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Na última semana, a Globonews dedicou uma de suas análises centrais ao chamado “esquema criminoso do Banco Master”. Com um tom de denúncia contundente, a emissora buscou costurar uma ligação direta entre a instituição financeira, o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula. A peça jornalística, apresentada como um painel analítico, repetiu uma estratégia já conhecida do público brasileiro: a de oferecer um “dossiê” emocional, repleto de insinuações, mas desprovido de factos que constem dos autos das investigações em curso. Mais grave: ignorou sistematicamente que nem o PT nem qualquer filiado da legenda são citados nas apurações da Polícia Federal sobre o Banco Master, ao mesmo tempo que silenciou sobre os nomes de governadores de sete estados – de diferentes matizes partidários – que participaram de um evento em Nova York promovido por Vorcaro, empresário com ligações históricas à instituição, evento este que antecedeu depósitos milionários de entes públicos de São Paulo e Rio em carteiras do banco.
A construção narrativa lembra imediatamente o famoso “PowerPoint de Dallagnol”, apresentado pelo então procurador da Lava?Jato como uma “apresentação de resultados” que, mais tarde, revelou-se uma peça de propaganda judiciária, repleta de vazamentos seletivos e interpretações descontextualizadas. Agora, a Globonews assume o papel de reproduzir esse modelo: um produto audiovisual estilizado, com gráficos e frases de efeito, que tenta substituir a investigação factual por uma acusação política de contornos difusos. O paralelo é inquietante: onde a Lava?Jato usou uma apresentação em PowerPoint para consolidar uma narrativa anticorrupção que mais tarde ruiria por excessos e parcialidade, a Globonews utiliza seu espaço nobre de análise para forjar uma nova “prova” midiática – desta vez contra o PT – enquanto ignora os reais personagens que circulam pelo entorno do Banco Master.
Os fios ocultos da cobertura: jornalistas da Globo no centro do furacão
O que torna a abordagem ainda mais questionável é a posição de três figuras centrais da própria casa: Malu Gaspar, Frederic Kachar e Lauro Jardim. Todos eles, com atuação destacada na cobertura política e econômica do grupo Globo, mantêm relações profissionais ou pessoais com personagens-chave do caso Banco Master – desde lobistas a advogados que operam nas entrelinhas do escândalo. Em vez de declarar conflitos ou recusar-se a pautar o assunto, esses jornalistas têm sido protagonistas na divulgação de versões que convergem para o mesmo ponto: associar o PT ao esquema, mesmo sem qualquer elemento probatório. A situação coloca a emissora em uma posição delicada – ela mesma “no olho do furacão”, como apontam críticos de mídia –, pois a linha editorial que empurra a narrativa anticorrupção para um alvo específico coincide com interesses privados de seus próprios articulistas.
Enquanto isso, um fato concreto permanece fora do enredo da Globonews: a participação direta de governadores de sete estados em um evento promovido por Vorcaro em Nova York, que serviu como antesala para depósitos expressivos realizados por instituições financeiras públicas de São Paulo e Rio no Banco Master. Os governadores são:
A reunião em território norte-americano, regada a encontros de negócios e articulações políticas, ocorreu exatamente no período em que foram tomadas as decisões que levariam recursos de estatais e fundos públicos para aplicações no Banco Master. Nenhum desses governadores – alguns deles cotados como possíveis adversários de Lula nas eleições seguintes – foi alvo das insinuações da análise da Globonews. Pelo contrário: a narrativa construída pelo canal esforçou-se para transformar uma operação de mercado com participação de múltiplos agentes públicos num “esquema petista”, descolando-se completamente dos fatos apurados pela Polícia Federal até o momento.
O método do PowerPoint: entre a espetacularização e a seletividade
Na Lava?Jato, o uso de apresentações visuais com recortes de depoimentos e organogramas serviu para criar a ilusão de um “esquema monolítico” que jamais existiu na forma como foi vendido à opinião pública. A força da imagem sobrepôs-se à complexidade das investigações, gerando condenações sumárias na esfera midiática antes mesmo da análise técnica. Agora, o “novo PowerPoint da Globonews” repete a cartilha: ao formatar uma análise em tom de denúncia, com vinhetas dramáticas e uma curadoria de informações que exclui sistematicamente os envolvidos não-petistas, o canal transforma uma operação financeira multifacetada – que envolve governadores de partidos que vão do PSDB ao Republicanos, passando pelo PSD e União Brasil – em um enredo exclusivamente dirigido contra o PT.
