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Julgamentos sumários e execuções públicas no Irã: entre o "espanto" ocidental e a realidade cultural
Ao ordenar julgamentos rápidos e enforcamentos em praça pública, regime iraniano reacende debate sobre a distância entre a cobertura jornalística ocidental e as tradições de países árabes
Analise
Foto: https://ogimg.infoglobo.com.br/in/10329793-b83-bc2/FT1086A/2007-054610-_20070801.jpg
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■   Bernardo Cahue, 14/01/2026

Repressão em praça pública

O chefe do Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni-Ejei, ordenou que os julgamentos de manifestantes sejam realizados em público e que as sentenças sejam executadas rapidamente, inclusive por enforcamento. A medida é uma resposta à terceira semana de protestos que já deixou mais de 2.500 mortos e 18 mil prisões. Em 2025, o número de execuções no Irã mais que dobrou em relação ao ano anterior, alcançando 2.063 casos – o maior patamar em 11 anos.

O "espanto" que ignora a história

A cobertura jornalística ocidental costuma tratar essas práticas com surpresa e indignação, como se fossem uma anomalia. No entanto, julgamentos e execuções públicas têm raízes milenares em diversas tradições do Oriente Médio, onde são vistas como uma forma de justiça retaliatória (o "Qisas") e de demonstração de autoridade. A mídia ocidental, porém, "arrasta os pés" na hora de contextualizar tais eventos, preferindo uma narrativa que enfatiza o "bárbaro" em detrimento do histórico e cultural.

O legado das intervenções ocidentais

Longe de serem exclusividade do Irã, essas práticas ressurgiram com força em países que sofreram intervenções militares lideradas pelos Estados Unidos neste século. No Afeganistão, o Talibã reinstituiu a justiça "olho por olho", realizando execuções públicas em estádios de futebol. No Iraque, que junto com Irã e Arábia Saudita responde por 91% das execuções registradas no mundo, a pena de morte foi amplamente reativada após a invasão de 2003. A própria invasão do Iraque, justificada sob falsos pretextos, resultou em centenas de milhares de mortes civis e criou um terreno fértil para a violência sectária e a brutalidade judicial.

Uma análise necessária

O choque cultural gerado por essas notícias revela mais sobre as lentes ocidentais do que sobre as realidades locais. É preciso evitar duas armadilhas:

  • Generalização cultural: Associar toda uma região ou religião a práticas extremas, ignorando a diversidade de interpretações e contextos.
  • Hipocrisia seletiva: Condenar violências no exterior enquanto se ignora ou apoia intervenções que destroem Estados e alimentam ciclos de violência.

O debate sobre direitos humanos ganha profundidade quando reconhece que a brutalidade estatal muitas vezes é fruto de conjunturas políticas específicas – incluindo a herança de guerras e ocupações – e não de uma essência cultural imutável.

Com informações de: G1, Folha de S.Paulo, A Referência, O Globo, Jacobin Brasil ■

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