de influência e legitimidade, que incluía a blindagem de seus aliados políticos na cobertura jornalística.

O elo final: por que a Globo protege governadores e ataca o PT
A resposta para a seletividade editorial torna-se evidente quando se analisa o circuito financeiro completo. Os governadores que participaram do evento patrocinado por Vorcaro em Nova York – Cláudio Castro, Tarcísio, Ratinho Jr., Caiado e demais – são os mesmos que, em suas gestões, direcionaram recursos de fundos de previdência e estatais para o Banco Master. E esses recursos, em boa medida, retornaram à Globo sob a forma de patrocínios e publicidade.

Em outras palavras: o dinheiro público saiu dos cofres estaduais, abasteceu o esquema de Vorcaro, e parte dele voltou para os cofres da Globo, que em troca ofereceu a esses governadores uma cobertura jornalística complacente e direcionou sua artilharia contra o PT – que não tem qualquer envolvimento comprovado com o escândalo. O “novo PowerPoint” da GloboNews, portanto, não é apenas um exercício de mau jornalismo: é a peça final de um esquema de autopreservação corporativa, em que a emissora tenta jogar para a plateia a culpa por um incêndio que ela mesma ajudou a atear.

Enquanto isso, o Banco Central liquida o Master, a Polícia Federal avança nas investigações e os aposentados fluminenses aguardam o resgate de seus recursos perdidos. A Globo, porém, segue calada sobre seu próprio papel – como patrocinada, como parceira, como plataforma de legitimação e, agora, como juíza de um caso do qual foi parte interessada.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, Revista Fórum, Hora do Povo, ICL Notícias, Correio da Manhã, Pensar Piauí, noticiaspb.com.br, O Cafezinho

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