O silêncio sobre os governadores listados acima é revelador. Todos eles tiveram participação direta ou indireta no evento de Nova York, ou em decisões correlatas que beneficiaram o Banco Master. Ainda assim, a análise da Globonews preferiu destacar declarações antigas de Lula sobre o sistema financeiro e usar imagens de arquivo do presidente para sugerir um vínculo que nem a Polícia Federal – que já deflagrou fases da Operação Façade sobre o caso – ousa afirmar. Trata-se, portanto, de um exercício de seletividade acusatória, em que a emissora elege um alvo político e molda os fatos para atingi-lo, emulando os métodos que marcaram a atuação da força-tarefa de Curitiba.
Quem financia, quem se beneficia e quem investiga
Outro ponto que a análise do canal ignora é o próprio papel do Grupo Globo no ecossistema financeiro e publicitário que envolve grandes bancos. Enquanto seus colunistas apresentam um “esquema criminoso” como se fosse uma trama exclusiva do PT, a empresa mantém contratos milionários de publicidade com instituições financeiras que também figuram em operações investigadas. Além disso, a proximidade de jornalistas da casa com os operadores do caso – como os já mencionados Malu Gaspar, Frederic Kachar e Lauro Jardim – levanta um conflito de interesses estrutural, que jamais foi objeto de nota de esclarecimento ou de recusa de pauta pela emissora. No auge da Lava?Jato, esse tipo de promiscuidade entre jornalismo, poder econômico e persecução penal foi duramente criticado pela própria imprensa internacional; agora, parece ter sido naturalizado novamente.
A comparação com o “PowerPoint de Dallagnol” não é meramente retórica. Em ambos os casos, temos um material de comunicação produzido para gerar comoção, que oculta a complexidade dos fatos e opera uma redução política: onde a Lava?Jato resumia a corrupção ao PT, a Globonews tenta resumir o Banco Master a Lula. A diferença é que, naquele momento, a apresentação do procurador era endereçada a juízes e ao Ministério Público; hoje, o PowerPoint midiático é exibido em horário nobre da TV por assinatura, sem que haja qualquer ação penal formal contra o partido ou seus líderes no âmbito do inquérito do Banco Master. A estratégia, contudo, é a mesma: fabricar um fato político pela repetição incessante de uma narrativa, mesmo que os autos digam o contrário.
O custo democrático da repetição dos erros
A experiência da Lava?Jato deixou lições amargas para o jornalismo brasileiro. A cobertura acrítica da operação, pautada por vazamentos seletivos e por uma adesão acrítica à narrativa da força-tarefa, resultou em danos irreparáveis à credibilidade de veículos de imprensa e ao próprio Estado de Direito. Ao replicar agora o mesmo formato – agora com a agravante de omitir o envolvimento de governadores e de seus próprios jornalistas – a Globonews não apenas repete os erros do passado, mas também revela um compromisso menor com a isenção e maior com um projeto político de desgaste do governo federal. O “novo PowerPoint” não é inovador: é uma reedição desgastada de uma prática que o país já condenou.
Diante disso, cabe à sociedade e às entidades de classe do jornalismo uma reflexão sobre os limites entre a análise legítima e a fabricação de narrativas com fins políticos. Enquanto isso, os governadores que realmente participaram do evento em Nova York e cujas gestões direcionaram recursos ao Banco Master seguem imunes ao escrutínio que a emissora reservou ao PT. O PowerPoint de 2024, tal qual o de 2016, mostra que, para determinados setores da imprensa, a verdade continua sendo um detalhe negociável.
Com informações de The Intercept Brasil, Piauí, Folha de S.Paulo, UOL, Poder360, Metrópoles, Agência Pública, CNN Brasil ■